Palestra TED de David Christian: Complexidade da Grande História Transformada em Simplicidade

A 2ª Lei da Termodinâmica ou a Lei da Entropia afirma que a tendência geral do universo é se mover da ordem e estrutura para a falta de ordem e estrutura, ou seja, para a desordem.

Logo, o universo não vai da desordem para a complexidade. Contudo, o que vemos ao nosso redor é uma desafiante complexidade. Bilhões de bens e serviços são negociados por uma espécie (Homo sapiens) com mais de sete bilhões de indivíduos que são ligados pelo comércio, viagens e internet a um ecossistema global de estupenda complexidade.

Em um universo governado pela 2ª Lei da Termodinâmica, como é possível gerar esse tipo de complexidade auto-organizada? A complexidade é gerada passo a passo. A cada momento limiar, o avanço torna-se mais difícil, pois as coisas complexas parecem tornar-se mais frágeis, mais vulneráveis, com maior tendência para o colapso.

O significado de colapso, em Ciências Sociais, é a diminuição súbita de eficiência, de poder político, devido à derrocada, ao desmoronamento, à ruína econômica e social. Já o colapso gravitacional é o processo de contração de uma estrela e compressão de sua massa a dimensões centenas de vezes menores que as originais, por ação de seu próprio campo gravitacional, acompanhado de intensa emissão de energia. Isso se dá nos estágios finais de sua evolução, após se extinguirem suas reservas dos materiais que alimentam suas reações nucleares.

Nós, como criaturas extremamente complexas, necessitamos desesperadamente conhecer esta grande história de:

  1. como o universo gera a complexidade auto-organizada, a despeito da 2ª Lei, e
  2. por que a complexidade significa vulnerabilidade e fragilidade.

Do nada há um Big-Bang e um universo aparece! Cruzamos o nosso primeiro momento limiar. O universo inicial é menor do que um átomo, mas extremamente quente. Dentro do primeiro segundo, a própria energia separa-se em forças distintas, incluindo o eletromagnetismo e a gravidade. Essa energia se solidifica para formar a matéria: quarks que criarão os prótons e léptons que incluem os elétrons.

Avancemos 380.000 anos. Isso é o dobro do tempo de existência dos humanos Sapiens neste planeta. Então, átomos simples aparecem de hidrogênio e hélio.

Diferenças mínimas de temperatura em enormes nuvens de átomos de hidrogênio e hélio, sem nenhuma estrutura, eram suficientes para que o universo avançasse para o estágio seguinte de criação de complexidade.

Onde você tem áreas um pouco mais densas, a gravidade começa a compactar as nuvens de átomos de hidrogênio e hélio. A cada nuvem entre bilhões que é compactada, a gravidade torna-se mais poderosa à medida que a densidade aumenta, a temperatura começa a subir, no centro de cada qual, até ultrapassar o limiar de temperatura de 10 milhões de graus. Então, os prótons começam a se fundir, há uma enorme liberação de energia, e BANG! Temos as nossas primeiras estrelas!

Cerca de 200 milhões de anos depois do Big-Bang, bilhões de estrelas começam a aparecer por todo o universo. O universo torna-se significativamente mais interessante e mais complexo. É o segundo limiar de complexidade.

Quando estrelas muito grandes morrem, elas criam temperaturas tão altas que os prótons começam a se fundir em todo o tipo de combinações exóticas, para formar todos os elementos químicos da Tabela Periódica. É o terceiro limiar de complexidade.

Em um universo quimicamente mais complexo, em torno de jovens estrelas ou sóis, todos esses elementos químicos se combinam, pois a energia da estrela os move em uma gravitação ao redor de si. Eles formam partículas, flocos de neve, pequenos grãos de poeira, rochas, asteróides e, eventualmente, planetas e luas.

Foi assim que o nosso sistema solar foi formado, quatro bilhões e meio de anos atrás. Planetas rochosos como a nossa Terra são significativamente mais complexos do que estrelas, pois eles contêm uma diversidade muito maior de materiais. Portanto, cruzamos um quarto limiar de complexidade.

Organismos vivos são gerados pela química. Somos grandes pacotes de produtos químicos. Tal química é governada pela força eletromagnética. Que opera em escalas menores do que a gravidade, o que explica porque nós, compostos orgânicos, somos menores do que as estrelas e os planetas.

No centro de uma estrela, há energia demais, tanta energia que, quaisquer átomos que se combinem, serão separados de novo. No espaço intergalático, há tão pouca energia que os átomos não conseguem se combinar. Nos planetas, por sua vez, há a quantidade certa de energia, pois eles estão próximos das estrelas, mas não tão próximos.

Dada uma grande diversidade de elementos químicos, é necessário um líquido, tal como a água, porque, nos gases, os átomos passam uns pelos outros tão rapidamente que eles não conseguem se aglomerar. Nos sólidos, os átomos estão tão juntos, que não podem se movimentar. Nos líquidos, eles podem se mover e se ligarem para formar moléculas.

O planeta Terra estava, simplesmente, na distância certa de sua estrela para conter enormes oceanos de água livre. Na profundeza destes oceanos junto às fendas da crosta terrestre, havia calor jorrando do interior da Terra, com uma grande diversidade de elementos químicos. Então, os átomos combinaram-se em todos o tipos de arranjos.

Não se estabilizam, de imediato, as moléculas já sob forma de indivíduos. Estabiliza-se o molde, isto é, o que carreia a informação que permite a cópia de si mesmo. Cada degrau da dupla hélice da molécula DNA contém informação sobre como fazer organismos vivos, copiando a si mesmo. Então, essa autoprodução espalha os moldes pelo oceano, propagando informação.

A criatividade do DNA, todavia, está em suas imperfeições. À medida em que ele se copia, uma vez em cada bilhão de degraus, tende a ocorrer um “erro” acidental. Com esse evento aleatório, aquele DNA aprende e acumula novas formas de fazer organismos vivos, pois alguns daqueles erros são adequados à evolução. Então, o DNA está gerando maior diversidade e maior complexidade. Isto tem acontecido ao longo dos últimos 4 bilhões de anos…

Durante a maior parte do tempo de vida na Terra, os organismos vivos eram relativamente simples: células isoladas. Mas tinham grande diversidade, e, em seus interiores, grande complexidade.

Depois, a partir de 600 a 800 milhões de anos atrás, organismos multicelulares aparecem, por exemplo, em fungos, peixes, plantas, anfíbios, répteis, e bem depois, dinossauros. Ocasionalmente, acontecem novos desastres acidentais. Há 65 milhões de anos, um asteroide chocou-se na Terra, perto da península de Yucatán, criando condições semelhantes àquelas de uma guerra nuclear, e os dinossauros foram aniquilados.

Nossos ancestrais mamíferos floresceram nos nichos vazios deixados pelos dinossauros. Nós, seres humanos, somos parte desse impulso criativo evolutivo.

Os animais humanos conhecidos como Homo sapiens aparecem por volta de 200.000 anos atrás. O DNA acumula informação através de erros aleatórios, alguns dos quais, acabam dando certo muito lentamente. Mas o DNA, no entanto, gerou um modo mais rápido de aprender, produzindo organismos vivos com cérebros que podem aprender em tempo real.

Os organismos vivos com cérebros que acumulavam informação, aprendendo com intuições e repetidas tentativas-e-erro, quando morriam, a informação morria com eles. O diferencial que permitiu os Homo sapiens serem sobreviventes, enquanto outras raças humanas foram extintas, foi a linguagem. Ela permite compartilhar aquilo que aprendemos, sendo acumulado na memória coletiva de geração em geração. Supomos ser a única espécie, em 4 bilhões de anos, a ter este dom.

David Christian chama esta habilidade de aprendizado coletivo. Esta diferença funciona desde a revolução cognitiva70.000 anos antes do tempo presente. Nós evoluímos, como espécie, nas áreas de savana da África, mas depois os humanos migraram para novos ambientes como terras desertas, florestas, tundra glacial da Sibéria, Américas, Australásia, etc. Cada migração envolveu aprendizagem, aprendendo novas maneiras de explorar o ambiente, novas maneiras de lidar com seus arredores. A cooperação entre os Sapiens permitiu habilidade maior em caça, coleta e ataques aos outros animais humanos e seus habitats.

12.000 anos, explorando uma súbita mudança climática global com o fim da última era glacial, os humanos aprenderam a cultivar, gerando energia para as populações humanas se multiplicarem em sociedades mais interligadas. Foi a revolução agrícola.

Então, desde há cerca de 500 anos, com a revolução científica, os humanos começaram a unir-se globalmente através de navios, trens, telégrafo, internet. Agora, parecemos formar um único cérebro global com mais de 7 bilhões de indivíduos.

Nos últimos 200 anos, ocorreu uma revolução industrial e outra bonança energética através de combustíveis fósseis. Conjuntamente com o aprendizado coletivo, essa disponibilidade de energia explica a desconcertante complexidade que vemos à nossa volta.

Não está claro que nós, humanos, estamos com a força do aprendizado coletivo sob controle, o que sujeita a biosfera inteira à destruição por uso de armas nucleares. Estamos também queimando combustíveis fósseis em uma taxa tal que parecemos estar minando as condições ambientais que possibilitaram às civilizações humanas florescerem nos últimos 12.000 anos.

Portanto, o que a Grande História pode fazer é mostrar-nos a natureza de nosssa simultâneas complexidade e fragilidade. Alerta para os perigos de colapso, que nos afrontam, mas ela pode nos mostrar também nosso poder com o aprendizado coletivo.

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