Como Conversar Com Um Fascista

Como conversar com um fascista

Sinais do nosso tempo: o livro de Márcia Tiburi (1970- ), “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” (1a . ed. – Rio de Janeiro : Record, 2015) tornou-se um best-seller. Seus textos – artigos publicados na revista Cult – têm um propósito filosófico-político: pensar com os leitores sobre questões da cultura política experimentada diariamente, de um modo aberto, sem cair no jargão acadêmico. O jargão assombra muita gente leiga, limitando o alcance público da reflexão.

É com a linguagem que fazemos Filosofia. A Filosofia é um acontecimento da linguagem. A linguagem disponível é a “língua de todo mundo” que usamos diariamente para nos comunicar e nos expressar. Mas existe um jeito de reunir os “jogos de linguagem”, um elemento que constrói o “comum”: o diálogo.

Talvez isso que atraia leitores para o livro. Insistir em uma “filosofia em comum” com seus pares, gente do lado que, na gana de fazer oposição desenfreada a um governo que alcançou o quarto mandato eleitoral, passou a ter um comportamento fascista. Quando a conversa não é um simples consenso, é necessário muito esforço para obter diálogo.

Porém, a formação da subjetividade para o diálogo é algo que importa quando desejamos uma sociedade democrática, quando o autoritarismo cresce e aparece. Diálogo é a forma específica do ativismo filosófico. A democracia que salvaguarda os direitos e impede a violência está ameaçada em todos os espaços da cultura, das instituições e do cotidiano. Não podemos fingir que nada está acontecendo enquanto muitos descobrem essa verdade na própria pele.

“O pensamento não é neutro: ou ele é confirmação do estado de coisas, ou é crítico e transformador das subjetividades na direção de um pensamento lúcido entrelaçado a práticas lúcidas em tempos obscurantistas.” Em nome disso que o livro de Marcia Tiburi, “Como conversar com um fascista”, foi escrito.

Na ótima Apresentação feita por Rubens Casara, que aqui compartilharei de maneira editada, ele afirma que as diversas manifestações neofascistas e o crescimento de posturas autoritárias indicam que não há razão para temer o ovo da serpente, pois a serpente já existe e está dentro de cada um de nós. Em outras palavras, há uma tradição autoritária, uma cultura discriminadora, que coloca cada um na posição de um fascista em potencial.

Esse “fascismo potencial” está presente no psiquismo de cada indivíduo, faz com que práticas fascistas sejam facilmente naturalizadas. O fascismo, porém, não necessita de racionalizações, pois, ao contrário, ele se alimenta de dados que não suportam qualquer juízo crítico. Portanto, esses “dados sem argumentos” tornam-se aptos a serem incorporados por todos e, com mais facilidade, pelos mais ignorantes. Não aceitam contra-argumentos, eliminados a priori.

Fascismo, aliás, é uma palavra que precisa ser bem compreendida. Ela se origina de fascio (do latim fascis), símbolo da autoridade dos antigos magistrados romanos, que utilizavam feixes de varas com o objetivo de abrir espaços para que passassem, ou seja, constituía um exercício de poder sobre o corpo do indivíduo que atrapalhava o caminho. Nada tão expressivo, metaforicamente, foi a “condução coercitiva sob vara”, fruto de decisões mandatórias do juiz Sérgio Moro, para inúmeros “suspeitos”, inclusive gente homônima de “suspeito”! Ficou evidente, para a opinião pública ilustrada, a exposição midiática desse comando sob vara exercido contra um ex-Presidente da República como um ato fascista.

Desde sua origem, os feixes de varas eram instrumentos a serviço da autoridade. Passaram a ser utilizados como símbolos do aparelho judiciário que aqui não se coloca sob poder do Estado de Direito ao ficar sujeito apenas ao humor autoritário e partidário de um juiz de comarca. Durante o regime fascista italiano, considerado o Fascismo Clássico, essa insígnia foi recuperada com o objetivo de simbolizar a força em torno do Estado.

O fascismo recebeu seu nome na Itália, mas Mussolini não ficou isolado como um caso único. Diversos movimentos semelhantes surgiram no pós-guerra com a mesma receita que unia voluntarismo, pouca reflexão e violência contra seus inimigos.

Hoje, existe(m) fascismo(s) para além do fenômeno italiano. O fascismo é um “patrimônio” de teorias, valores, princípios, estratégias e práticas à disposição dos governantes ou de lideranças de ocasião. Lideranças oposicionistas fascistóides podem ser fabricadas através dos meios de comunicação de massa. “Celebridades” coxinhas estão sendo alçadas ao Poder pela mídia, seja nos States, seja em Sampa…

Para seus idealizadores e teóricos, o fascismo era uma ideia política com peso semelhante ao do socialismo ou do liberalismo. O discurso legitimador das práticas fascistas é de que a ideia que leva a essa prática não teria surgido de abstrações teóricas, mas da necessidade de ação e da vontade de conquista do Poder por meios violentos e não democráticos.

Hoje, em regra geral, a pessoa fechada ao diálogo, aquela que só sabe xingar O Governo (PT, Lula e Dilma), não se assume como uma fascista por causa do trauma social, resultante da II Guerra Mundial. Os neofascistas se contentam em disseminar o ódio contra o que existe para conquistar o poder e/ou impor suas concepções de mundo, sem maiores preocupações com a formulação de um projeto alternativo viável para o País.

Por vezes, ressalta Casara, apostam em projetos reacionários de retorno a um passado mítico (“a ditadura militar”) marcado por desejos de “ordem” e “pureza”. Na verdade, é uma representação que funciona como “fantasia”, capaz de dar conta e suporte ao desejo fascista de “ordem imposta de cima para baixo”.

O fascismo possui inegavelmente uma ideologia: uma ideologia de negação. Nega-se tudo, desde as diferenças individuais, as qualidades de quem se opõe, as conquistas históricas da cidadania, os conflitos de interesses sociais, etc.

Principalmente, salienta Casara, nega-se o conhecimento. Em consequência, os neofascistas tupiniquins recusam o diálogo capaz de superar a ausência de saber.

O fascismo é maniqueísta, tipo “ou preto ou branco”, não aceita nuances. A ideologia fascista, além de nublar a percepção da realidade, produz efeitos concretos contrários ao projeto constitucional de vida democrática para o País.

Os fascistas, talvez não saibam o que (e quem) querem para governar o Brasil, mas sabem bem o que não suportam. Não suportam a democracia, entendida como concretização dos direitos fundamentais de todos, como processo de educação para a liberdade, de sucessão de governos através de eleições, de limites ao exercício do poder e de substituição da força pela persuasão.

Essa mistura de pouca reflexão e recurso à força como resposta preferencial para os mais variados problemas sociais produz reflexos em toda a sociedade. O fascismo, nesse particular, aproxima-se dos fundamentalismos religiosos, ambos marcados pela ode à ignorância.

No fascismo, há uma tentativa de edificação de um Estado totalitário, no caso brasileiro atual, via Poder Judiciário, isto é, um Estado que se sobreponha ao indivíduo a ponto de anulá-lo. Não por acaso, diz Casara, a intolerância torna-se uma constante, o que leva à repressão da diferença.

Assim, é natural que sexistas e homofóbicos identifiquem-se com projetos neofascistas. Nega-se, portanto, a alteridade e acentua-se a preocupação com os “inimigos”, todos aqueles que criticam ou não acatam as posições dos fascistas.

Outra característica marcante é o fato do fascismo se apresentar como “um fenômeno natural”. O fascismo e as práticas fascistas aparecem para os seus adeptos, principalmente no caso de ex-militares, como consequências necessárias da vida em sociedade. Acham que esta estabelece, naturalmente (sic), uma relação entre homens que dominam outros homens através do recurso à violência.

Assim, como toda forma ideologia, o fascismo não é percebido como tal por seus agentes: tem-se, então, a naturalização de práticas fascistas, mesmo em ambientes formalmente democráticos. Mas o fascista desconfia do conhecimento, tem ódio de quem demonstra saber algo que afronte ou se revele capaz de abalar suas crenças. Veja os notórios casos de hostilidade aos “professores de Universidades públicas”, nas quais a seletividade pelo saber é mais exigente. O despeito é fragrante em relação aos que cursaram saberes que ele não aprendeu.

Ignorância e confusão pautam sua postura na sociedade. O recurso a crenças irracionais ou antirracionais, a criação de inimigos imaginários com a transformação do “diferente” em inimigo, a confusão entre acusação e julgamento, afirma Casara, são sintomas do fascismo que poderiam ser superados se o sujeito estivesse aberto ao saber, ao diálogo que revela diversos saberes.

O acusador — aquele indivíduo que aponta o dedo e atribui responsabilidade irresponsavelmente —se transforma em juiz e o juiz se torna mero acusador, isto é, o inquisidor pós-moderno. Tudo isso está sendo presenciado, cotidianamente, na atual cena brasileira.

Ao lado do ódio ao saber, o fascista revela também medo da liberdade. O fascista desconfia, não sabe como exercê-la – e não admite que outros saibam ou tentem! Esta é a razão pela qual aceita abrir mão da liberdade e quer o fim da liberdade alheia para fundir-se com um movimento, um grupo, ou uma instituição fascista.

Almeja alguém “salvador-da-pátria” a fim de adquirir a força que acredita ser necessária para resolver seus problemas, por exemplo, desemprego por incompetência, e os problemas — reais ou imaginários — que vislumbra na sociedade. Clama então pela volta da ditadura militar!

O fascista apresenta compulsão à submissão e, ao mesmo tempo, à dominação. Ele é um submisso que demonstra dependência com poderes ou instituições externas, mas que, ao mesmo tempo, quer dominar terceiros e eliminar os diferentes. Ele é um masoquista e um sádico, que não hesita em transformar o outro em mero objeto e goza ao vê-lo sofrer.

Diante dos riscos do fascismo, o desafio é confrontar o fascista com aquilo que para ele é insuportável: o outro. O instrumento? O diálogo, na melhor tradição filosófica atribuída a Sócrates. Metaforicamente, isso significa quebrar o ovo da serpente capaz de conduzir nossas vidas ao fascismo. Mas também, o que é ainda mais difícil, ajudar o outro, aquele que identificamos como fascista, a destruir a sua serpente que está desovando!

Talvez esse seja o objetivo do diálogo proposto pela filósofa Marcia Tiburi em suas reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro.

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