Perfil dos Investidores no Brasil

PF na Bovespa

Algo que nunca deve se esquecer ao ler reportagens sobre Finanças Pessoais nos Estados Unidos é que, lá, o investimento em renda variável (ações) é a preferência nacional. Há “o mito fundador” do pequeno investidor se associar às grandes corporações, seja para o mal (crash) seja para o bem (boom). Aceita-se a volatilidade da riqueza, isto é, a falência e a recuperação como regras do jogo capitalista.

Aqui, o investimento preferencial é em renda fixa (pós-fixada e/ou indexada a percentual da variação do CDI), onde o risco da volatilidade em taxas de câmbio, inflação, salário, juro, crescimento do PIB, etc., é vivenciado como traumático. É bobagem falar — como os pós-keynesianos — em “preferência por liquidez“, quando predomina a “preferência por segurança” ou a aversão ao risco de perda. Em Finanças (não em Política), é prudente assumir um perfil conservador: ganhar dinheiro no mercado de trabalho e defender seu poder aquisitivo contra a inflação no mercado de renda pós-fixada.

Sérgio Tauhata (Valor, 03/02/16) mostra como o ano de 2013 representou uma guinada na estratégia como investidor na bolsa brasileira. Muitos tinham passado a investir em ações desde meados de 2009, primeiro ano após a crise financeira americana, quando o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, marcou uma valorização acima de 82%. O resultado, como seria de se esperar, arregalou os olhos de pessoas físicas em todo o país para o investimento em papéis de empresas abertas, tanto que, em menos de um ano, entre dezembro de 2009 e setembro de 2010, mês que registra o segundo maior número da série histórica de pessoas físicas cadastradas na bolsa, 78 mil novas inscrições foram realizadas.

No fim de 2013, ao checar sua carteira como se deve fazer, regularmente, o investidor se deu conta de que o prejuízo de quase 60% dos recursos investidos desde sua estreia na bolsa dificilmente seria recuperado. Muitos iniciantes acham que sabem operar, mas a verdade é que tem pouco conhecimento sobre O Mercado.

Provavelmente, dezenas de milhares de outros pequenos investidores na bolsa se questionaram sobre a manutenção dos recursos na renda variável. Se um ano antes, a mínima histórica da taxa Selic, de 7,25%, alcançada em outubro de 2012, parecia a deixa para se buscar retornos maiores em ações, no fim de 2013, a certeza esmaeceu com a queda de 15,5% do Ibovespa.

Depois da euforia vem o pânico, durante a crise, vendo todo dia a bolsa cair e achar que no dia seguinte haverá recuperação. A grande lição que se aprende na ocasião é admitir a perda.. Descobre, por exemplo, a importância de ter disciplina em usar sempre o ‘stop loss‘ em qualquer operação e assim, se for perder, perder pouco.

Seleção de Carteiras

Com os resultados ruins para a renda variável nos últimos anos, o investidor brasileiro mudou o posicionamento em relação ao mercado acionário. O conhecimento e a experiência acumulados ao longo da última década o motivaram a mudar seu perfil de investidor. Substituiu as operações de médio prazo (“comprar e reter“), nas quais comprava papéis que lhe pareciam baratos para revendê-los após meses ou até anos, por negociações de ‘day trade‘, restritas a um dia, ou, em menor escala, ao chamado ‘swing trade‘, com duração de, no máximo, algumas semanas. Ainda tem uma parcela mínima de ações que segura para o longo prazo, um pouco de Petrobras, por exemplo, esperando que “dias melhores virão na próxima década”.

Depois de ter perdido em cinco anos mais da metade de seu patrimônio investido na bolsa com apostas em Petrobras, OGX e ações que valiam centavos, o baque levou o especulador a reinventar-se. Comprar papéis sem liquidez, mas só porque pareciam baratos (‘penny stocks‘), e insistir muito com Petrobras foi erro recorrente.

Mas o prejuízo, em lugar de fazê-lo desistir, levou aquele que não convive bem com a baixa da autoestima pela perda a investir em conhecimento. Faz vários cursos e se prepara para operar no mercado de capitais. Em anos, a nova postura poderá reverter o que poderia ter sido mais um final infeliz de uma aventura na bolsa, enredo comum a milhares de pequenos investidores nos últimos anos.

Todo investidor profissional afirma ter recuperado praticamente toda a perda do período anterior. Qual foi a solução encontrada? Ele passou a usar ferramentas oferecidas pela BM&FBovespa para aproveitar qualquer movimento, seja de apreciação ou recuo nas cotações de ativos. Gosta de opções, mas seu foco hoje é no dólar, que opera por meio de minicontratos. Conhecidos como mínis de dólar, os contratos negociados no segmento BM&F permitem ao investidor especular com a taxa de câmbio futura.

As histórias desses investidores ilustram a maneira como a pessoa física ainda presente na bolsa tem se esforçado para se adaptar a um cenário inóspito para a renda variável, exacerbado a partir de 2013 e que promete estender-se também ao longo deste ano. De fato, em janeiro, o Ibovespa flertou com os patamares do auge da crise de 2008, ao fechar pouco acima dos 37 mil pontos no dia 26 de janeiro de 2016. Foi um período de tanta volatilidade, que, só no último pregão do mês, um rali de 4,60% salvou este início de 2016 de frequentar os destaques dos jornais como o pior janeiro em 20 anos.

Segundo corretoras consultadas, os clientes individuais têm mudado. Hoje o interesse do aplicador típico da bolsa é por operações de curto prazo. Tem uma mudança de perfil de investidor pessoa física. Desde 2010 o mercado vem num canal de baixa, então o investidor se adaptou. O típico ‘buy and hold‘ [‘comprar e segurar’, na tradução literal, expressão usada para operações de médio e longo prazos] se afastou da bolsa.

No mercado de minicontratos, que incluem câmbio e índices, as pessoas físicas fecharam 2015 com uma participação de 32,4% no volume negociado. É a segunda maior presença no segmento, atrás apenas dos investidores estrangeiros, com 54,8%, segundo estatísticas da BM&FBovespa.

Outro segmento de derivativos no qual as pessoas físicas têm sido muito ativas é o de commodities, que incluem contratos futuros de produtos agrícolas e minerais. O investidor individual representa 48,7% desse mercado, segundo os dados da BM&FBovespa de dezembro de 2015. A segunda maior participação pertence às empresas não financeiras, com 21,1%.

Hoje, quem ficou no mercado amadureceu muito. A pessoa física na bolsa é alguém que já entende que existe a possibilidade, além de comprar, de alugar papéis e formar posições vendidas, ou seja, de apostar na baixa de um ativo ou índice. Muita investidor em longo prazo saiu e foi substituída por gente que faz mais operações de curto prazo e aproveita tanto a alta quanto a queda do mercado. Em outras palavras, ninguém investe em ações no Brasil pensando em aposentadoria. Só especulador em curto prazo se arrisca na Bolsa de Valores!

Um termômetro do crescimento do perfil especulativo na bolsa é o interesse nas salas on-line disponibilizadas pelas corretoras para os clientes tirarem dúvidas e conversarem com especialistas no dia a dia. Contabiliza-se um crescimento de 12 vezes no número de participantes dos programas diários (“sala virtual”) de julho de 2015 até o início deste ano.

A própria bolsa reconhece ter ocorrido uma mudança no perfil do investidor, embora ressalve que a adaptação tenha sido consequência de um maior grau de conhecimento do mercado e da ampliação das possibilidades de composição de portfólio. A mudança de perfil tem muito a ver com o processo de educação financeira de mostrar as alternativas de investimento no mercado dos derivativos.

investidor ‘buy and hold continua existindo, mas cada vez mais existe a possibilidade de montar posições por meio desses instrumentos derivativos. O segmento de mínis é um exemplo desse leque mais amplo para o investidor. Hoje a pessoa física vê atratividade e começa a entrar cada vez mais no míni. Tudo isso somado ajuda muito a questão do investidor olhar para bolsa e ver não apenas um lugar onde ele compra ações da Petrobras…

efeito portfólio, ou seja, o surgimento de opções de investimento e a diversificação trazida pelos novos produtos, foi fator importante para essa mudança de perfil. O Tesouro Direto é um exemplo. A pessoa física pode direcionar a parcela conservadora de sua carteira para a renda fixa e reservar uma parcela menor para operar o risco em busca de retornos mais elevados.

De fato, na contramão do mercado acionário, o número de CPFs na plataforma on-line de venda de títulos públicos alcançou 624 mil cadastrados em dezembro do ano passado, quantidade muito próxima do recorde alcançado pela bolsa em maio de 2013, de 637 mil indivíduos. Desde então, houve um recuo de quase 80 mil cadastros e esse grupo de pessoas físicas na BM&FBovespa permanece estacionado na casa dos 550 mil nos últimos dois anos – o último mês de 2015 registrou 557 mil pessoas. O número de investidores em atividade é muito menor.

As pessoas físicas apegadas à estratégia de compra e venda de papéis no médio e longo prazos estão paradas. Os clientes têm perfil mais conservador e não são aqueles de day trade. No atual ambiente de instabilidade, a maioria prefere não fazer nada. A sensação geral é que 2016 não vai ser um ano positivo para a bolsa.

Um bancário aposentado, que é um veterano de bolsa, com aplicações desde a metade dos anos 60, não faz concessões ao curto prazo. “Investimento em ações é um investimento em longo prazo”, sentencia. Mas reconhece ser um momento difícil para a estratégia buy and hold. “Neste ano e no ano passado estou perdendo dinheiro nas minhas posições.” Hoje, revela estar mais focado em investimento em fazendas do que no mercado acionário. “Para a conjuntura atual muitas empresas talvez não estejam tão baratas, mas vão ficar baratas na hora que o crescimento retomar”.

 

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