Perfil dos Investidores nos Estados Unidos

Aposentadoria

Comparemos o caso brasileiro com o norte-americano. A experiência de lá com renda variável deveria prevenir os futuros aposentados de cá

Mark Miller (Valor, 04/02/16) avalia que “todo mundo deve poupar para a aposentadoria” – esse é um mantra que todos nós ouvimos infinitas vezes. Mas, para muitas pessoas, economizar para a aposentadoria, na verdade, deveria ocupar as últimas posições na lista de prioridades financeiras – bem atrás de objetivos mais imediatos como acumular um fundo destinado a tempos difíceis e reduzir a dívida de contratos de financiamento ao consumidor.

Isso salta à vista em nova pesquisa da ONG assistencial e de defesa da sociedade civil Pew Charitable Trust que examina as causas e os impactos dos choques financeiros que atingem os americanos. Uma sondagem da Pew entre mais de 7,8 mil famílias detectou que a maioria delas não acumulou uma poupança líquida suficiente fora das contas de previdência privada para cobrir necessidades emergenciais.

Sessenta por cento (60%) das famílias americanas passaram por um choque financeiro nos últimos 12 meses – geralmente, perderam renda devido ao desemprego, a doenças, ferimentos, mortes ou uma reforma relevante da casa ou do veículo. Os reveses financeiros afetam pessoas de todas as idades e grupos raciais, embora os choques comprometam desproporcionalmente mais as famílias mais jovens e as compostas por minorias étnicas.

No entanto, mesmo trabalhadores de renda mais elevada lutam com esse problema. Trinta e cinco por cento (35%) das famílias americanas que ganham mais de US$ 85 mil anuais enfrentaram um choque financeiro nos últimos 12 meses.

Quando ocorrem esses choques, a poupança das famílias de menor renda – as que ganham menos de US$ 25 mil anuais – é suficiente apenas para cobrir seis dias de renda familiar, segundo a Pew. As famílias com mais de US$ 85 mil anuais conseguem repor apenas 40 dias de renda.

Não conversamos o suficiente sobre o equilíbrio que as pessoas têm de manter entre consumo, os preparativos para o curto e o longo prazo. Todas as três rubricas são importantes.

Outro sinal de desequilíbrio: uma parcela considerável das famílias com problemas financeiros também está economizando para a aposentadoria. Trinta e cinco por cento (35%) das famílias desprovidas de economias líquidas disseram ter Planos de Previdência Privada.

Essas contas muitas vezes são empregadas como fundos de emergência – 23% dos trabalhadores tomaram um empréstimo ou fizeram um resgate antecipado de suas poupanças de aposentadoria, segundo pesquisa de 2015 da fundação privada, sem fins lucrativos, Transamerica Center for Retirement Studies. Mas as retiradas das contas de previdência privada e dos 401(k)s (planos da mesma natureza, com contribuição do empregador) por investidores com menos de 59 anos estão sujeitos a uma multa de 10% pelo resgate na maioria dos casos, mais desconto de Imposto de Renda.

Além disso, a papelada necessária para você tirar seu dinheiro de uma conta de previdência privada pode, facilmente, tomar-lhe algumas semanas. É um período longo demais para atender a algumas necessidades emergenciais.

Eliminar as dívidas com juros elevados é outra das prioridades que normalmente deveria preceder a formação de uma poupança para a aposentadoria. O percentual de famílias americanas mais velhas que têm dívidas é problemático: em 2014, cerca de 47% das pessoas da geração do pós-guerra (as de 51 a 70 anos) ainda tinham dívidas de crédito imobiliário (com um saldo médio de US$ 90 mil), segundo o estudo da Pew. Quarenta e um por cento (41%) tinham dívida de cartão de crédito e 35% tinham financiamento para aquisição de automóvel.

Livrar-se de dívidas para consumo antes de se aposentar é muito importante. Os filhos leem constantemente que precisam economizar para a aposentadoria. Mas existem coisas mais importantes. Uma delas é: não assuma dívidas enormes de crédito ao consumidor.

Os pesquisadores sobre aposentadoria muitas vezes se concentram no risco de a poupança para o longo prazo não ser suficiente para cobrir os gastos da pessoa por toda a sua vida, mas o endividamento – e a ausência de poupança para emergências – representa um risco muito maior diante da ocorrência de choques financeiros.A pesquisa mostra que o endividamento deixa as famílias vulneráveis a vários choques financeiros. Durante a Grande Recessão de 2009, as famílias com integrantes com mais de 65 anos responderam por 8,3% de todos os pedidos de falência, ante os 7,8% de 2006, segundo a organização americana sem fins lucrativos de educação financeira Institute for Financial Literacy.

Esse processo pode começar com uma perda de emprego que obriga a pessoa a tomar empréstimo no cartão de crédito para arcar com o custo de vida. Mas, à medida que o saldo cresce, as taxas de juros ficam cada vez maiores, e o crédito acaba, finalmente, sendo cortado. Agora, a pessoa tem um problema financeiramente devastador do qual é bem difícil escapar.

Um procedimento melhor é focar na redução do endividamento e ter como objetivo maximizar a renda de aposentadoria por meio do adiamento do pedido de recebimento de benefícios à Previdência Social americana.

As questões relativas à priorização são muitas, levando em conta que os formuladores de políticas públicas americanos estão pressionando por novas maneiras de nos fazer economizar mais para a aposentadoria.

Califórnia e Illinois estão entre os Estados americanos que preparam a criação de planos que, se aprovados, exigirão que os empregadores cubram quase todos os trabalhadores. Além disso, o governo Obama lançou uma proposta, a ser apresentada ao Congresso que visa facilitar que as pequenas empresas se unam para formar planos de 401(k).

Essas são iniciativas admiráveis – mas têm de ser associadas a orientações seguras sobre o destino do primeiro dólar disponível. Pode-se facilmente ficar com a impressão de que o maior problema de planejamento de aposentadoria é qual a proporção de sua carteira que você pode gastar por ano sem quebrar. Mas a maioria das pessoas não tem uma carteira grande, e não se costuma ouvir o suficiente sobre esse enorme grupo nem sobre os demais riscos que as pessoas enfrentam.

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