Confiança, Gratificação e Investimentos (por Aquiles Mosca)

Projeto Iliberal

Aquiles Mosca é estrategista de investimentos pessoais e superintendente executivo comercial do Santander Asset Management. É autor dos livros “Investimentos sob medida” e “Finanças Comportamentais“. Preside o Comitê de Educação de Investidores da Anbima. Publicou (Valor, 11/02/16) mais um artigo interessante sobre esse tema. Compartilho-o abaixo. 

“A cadeira de Neuroeconomia estuda a atividade cerebral das pessoas enquanto estão tomando uma decisão. Decisões individuais e coletivas são cuidadosamente monitoradas com o uso de scanners cerebrais, como a ressonância magnética. Ao analisar as regiões do cérebro que são estimuladas e as substâncias químicas que atuam durante a decisão, os pesquisadores conseguem jogar luz sobre as reais motivações de uma série de comportamentos, muitos deles aparentemente irracionais sob a ótica da teoria econômica e financeira tradicional.

Pesquisas recentes se voltaram à questão da confiança e reciprocidade, particularmente quando recorremos a completos estranhos para cuidar de nosso dinheiro (Zak, Paul J. – 2012). Em tais estudos, ganhou evidência uma substância química existente no cérebro chamada oxitocina. Sua liberação é responsável por gerar sensação de empatia com outros e, consequentemente, confiança. A injeção intencional de oxitocina em participantes do estudo, por meio de spray nasal, aumentou em 80% o comportamento generoso durante um jogo cujo objetivo era mensurar a capacidade de retribuir e recompensar os demais participantes.

O papel dessa substância no momento em que precisamos decidir se confiamos em alguém para gerir recursos financeiros também foi mapeado. Qualquer transação que ocorre e se repete ao longo do tempo, como em um investimento, exige um grau de confiança que vai além das disposições regulatórias e legais.

Estudos de Neuroeconomia revelam que, no momento em que alguém confia em um assessor financeiro para cuidar de seus recursos, o cérebro do gestor também libera oxitocina. De forma prática, o cérebro usa a oxitocina para determinar em quem confiar e a empatia resultante estimula comportamentos que reforçam a confiança e a reciprocidade (você faz algo bom para mim e eu faço o mesmo por você). Não à toa, vários estudos comprovaram que o grau de confiança existente em um país é o fator mais eficaz para prever em que direção caminhará o padrão de vida de sua população. A mesma relação é observada quando se analisa a confiança existente em uma empresa e sua capacidade de gerar resultados financeiros recorrentes (Psychology Today – Out 2013).

Ao monitorar a atividade cerebral, pesquisadores descobriram que uma transferência de recursos para outra pessoa, seja ao fazer uma doação ou um investimento, ativa a região do cérebro responsável pela sensação de confiança e isso é acompanhado de um incremento da atividade na região que gera a sensação de prazer. Esse circuito cerebral está relacionado ao fato de os humanos serem criaturas sociais, cujo cérebro evoluiu para recompensar comportamentos cooperativos, impulsionados pelo elo existente entre confiança e recompensa.

O que ocorre se essa confiança é quebrada? Nesse instante, há um aumento do nível de testosterona, hormônio associado, dentre outras coisas, à agressividade. Ou seja, a maioria buscará punir quem traiu a confiança, mesmo que isso implique custos para quem impõe a punição. Em paralelo, o ato de punir também ativa a liberação de dopamina no cérebro, gerando a sensação de justiça e prazer ao agir contra o transgressor. A possibilidade real de punição mostra-se um mecanismo importante para a sustentação de comportamentos cooperativos.

À luz do exposto, fica clara a dinâmica cerebral que explica o “jogo do ultimato“, muito debatido no âmbito das Finanças Comportamentais como uma demonstração da aparente fuga da racionalidade econômica. Nesse jogo, você recebe R$ 100,00 e deve propor como reparti-lo com outra pessoa. Nenhuma comunicação com esse indivíduo é permitida e você nunca o encontrará. A outra pessoa sabe que você recebeu R$ 100,00 e que precisa resolver como dividir esse montante. Se ela aceitar, ambos ficam com os recursos da forma sugerida, mas, se ela recusar, ambos ficam com nada. Modelos baseados na racionalidade econômica preveem que a pessoa que recebe a proposta deveria aceitar qualquer forma de repartição dos R$ 100,00.

Afinal, algum dinheiro, por menor que seja o montante, é melhor que nada, certo? Errado. Quando observamos uma amostra representativa da população, não é esse o comportamento predominante. Via de regra, decisões que deixam R$ 20,00 ou menos com a contraparte são sistematicamente recusadas e ambos ficam com nada.

 

Os experimentos de Neuroeconomia acima evidenciam a razão para essa aparente fuga da racionalidade econômica. O cérebro humano evoluiu privilegiando a interação social, baseada na empatia, confiança e reciprocidade. A noção de justiça, quebrada por propostas de divisão muito desigual dos recursos, interrompe esse ciclo de tal forma que o participante que se sente preterido está disposto a punir seu oponente, privando ambos do recurso inicialmente disponível.

Essas conclusões têm implicações importantes para a formulação de políticas públicas e reformas estruturais, como as da previdência e tributária, que impactam diretamente a distribuição de riqueza. Ou seja, as consequências da compreensão do funcionamento do cérebro humano não podem ser desprezadas, nem mesmo para o desenho de alternativas e soluções de investimentos. Queiramos ou não, é dessa forma que funcionamos e não levar tais pontos em conta seria jogar fora os mais recentes avanços do estudo comportamental.”

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