Direita, Volver! Vou ver…

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Este livro da Fundação Perseu Abramo — http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/Direita%20volver%20Final.pdf — constitui uma primeira tentativa de mapear o fenômeno do retorno da direita à cena política no Brasil, situando-o no contexto histórico e internacional. Procura traçar um quadro abrangente dele, que levasse em conta suas múltiplas dimensões e aspectos.

Mas trata-se, é bom dizer desde logo, de um esforço preliminar, em dois sentidos.

Primeiro, com os estudos reunidos procura explorar o campo da direita no Brasil, tal como ele se mostra agora, e esboçar alguns elementos de interpretação que ajudem a entender sua emergência e seu significado. Mas está inteiramente ausente do livro a pretensão de explicar o fenômeno e muito menos avançar em recomendações sobre como tratá-lo em termos práticos.

Segundo, embora envolva vários colaboradores, este livro não resulta de um esforço coletivo, em termos estritos. Dada a urgência imposta pela conjuntura brasileira nesta quadra histórica, não dispúnhamos de tempo hábil para promover encontros e debates, a fim de apurar os nossos argumentos e dar-lhes maior unidade.

O livro reflete, assim, a vontade comum em responder ao desafio intelectual e político lançado pela reemergência da direita desinibida entre nós. Mas os capítulos foram redigidos isoladamente por seus respectivos autores, a quem corresponde todo o mérito pelo trabalho realizado. No mesmo sentido, a responsabilidade pelo livro em seu conjunto, e suas eventuais falhas, é assumida exclusivamente aos organizadores, como eles afirmam abaixo.

“Dizer isso é importante porque permite expressar um juízo, que é também uma aspiração: nós, organizadores, não entendemos a obra como a conclusão de um processo, mas como um simples começo. A partir dela, em parte com base nela, esperamos que venham criar-se as condições para um trabalho coletivo de reflexão e de pesquisa sobre as direitas no Brasil e na América Latina, que possa se materializar em futuras iniciativas, tais como seminários, encontros e novas publicações. Esse esforço coletivo de um grupo de investigadores poderia contribuir para a tarefa urgente de consolidar um campo de reflexão sobre a direita no país e na região, ainda muito incipiente entre nós.

O livro que o leitor tem em mãos, composto da maneira acima referida, procura abarcar diferentes aspectos do fenômeno da direita. Iniciando por uma discussão teórica sobre as categorias inseparáveis de “direita” e “esquerda” no debate político, desde a Revolução Francesa – quando a distinção teve origem – até os tempos atuais, a obra avança para uma genealogia das direitas no Brasil e, em seguida, aborda diferentes faces do fenômeno brasileiro contemporâneo:

  1. a direita e o sistema partidário;
  2. a direita, o meio jurídico e o sistema judiciário;
  3. a associação com as forças policiais e sua intervenção no debate da segurança pública;
  4. sua presença nos meios de comunicação e na imprensa;
  5. a atuação na internet e nas redes sociais;
  6. as recentes manifestações de massas e suas vinculações com as classes médias tradicionais.

Mas, ainda que focalize o Brasil, o livro não deixa de tratar a direita em perspectiva internacional. Nesse sentido, incluímos capítulos sobre:

  1. as células de agitação e propaganda da direita nos EUA;
  2. as origens do pensamento neoconservador norte-americano;
  3. as redes de institutos de difusão de ideias neoliberais – os chamados think-tanks – na América Latina e
  4. os evangélicos e a política latino-americana, este último uma contribuição traduzida, originalmente publicada em um dossiê da revista Nueva Sociedad.

Contudo, o leitor não deve esperar uma abordagem exaustiva da reemergência da direita no Brasil contemporâneo. Nessa direção, importantes aspectos acabaram ficando de fora. Não foi possível incluir, por exemplo:

  1. um trabalho que desse conta das vinculações das direitas políticas com as distintas frações da burguesia ou do capital, em particular com a fração, hoje hegemônica, do capital financeiro;
  2. tampouco pudemos abordar as relações no passado, tão importantes, e ainda hoje não desprezíveis, das direitas com as forças armadas e os militares em geral.

Esses e outros aspectos ficarão, como acima referido, para os futuros desdobramentos que, esperamos, o presente trabalho venha a ensejar.

Por fim, uma palavra sobre o último capítulo do livro. Ele não trata, exatamente, da direita no Brasil ou em outro país qualquer. O tema do estudo é o processo político que levou à deposição do presidente eleito de um país vizinho. Incluir esse texto como fecho da coletânea nos pareceu necessário por dois motivos. Porque a experiência do Paraguai ilustra a perfeição de um traço saliente do comportamento da direita do século XXI, no Brasil e no continente.

No passado, incomodada pelas políticas de governos populares, mesmo que moderadamente reformistas, ela apelava à intervenção das Forças Armadas, acenando com o fantasma do comunismo. Agora, descartada a hipótese de Direita volver dar um golpe militar [FNC: Por que não?!], os expedientes são outros.

Mas a mudança é apenas de forma, militar ou civil, desferido por este ou aquele ramo do Estado, golpe é golpe. A derrubada de um presidente eleito, sem amparo em acusações alicerçadas em fatos concretos, para a qual se busca a legitimação formal do legislativo e/ ou do judiciário, tudo orquestrado pelos meios de comunicação de massas monopolizados é uma quebra da ordem democrática, tanto como o foram as quarteladas e pronunciamentos militares do passado.

Dessa forma, este livro dentro da pluralidade de pontos de vista que o integram, não deixa de buscar um entrelaçamento da reflexão teórica e do compromisso com a prática política. Desejamos alertar os leitores dos perigos para a democracia e os avanços sociais recentes que decorrem da atual ofensiva das direitas coligadas no aparelho de Estado e na sociedade civil e, consequentemente, da necessidade de combatê-la.

Contudo, tal enfrentamento não poderá ser bem sucedido, do ponto de vista da esquerda, se não se compreender a fundo o adversário. A desproporção de trabalhos acadêmicos existentes sobre ideologias, correntes e organizações políticas de esquerda, em comparação com aqueles devotados às suas congêneres da direita, aponta para o quanto a intelectualidade progressista desprezou as direitas, suas ideias, valores e sua capacidade de interpelar e mobilizar amplos setores e frações da sociedade.

Grande parte do desconcerto atual frente ao caráter multitudinário das manifestações direitistas deste ano é um resultado dessa combinação de ignorância e desprezo. Nos dias que correm, a nova direita brasileira se põe diante de nós como uma esfinge: decifra-me ou te devoro. Decifremo-la antes que seja tarde demais.”

Os organizadores

Leia maisVEIGA, José Eli da. Esquerda versus direita

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