Neofascistas da Rede Social: Analfabetos Políticos

Jean Wyllys

Há uma hipótese, ainda não comprovada ou falseada, de que a geração de jovens mal formados em “faculdades de segunda linha” teria obtido consciência política, após 2003, como opositora de O Governo (PT, Lula e Dilma). Isto porque teria sido formada com ideologia neoliberal típica de pessoas emergentes que se supõem ser empreendedoras apenas com sua mobilidade social!

Leitora acrítica de revistas direitistas tipo Veja e jornais repletos de colunistas manipuladores da opinião pública, como O Globo, Estadão e Folha, crê em tudo que assiste na TV e escuta nos púlpitos. Ela não teria repertório de informações suficiente para analisar o que era antes de 2003 e, principalmente, na época da ditadura militar (1964-1984) no Brasil. Uma amostra dessa falta de cultura geral foi o panfleto escrito por “três patetas” (procuradores do MP paulista) em que confundem Engels com Hegel!

Púlpito é tribuna geralmente elevada, situada lateralmente dentro de uma igreja, de onde o sacerdote faz o sermão aos fiéis. Em igrejas católicas, geralmente, é coberta por uma cúpula que concentra a voz do orador, dirigindo-a para baixo, isto é, para “os fieis” submissos. Nas catedrais e paróquias mais prósperas, costuma ser ricamente decorada. Em templos protestantes, os bispos discursam em palco com microfone em punho, vociferando a pregação religiosa motivacional para os crentes.

No livro de Márcia Tiburi (1970- ), “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” (1a . ed. – Rio de Janeiro : Record, 2015), o deputado Jean Wyllys escreveu o relevante prefácio. Compartilho, de maneira editada, abaixo.

Ele afirma que a maioria da população brasileira está há décadas alijada do direito a uma educação de qualidade que lhe faça cidadã com capacidade de pensamento crítico e de reconhecimento da diversidade cultural e humana. A ampliação do acesso ao sistema formal de educação — incluindo aí o ensino superior —, sobretudo na era Lula, não significou acesso a uma educação de qualidade”.

Muitas “universidades” e faculdades, principalmente privadas, têm diplomado analfabetos funcionais por estabelecerem com os alunos uma relação pautada no direito do consumidor. Mais de 70% dos brasileiros não leem livros. A maioria se informa apenas por tevês e rádios, que, pela própria dinâmica da comunicação de massa, não aprofundam as questões de interesse público e divulgam as informações de acordo com interesses políticos e financeiros de seus concessionários ou administradores.

Ao mesmo tempo, e graças à inclusão via consumo de bens materiais garantida pelas políticas sociais da assim chamada “Era Lula”, parte expressiva e crescente dessa maioria plugou-se na internet — um dilúvio de informações falsas e verdadeiras nem sempre fáceis de distinguir para alguém sem repertório cultural ou habilidade em interpretar texto — e se organizou em redes sociais digitais por meio de novas tecnologias da comunicação e da informação , como os smartphones.

Ora, isso só poderia levar esse contingente a aderir aos discursos demagógicos e manipuladores que interpelam preconceitos e sensos comuns históricos e propõem soluções fáceis, mas mentirosas e/ou autoritárias para as questões complexas que nos envolvem diariamente, como a criminalidade e a violência urbanas, as desigualdades social e de gênero, as tensões raciais, a diversidade de orientação sexual e identidade de gênero, a intolerância religiosa, a mobilidade urbana, os conflitos agrários e os desastres ambientais. Essa situação acrescida da lógica egoísta — “farinha pouca, meu pirão primeiro” — que as crises econômicas e/ou financeiras como a que estamos vivendo costumam trazer são provas irrefutáveis do retorno e reencarnação de um fantasma perigoso chamado fascismo.

Diante desse mal, há que se evocar espectros que possam exorcizá-lo. A Filosofia e as Ciências Humanas não podem, portanto, abrir mão da responsabilidade de evocar a razão iluminista, o conhecimento científico, a honestidade intelectual, as liberdades civis e a democracia. É o que faz a filósofa Marcia Tiburi neste Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, em um texto que impressiona pela combinação da profundidade e sofisticação intelectuais com uma enorme generosidade com o leitor que não compartilha de seu repertório cultural. Portanto, este livro é para o que nasce!

Preocupada com o fascismo que vem afetando a política brasileira nos últimos cinco anos e ciente de que este costuma prescrever a eliminação simbólica e/ou física dos “inimigos” que constrói como forma de se “justificar”, Marcia Tiburi propõe o diálogo como forma de resistência à banalização do mal a que assistimos atônitos, indiferentes ou indignados.

Para isso, damos nossa contribuição, seja em forma de postagens ou comentários no Facebook, seja em ações concretas contra o outro. Por exemplo, vimos “gente de bem” (sic) chutar e insultar dois garotos negros rendidos pela polícia apenas porque envolvidos numa briga de colegiais que assustou frequentadores de um shopping de luxo.

[…]

O fascista é aquele que banaliza o mal. Para Marcia Tiburi, ele é burro na medida em que não acessa o campo do outro porque lhe falta conhecimento e imaginação para tal. A burrice é o cancelamento do processo de conhecimento e de imaginação. Nesse sentido — e para usar as palavras da própria filósofa — “o fascismo é a máscara mortuária do conhecimento”.

Outro aspecto desse mal apontado por Tiburi é o analfabetismo político. O dramaturgo Bertolt Brecht afirmou, em um texto memorável, que “o pior analfabeto é o analfabeto político”. Ele definia o analfabeto político como aquele que “não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos”; aquele que “é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política”. Dessa definição brechtiana do analfabeto político, a única característica que sobrevive aos dias atuais é o proclamado e contraditório ódio à política […].

“O que leva um indivíduo a reunir-se em um coletivo sem pensar com cuidado crítico nas causas e consequências dos seus atos configura aquilo que chamamos de analfabetismo político. Mas, no caso dos personagens jovens que surgem atualmente, líderes do fascistoide Movimento Brasil Livre, está em jogo a forma mais perversa de analfabetismo político. Aquele de quem foi manipulado desde cedo e não teve chance de pensar de modo autocrítico porque sua formação foi, no sentido político, ‘de-formação’, a interrupção da capacidade de pensar, de refletir e de discernir”, argumenta Marcia Tiburi em “Como conversar com um fascista”.

Jean Wyllys diz que, por causa das transformações sociais, culturais e tecnológica que experimentamos, o “analfabeto político” dos dias atuais é bem diferente daquele dos tempos de Brecht. O analfabeto político da atualidade fala e participa dos acontecimentos políticos mesmo renunciando à tarefa de se informar melhor sobre eles ou partindo de preconceitos, boatos ou mentiras descaradas sobre tais acontecimentos.

O analfabeto político da contemporaneidade — ao contrário daquele dos tempos de Brecht — participa dos acontecimentos políticos “opinando” sobre eles nas redes sociais digitais sem qualquer cuidado crítico. Jean Wyllys recorre a uma das muitas estupidezes escritas em sua página no Facebook por ocasião da aprovação do Marco Civil da Internet: “O marco servil [sic] vai acaba [sic] com o facebook e traze [sic] o comunismo vai manda [sic] mata [sic] todo mundo começando por você seu viado filhodaputa [sic]”.

Este comentário é um exemplo do analfabetismo político contemporâneo, mas é também o sintoma de uma ameaça à democracia e à vida com pensamento: a maioria dos “analfabetos políticos” que vociferaram nas redes sociais digitais, principalmente a maioria daqueles que fazem menção ao “comunismo” ou ao “socialismo”, deixaram claro quais as fontes de suas afirmações acerca do acontecimento em questão.

São eles:

  1. os colunistas da revista marrom semanal [e de jornais diários];
  2. o senil reacionário que se diz “filósofo”; e
  3. a família de parlamentares (deputado federal, deputado estadual e vereador) que parasita o poder público para difamar adversários e estimular o fascismo.

Nesse sentido e apesar da virulência e arrogância com que afirma sua ignorância, o “analfabeto político” é uma vítima daquele que Brecht considera “o pior de todos os bandidos”: o político vigarista, desonesto intelectualmente, corrupto e lacaio das grandes corporações.

Portanto, é preciso ter alguma compaixão pelo analfabeto político: insistir na luta para que ele tenha acesso a educação de qualidade e às artes, em especial às artes vivas, com destaque para o teatro. É preciso insistir no diálogo com o fascista. Mas isso é possível? Como conversar com um fascista?

5 thoughts on “Neofascistas da Rede Social: Analfabetos Políticos

  1. Não poderia concordar mais contigo. E fico feliz que suas palavras estejam combinando com muitos dos textos que eu publico também.

    Dessa forma, percebo que o analfabetismo político dos dias atuais que fabrica uma horda de fascistas, fenômeno bem explicado tanto por ti quanto pela filósofa Márcia Tiburi, também se faz presente pela escolha que os anos de governo Lula e a empolgação do Plano Real fizeram com uma parcela que ascendeu à classe média.

    Nesses últimos 22 anos se construiu uma base social frágil, sustentada apenas no poder financeiro, enquanto que o modelo qualitativo educacional foi deixado de lado.

    Portanto, para essas pessoas o mais imprescindível é “ter” no lugar de ser, tornando questões antiéticas como apoiar um golpe militar, uma ditadura ou gracejos machistas, homofóbicos e racistas em algo natural para eles.

    1. Prezado Dhiancarlo,
      está uma tristeza só, não? Estamos imersos em um onda de idiotia, quando as pessoas não percebem o mal que fazem a si e aos outros.

      Vestir camisa amarela ou terno com camisa preta está virando símbolo do fascismo. Aliás, é como vestia um grupo paramilitar da Itália fascista que mais tarde passou a ser uma organização militar. Devido a cor de seu uniforme, seus membros ficaram conhecidos como “camisas negras” (em italiano: “camicie nere”). Para quem se inspirou na Operação Mani Pulite, foi outra inspiração…
      att.

  2. Como conversar com quem insiste em não ouvir? O grande – e antigo – “nó” da Democracia: ampliar a participação e evitar ser solapada.

    1. Prezado Osmar,
      tentei pensar em uma interpretação do Sistema Complexo em que estamos imersos, colocando todas as interligações para verificar quais são os nódulos-chave. O fluxograma ficará complexo demais. Tentarei analisar com maior simplicidade, porém sem ser simplório e/ou bi-unívoco, tipo “nós” contra “eles”.

      Quando se perde o consenso social a respeito das regras democráticas, ameaça-se um golpe contra a vitória eleitoral, e não há hegemonia política clara da base governista, fica difícil a resolução da crise econômica. Os políticos pensam apenas em sua reeleição e esquecem seus compromissos com eleitores. Há crise de representatividade dos parlamentares que armam um golpe, seja via judiciário, seja via parlamentarismo derrotado em dois plebiscitos.
      att.

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