Análise da Conjuntura Política (por Luís Nassif)

Manifestantes ricos Manifestantes velhos

Não se iludam, golpistas, o perfil da maioria dos eleitores brasileiros não esteve em suas manifestações no dia 13 de março de 2016. A pesquisa Datafolha mostrou que 77% dos manifestantes declararam que são de cor branca. São, predominantemente, velhos ricos com ensino “inferior”. Não são militantes persistentes, já que 94% não participam de nenhum grupo que promoveu o ato.

Muitos deles são apenas “fernandetes neoliberais”, pois o Datafolha perguntou quem foi o melhor presidente do Brasil e 60% dos entrevistados responderam Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), enquanto na população brasileira, no mês passado, o índice foi de apenas 15%. Apesar da admiração pelo ex-presidente tucano, a preferência dos manifestantes pelo PSDB mostrou um expressivo declínio. Na primeira grande manifestação contra Dilma, há um ano, poucos meses após sua eleição, o partido era o preferido de 37% dos entrevistados. Agora, o índice passou para 21%. E mesmo assim esse índice é muito acima da preferência de todos os eleitores!

Frente à “grande (sic) mídia brasileira”, onde só se encontra colunistas escrevendo panfletos golpistas e locutores demonstrando parcialidade na cobertura de delações sob encomenda e não comprovadas, é necessário ler “a imprensa alternativa”. Era assim também na época da ditadura, quando se queria se informar das notícias de bastidores e se examinar as análises do que, de fato, está por trás do “jogo de cena”. Hoje, temos a alternativa da blogosfera progressista.

Para minha reflexão, gosto de ler o Luís Nassif (Jornal GGN, 09/03/2016), em seu O Jornal de todos Brasishttp://jornalggn.com.br/noticia/lava-jato-tudo-comecou-em-junho-de-2013. Ele analisou a estratégia da Operação Lava Jato como um jogo de xadrez, que apresento de maneira editada abaixo. Ele acha que tudo começou nas manifestações de junho de 2013.

A meta política principal da Operação Lava Jato é preparar um conjunto de ações de improbidade, visando impedir Lula de concorrer novamente na eleição de 2018. A direita não quer correr o risco de perder a quinta eleição seguida. Em um debate eleitoral democrático, reconhecer-se-á que Lula ainda é um líder popular.

Nassif coloca quatro peças a mais no nosso quebra-cabeças político.

Peça 1 – A radicalização é alimentada pelos procuradores da Lava Jato.

Peça 2 – Moro não é nem nunca foi o cérebro por trás da operação, pois uma operação dessa envergadura não poderia ter sido obra de um juiz de primeira instância, de um estado pouco relevante politicamente, conhecido por seu conservadorismo, rígido nas sentenças, mas tímido, tosco até fora dos limites dos autos; embora cumpra o papel de “herói da direita”, está sendo atropelado pela Força Tarefa do MPF.

Peça 3 – A Polícia Federal é um mero instrumento nas mãos dos procuradores, pois apenas cumpre mandados requeridos pelos procuradores e autorizados pelo juiz Moro, enquanto os procuradores formam um todo coeso, obedecendo a uma estratégia nítida: a inabilitação política de Lula.

Peça 4 – Em meio às turbulências políticas, houve o risco de confrontos entre manifestantes se alastrarem por todo o país.

Nassif lança duas hipóteses:

Hipótese 1 – O Ministério Público Federal é um arquipélago formado por comitês, regionais independentes, cada qual com poderes de interferir até nos aspectos psicossociais do país, sem nenhuma forma de coordenação ou de controle interno.

Hipótese 2 – há um comando central, de nível hierárquico superior ao dos procuradores do Paraná.

No decorrer de todo o ano, os vazamentos da Lava Jato, planejados pelos Procuradores da República e Delegados Federais, lançaram no ar toda sorte de factoides. Qualquer suspeita, por mais ridícula que fosse, era transformada em sentença condenatória, misturando fatos relevantes com bobagens monumentais. Essa mistura ajudou a alimentar dois sentimentos conflitantes.

  1. Nos especialistas, a convicção de que a Lava Jato perseguia adversários políticos, depois ia atrás de qualquer fato que incriminasse o alvo.
  2. Nos leigos incultos, a certeza de que havia “um ladrão de galinhas” no Planalto!

E aí alguns fatos incômodos começam a invadir o raciocínio. Toda a estratégia de mídia foi montada em Brasília, pela própria Procuradoria Geral da República, assim como o reforço da Força Tarefa e a ênfase na cooperação internacional.

O ponto de partida foram as manifestações de junho de 2013, que deixaram claro que o Brasil estava preparado para a sua “Primavera”, a exemplo das que ocorreram nos países árabes e do leste europeu. Essa possibilidade alertou a organização informal de procuradores e polícias federais de vários países, que se articularam a partir de 2002 para combate ao crime organizado.

As manifestações teriam comprovado que a opinião pública brasileira estaria suficientemente madura para apoiar ações anticorrupção – e de interesse geopolítico dos EUA.

Nassif alerta que “isso não significa que as primeiras manifestações foram articuladas de fora para dentro”. O início foi de um grupo acima de qualquer suspeita, o MPL (Movimento Passe Livre), que recebeu a adesão da classe média à extrema esquerda (black-blocs), mas incentivou a direita perder a vergonha de “sair do armário”, onde tinha se metido há 30 anos com o final da ditadura militar. A reivindicação de melhoria de serviços públicos demonstrou que a participação política selvagem, trazida pelas redes sociais, havia transbordado para as ruas.

É a partir daí que, em contato com a cooperação internacional, começam a ser planejadas as duas grandes operações mundiais anticorrupção do momento:

  1. a Lava Jato, que visaria desmontar a quadrilha que se apossou da Petrobras e
  2. a do FBI contra quadrilha que se apossou da FIFA e da CBF.

Houve movimentos internos relevantes que antecederam o início do jogo. No bojo das manifestações de 2013 ficou nítida a parceria da Globo com o MPF, pois, subitamente, começaram a pipocar cartazes pedindo a derrubada da PEC 37 – que proibia procuradores de realizar investigações por conta própria. Os veículos da Globo passaram a dar cobertura exaustiva à campanha, ajudando na derrubada da PEC, e propondo aprovar nova PEC que garantisse, explicitamente, o poder do MP de investigar — por conta própria!

No mesmo mês de junho de 2013 surge outro fato revelador: o vazamento de informações da NSA (Agência de Segurança Nacional) pelo ex-técnico Edward Snowden. Entre os documentos vazados, fica-se sabendo que a NSA espionava preferencialmente a Petrobras. De repente, um juiz de 1a. instância em Curitiba, Sérgio Moro, tendo como fonte de informação apenas um doleiro conterrâneo, Alberto Yousseff, tem acesso a um enorme volume de informações sobre a Petrobras e consegue nacionalizar um processo regional.

Até hoje, a Lava Jato não revelou como chegou às primeiras informações sobre a Petrobras, que permitiram expandir a operação para todo o país.

O que se viu, dali em diante, foram dois dutos de informação montados entre o MPF brasileiro e a cooperação Internacional:

  1. o duto da Lava Jato e
  2. o duto da FIFA.

Pelo duto da Lava Jato vieram informações centrais para o desmantelamento da quadrilha da Petrobras. Já o duto da FIFA ficou obstruído. As informações de lá para cá esbarraram em uma mera juíza de 1a. instância do Rio de Janeiro e, até hoje, não foram destravadas, pois a Globo era peça central do esquema FIFA-CBF.

Depois disso, a cooperação internacional torna-se instrumento central nas investigações da Lava Jato. Mas nas investigações da FIFA, o braço brasileiro da cooperação internacional falha, já que a Globo está sendo poupada por seu apoio ao MPF.

Em todas as intervenções norte-americanas nas “Primaveras” que sacudiram o Oriente Médio, elas vieram acompanhadas de uma estratégia de comunicação através das redes sociais com foco na corrupção e na suposta defesa da democracia.

A Lava Jato foi montada seguindo todo o receituário das “Primaveras:

  1. acesso a informações críticas sobre a quadrilha que atuava na Petrobras.
  2. identificação de algum inquérito regional que pudesse ser nacionalizado levou à escolha de Sérgio Moro, que tinha sido testado na AP 470 – como assessor da Ministra Rosa Weber –, e atuado no caso Banestado.
  3. montagem imediata de um aparato de comunicação pela Procuradoria Geral da República, montando hotsites de maneira a potencializar as denúncias de corrupção.

Na Lava Jato, a tática midiática do MPF investiu em duas imagens:

  1. a imagem evangelizadora de rapaz do bem, o procurador Deltan Dallagnol;
  2. a imagem do homem mau, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima.

O MPF não tem mais a cara dos procuradores de outra geração que ajudaram a institucionalizar direitos sociais, democracia, direitos das minorias, e a punir os crimes da ditadura.

Nas redes sociais e movimentações de rua surgem movimentos neofascistas como o “Movimento Brasil Livre” e “Estudantes Pela Liberdade”. Constatou-se, são financiados pelo Charles Kock Institute, ONG de dois irmãos, Charles e David, herdeiros de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos, conhecidos por financiar ONGs de ultradireita, visando interferir na política norte-americana. Eles tem, obviamente, ambições de ampliar seu império petrolífero, explorando outras bacias fora dos Estados Unidos, como a do pré-sal brasileiro.

Desde os anos 70, a parceria com ditaduras militares mostrou-se inconveniente para a diplomacia norte-americana:

  1. pela dificuldade em justifica-la perante a opinião pública liberal norte-americana.
  2. pelo fato dos governos militares terem nítido cunho nacionalista – como se viu com o governo Geisel, no Brasil, ou a ditadura militar argentina deflagrando a guerra das Malvinas.

Gradativamente, a diplomacia e as instituições norte-americana foram mudando o eixo, aproximando-se dos sistemas judiciários nacionais, das polícias federais, de procuradores e estimulando ONGs, especialmente aquelas voltadas para a defesa do meio-ambiente. A internacionalização da Justiça tornou-se um fator legitimador, para fortalecer outro polo de influência nos sistemas nacionais, acima dos partidos e do Congresso.

Tornou-se conhecido o modelo de desestabilização no Oriente Médio com as diversas “primaveras nacionais”:

  1. insufla-se a classe média com denúncias de corrupção;
  2. seguem-se as manifestações de rua que, devido ao clima de catarse criado, descambam para a violência;
  3. depois, a intervenção de alguma força visando trazer a ordem e implantar a democracia.

Foi assim nas ações desastrosas no Iraque, Afeganistão e Líbia. Em todos esses casos, desmontou-se um regime autoritário e deixou-se como herança o caos, a destruição de nações e regimes muito mais restritivos dos direitos individuais, quase todos marcadamente conservadores nos hábitos morais.

Este é o papel da cooperação internacional na nova geopolítica do poder. Desde a viagem de Janot aos Estados Unidos começa-se a desconfiar que os EUA estão se valendo dessa cooperação para impor suas estratégias geopolíticas.

A Lava Jato não pode mais ser vista como uma operação de investigação isolada. Ela é tudo o que gerou de forma associada, pois teve a ajuda central de organismos internacionais, caso contrário, jamais teria chegado às quadrilhas que operavam na Petrobras.

Ambos – operadores da Lava Jato e golpistas do Congresso – estão umbilicalmente ligados. No plano econômico e social, a contraparte da Lava Jato é a flexibilização da Lei do Petróleo e dos gastos sociais, acabando de vez com o legado social dos últimos governos social-desenvolvimentistas.

As operações de impacto da Lava Jato sempre estiveram sincronizadas com as estratégias de impeachment, seja no Congresso, seja em dobradinha com Gilmar Mendes no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

  1. Toda a pressão em cima de Dilma têm, no plano político-econômico, a intenção precípua de obter concessões nas áreas de petróleo e de cortar gastos sociais.
  2. No plano social, a Lava Jato conseguiu despertar a comoção popular, o afloramento de uma ideologia da classe média, ultraconservadora e intolerante.
  3. No plano econômico, além da flexibilização da lei do pré-sal e do fim dos gastos sociais obrigatórios, ganhou corpo a criminalização das estratégias de desenvolvimento autóctone – como o avanço diplomático na África e o financiamento às exportações, as políticas de conteúdo nacional que podem ser liquidadas com o fim da Lei do pré-sal.

Nassif conclui que não dá para desvencilhar a Lava Jato de todo esse leque de princípios ultraconservadores e ultraliberais. Fazem parte do mesmo pacote político.

Não se trata de mais uma dessas teorias conspiratórias que povoa o universo das redes sociais. A Lava Jato deixará de ser estudada meramente como uma imensa operação anticorrupção para se transformar em um case sobre as estratégias geopolíticas norte-americanas na era das redes sociais, da globalização e da alta tecnologia.

Aí se entram nas questões internas do Ministério Público Federal. Trata-se de uma organização que surgiu com a Constituição de 1988. Com o tempo, algumas de suas maiores virtudes – como a independência de cada procurador – transformaram-se em alguns dos seus maiores problemas. Qualquer procurador que queira participar do jogo político basta pegar um factoide qualquer e transformar em representação, valendo-se do poder que lhe foi conferido pela Constituição. E nada acontecerá com ele, sequer o repúdio da corporação do Poder Judiciário!

Os procuradores se organizam em grupos, de acordo com suas convicções e áreas de atuação. Há desde grupos envolvidos com direitos humanos até os que atuam na área criminal. Há, também, uma enorme gana de protagonismo político por parte de alguns grupos, de participar de cargos executivos, a exemplo de colegas de MPs estaduais.

Quando Lula sancionou a eleição direta para escolha do PGR, “abriu a caixa de Pandora”. Os candidatos são indicados pela ANPR (Associação Nacional de Procuradores da República), que representa apenas uma classe de procuradores. Ela é uma associação sindical de defesa dos interesses corporativos da classe. Não participam os procuradores estaduais, os dos Tribunais de Contas, e os militares.

Recentemente, o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) avançou na questão de permitir que procuradores ocupem cargos no Executivo – hipótese vedada pelo STF.

Na própria campanha eleitoral, os candidatos à liderar a PGR vão firmando acordos políticos capazes de viabilizar sua eleição. Com isso, vão diluindo poder e capacidade de intervir em abusos.

Em Brasília, há integrantes isentos do Judiciário que defendem Rodrigo Janot, consideram-no uma pessoa equilibrada e responsável. Mas sustentam que ele perdeu o controle da situação. Quando estimulou o vazamento da Lava Jato deixou de conseguir controlar sua tropa.

Mas há um conjunto de atos e omissões inexplicáveis:

  1. a visita aos EUA levando informações da Petrobras e trazendo da Eletronorte;
  2. a blindagem ao inquérito que investiga contas de Aécio em Liechtenstein;
  3. a incapacidade de conduzir um inquérito sequer sobre as Organizações Globo.

Será possível que o Ministério Público Federal tenha se transformado em uma corporação dominada pelo sindicalismo?

Em “O xadrez da Política no dia D”, Luis Nassif (O Jornal de todos Brasis, 13/03/2016) apresenta “o jogo de xadrez da crise.

Peça 1 – Dilma está sem condições políticas, nem para lançar planos mais audaciosos, nem para recompor sua base política no Congresso.

Peça 2 – qualquer solução de conflito mergulha o país em uma crise imprevisível.

Essa premissa [questionável] é central para todo o raciocínio posterior, isto é, como estimular algumas lideranças mais responsáveis na busca do entendimento.

Grosso modo, há quatro grupos trabalhando em saídas mais articuladas para a crise:

  1. Parlamentaristas: no Senado, o grupo formado por Renan Calheiros, José Serra e Romero Jucá, articulando alguma forma de semiparlamentarismo que mantenha Dilma Rousseff na presidência, mas sem governar.
  2. Lulistas: o grupo que cerca Lula, insistindo para que assuma um cargo de coordenação no Palácio, mesmo sem ser formal, mas que o transforme em um primeiro-ministro de fato.
  3. Golpistas: o grupo do impeachment, com Aécio Neves na liderança, seria composto por Jacobinos.
  4. Alto Comando: o grupo do Ministério Público Federal, diretamente liderado pelo Procurador Geral Rodrigo Janot, devendo-se fugir da confusão corriqueira de considerar que o comando e a estratégia da Lava Jato estão em Curitiba.

Para acompanhar o jogo, segundo Nassif, é preciso entender melhor sua natureza. “Não se trata de uma conspiração palaciana, com um comando organizando todas as ações”.

“Movimentos de opinião pública são operações muito mais fluidas, mais amplas, nas quais se escolhe o momento adequado – o mal-estar econômico – e, se deflagra um conjunto de ações visando estimular as reações populares. A denúncia da corrupção é o mote mais eficaz”.

Com uma quase autonomia absoluta adquirida pelas diversas corporações – MP, PF, STJ, etc. –, há uma sucessão de eventos, alguns aleatórios, outros planejados. A arte da conspiração consiste em controlar os líderes do movimento golpista. Mas o final sempre é imprevisível, daí a preocupação de Fernando Henrique Cardoso e de os poucos quadros mais lúcidos do PSDB, recuando na radicalização golpista.

O descontrole do movimento golpista foi possível com:

  1. a parceria montada pelo Alto Comando com a mídia,
  2. a entrada dos novos grupos que se apossaram das manifestações (Movimento Brasil Livre, Revoltados Online, provavelmente bancados de fora), e
  3. uma investigação capaz de gerar manchetes jornalísticas diárias.

Hoje em dia, quem controla o comportamento de manada é o Alto Comando, através de geração de fatos parciais das “delações premiadas sob encomenda” da Lava Jato, sincronizando com os movimentos da oposição.

Na opinião de Nassif, os protagonistas a serem acompanhados são, portanto, os Parlamentaristas, os Lulistas e o Alto Comando. Os Jacobinos de Aécio e a mídia são agentes acessórios – no caso da mídia, fundamental para o sucesso da operação, mas vindo a reboque, sem papel na formulação estratégica para o futuro do País.

A dificuldade de definição de estratégias se deve à extrema habilidade de um jogador essencial, o Alto Comando. Quando os demais personagens entenderem, adequadamente, o papel do Alto Comando, os erros de estratégia serão minimizados.

Se consumado o impeachment de Dilma Rousseff, será um case mundial, provavelmente, “a mais bem-sucedida estratégia de golpe político das últimas décadas”.

Discutir-se-á se a interferência da geopolítica norte-americana envolve a estratégia de desmonte dos grandes grupos nacionais que poderiam se habilitar a algum protagonismo externo.

Há duas vertentes para retirar a soberania nacional do país.

A primeira, que dá o start, é a política de depreciação continuada de tudo que possa despertar o orgulho nacional, desde a Copa do Mundo. Derrubou a autoestima pouco tempo depois do país ter atingido o momento mais alto do seu orgulho, respeitado mundialmente:

  1. pelos avanços sociais registrados e
  2. pela forma como superou a crise de 2008.

A segunda vertente foi o papel do Alto Comando como estrategista central da Lava Jato. Do lado jurídico, sobressai-se a maneira como a Lava Jato foi montada para criar constrangimentos e humilhações aos adversários políticos:

  1. os procedimentos investigatórios e os processos criminais são seletivos (contra líderes do PT ou pessoas/empresas relacionadas ao Governo do PT) e sigilosos (porque não permitem conhecer a natureza real ou hipotética dos fatos imputados, fazendo prevalecer a versão oficial desses fatos, verdadeiros ou não);
  2. os nomes dos investigados são revelados ao público externo, como autores ou partícipes (por ação ou omissão) das hipóteses criminais imputadas, mediante programados vazamentos de informações supostamente sigilosas aos meios de comunicação de massa, com efeitos sociais e eleitorais devastadores sobre os adversários políticos dos grupos conservadores;
  3. os espetáculos midiáticos de buscas e apreensões violentas e de condução coercitiva ilegal de investigados (o ex-Presidente Lula, por exemplo), ou as ilegais quebras de sigilo (telefônico, bancário e fiscal) seguidas de espalhafatosas prisões preventivas (Zé Dirceu ou João Vaccari Neto, por exemplo), geram convenientes presunções de veracidade e de legitimidade da ação repressiva oficial perante a opinião pública.

Nesse contexto, na opinião de juristas isentos, “a contribuição objetiva da Operação Lava Jato – voluntária ou não, mas essencial para os fins político-eleitorais das classes hegemônicas organizadas no PSDB, no PPS, no DEM e outras siglas – ocorre na forma de contínua violação do devido processo legal, com o espetacular cancelamento dos princípios do contraditório, da ampla defesa, da proteção contra a autoincriminação, da presunção de inocência e outras conquistas históricas da civilização – apesar da reconhecida competência técnico-jurídica de seus protagonistas”.

A justiça criminal no âmbito da Operação Lava Jato produz a sensação perturbadora de que “o processo penal brasileiro não é o que diz a lei processual, nem o que afirmam os Tribunais, menos ainda o que ensina a teoria jurídica, mas apenas e somente o que os dignos Procuradores da República e o ilustre Juiz Sérgio Moro imaginam que deve ser o processo penal”. A insegurança jurídica e a falta de transparência dominante na justiça criminal da Operação Lava Jato levou o Ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, a reproduzir antigo conceito de Rui Barbosa: “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário”.

Então, entra em ação o grande parceiro da Operação Lava Jato: os meios de comunicação de massa (TV, jornais e rádios), diuturnamente, com informações baseadas nas evidências processuais ou no material probatório obtido nas condições referidas, produzem um espetáculo midiático para consumo popular – e comícios diários de imagens virtuais audiovisuais, impressas e sonoras tomam conta do País, com efeitos psicossociais coletivos avassaladores.

As versões, interpretações e hipóteses da justiça criminal da Operação Lava Jato, difundidas pela ação repressiva da Polícia Federal, pelas manifestações acusatórias dos Procuradores da República e pelas decisões punitivas do Juiz Sérgio Moro, produzem efeitos de lavagem cerebral e de condicionamento progressivo da opinião pública. Esta — a pior entre todas as opiniões — está submetida ao processo de inculcação diuturna de um discurso jurídico populista, com evidente significado político-partidário, mas apresentado sob aparência ilusória de uma impossível neutralidade política.

Quando os procuradores paulistas tentaram atropelar a agenda, coube ao Procurador Geral da República Rodrigo Janot articular, pessoalmente, a estratégia da Lava Jato em relação às trapalhadas cometidas. Logo, toda imprensa passou a vocalizar as críticas contra quem [“os três patetas” que confundem Hegel com Engels] poderia comprometer o script inicial, cuidadosamente planejado para chegar a bom termo, respeitando as aparências jurídicas.

Do lado político, o Alto Comando opera a partir de Brasília visando criar toda a blindagem jurídica necessária, não apenas junto ao STF, como ao próprio governo e nas redes sociais.

  1. No STF e no TSE, Janot não convalidou nenhuma tentativa de golpe branco, consolidando a imagem de legalista junto ao STF e à presidente da República e, com isso, o espaço político para bancar a estratégia central, a Lava Jato.
  2. No Twitter, por exemplo, os principais lugares-tenentes de Janot, através de seus perfis pessoais, conduzem uma ampla campanha de esclarecimento e de defesa da Lava Jato.

Através da Lava Jato, montou-se um trabalho sistemático de destruição de todos os símbolos de país.

  1. Nas ruas, movimentos conduzidos pelo MBL e outros vocalizando críticas às políticas sociais.
  2. No mundo corporativo, um trabalho sistemático de destruição das maiores empresas nacionais, não apenas com inquéritos, mas com escracho.
  3. No mundo político, a tentativa é de destruição do símbolo Lula.

Como foi possível, no entanto, cooptar quase toda a corporação do Ministério Público Federal?

Através da venda da ideia da destruição da velha ordem, substituída por uma nova ordem, organizada pelo trabalho redentor do Ministério Público.

A velha ordem passou a se resumir a:

  1. empreiteiras corruptas, que cooptou o sistema político e judiciário, e
  2. um governo populista, que teria cooptado a população com políticas sociais paternalistas.

A corrupção foi o álibi para apagar a história recente do país:

  1. a luta pela redemocratização,
  2. a lenta reconstrução democrática,
  3. os avanços civilizatórios,
  4. os avanços tecnológicos nas áreas do pré-sal e da defesa,
  5. o feito histórico de tirar milhões de pessoas da miséria e reduzir graus históricos de desigualdade.

Principalmente, pesou no imaginário corporativo dessa casta de sábios-juristas a visão redentorista de um novo poder — o deles — se sobrepondo aos demais e salvando o país.

Por enquanto, segundo Nassif, o cenário mais provável será o do pacto PMDB-PSDB, visando apoiar o impeachment. Caso fracassarem as saídas políticas, a primeira fase do golpe de1964 será “café pequeno”. Juízes e procuradores serão liberados para acabar com a raça de tudo que cheire a esquerda!

“O país será envolvido em uma guerra fratricida, com um novo governo previamente enfraquecido pela falta de consenso e exposto a ataques ao butim de todos os ‘vencedores’, de grupos jornalísticos a líderes empresariais e a impolutos de ordem geral que ajudaram a consumar o golpe.

Se o governo resistir por mais algum tempo e Lula entrar na linha de frente, é possível alguma esperança de normalização democrática”.

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