Diáspora Negra: Afrodescendentes no Mundo

Masks-from-Africa

Paulo Fagundes Visentini, Luiz Dario Teixeira Ribeiro e Analúcia Danilevicz Pereira, autores do livro História da África e dos Africanos (Petrópolis; Vozes; 2014), explicam porque existe um grande número de afrodescendentes dispersos pelo mundo, embora mais concentrados em algumas regiões.

A migração dos africanos está ligada a dois grandes movimentos históricos:

  1. o tráfico de escravos durante o mercantilismo e
  2. a migração Sul-Norte que caracteriza a Era Industrial na Europa e América do Norte no século XX.

Do século IX até o século XV, houve um fluxo de ouro e escravos da África Subsaariana para o Magreb que, ao mesmo tempo, fornecia mão de obra para os impérios do norte da África e servos domésticos para os europeus. Ao mesmo tempo, através do Mar Vermelho e do Oceano Índico, havia um tráfico em direção aos países islâmicos. O advento do islã fez com que houvesse maior interação e migrações entre os mundos africano e árabe, inclusive com tendência à mestiçagem.

A partir do século XV, o fluxo de escravos mouros e negros para o continente europeu foi intensificado, principalmente, a partir das navegações portuguesas no Oceano Atlântico. Na península ibérica (e mesmo na Inglaterra até o século XVIII), o comércio de escravos era um fenômeno essencialmente urbano.

A partir do século XVI, com a conquista da América e o desenvolvimento de plantações monoculturas tropicais de cana-de-açúcar, algodão, anil, tabaco, durante o mercantilismo, e, depois, cacau e café, formou-se um tráfico de escravos para as Américas. Nos países hispânicos continentais, os negros se mantiveram como uma minoria menos expressiva frente aos numerosos brancos, mestiços e indígenas. Em Cuba, na República Dominicana, Giana e Suriname, todavia, eles eram influentes e representavam entre 1/3 e ¼ da população.

Mas nas Antilhas ex-britânicas, francesas e holandesas eles constituíam a maioria da população, embora se trate de nações de pequena dimensão. No Haiti, colônia francesa de numerosa população escrava dedicada às plantações de cana-de-açúcar, ocorreu uma rebelião de escravos que derrotou as tropas de Napoleão!

A revolta dos negros haitianos assustou todos os brancos em todo o continente americano. Então, os franceses e as demais potências metropolitanas bloquearam as exportações de açúcar, obrigando o país a indenizar a França ao longo de todo o século XIX e parte do XX. A miséria a que a nação haitiana foi submetida, com governos títeres apoiados por Paris e depois por intervenções norte-americanas, fez um dos maiores crimes da humanidade, cujos efeitos são observados até hoje, inclusive com a crescente imigração de haitianos para o Brasil. Cada ex-escravo haitiano pagou por sua “libertação” pessoal e indenizou toda a riqueza acumulada pelos brancos, pagando pela terra, casas, indústrias, estoques e animais que os europeus deixaram lá, a maior parte destruída.

Em relação à escravidão nos Estados Unidos, com o crescimento do movimento antiescravagista inglês, no final do século XVIII, acirrou-se o debate sobre a liberdade dos negros. Enquanto alguns africanos buscavam afirmar suas origens, outros buscavam assimilar os valores liberais europeus, sendo, posteriormente, alforriados por terem combatido contras as forças norte-americanas junto aos ingleses, na Guerra da Independência (1775–1783).

Serra Leoa tornou-se um importante centro do comércio transatlântico de escravos até 11 de março de 1792, quando Freetown foi fundada pela Companhia de Serra Leoa, como forma de servir como um lar para ex-escravos do Império Britânico. Em 1808, tornou-se uma Freetown britânica Crown Colony, e em 1896, o interior do país tornou-se um protetorado britânico.

Após a Guerra de Secessão (1861-1865), nos Estados Unidos, a discriminação dos negros libertos no sul foi violenta, com o surgimento de organizações terroristas brancas, como a Ku-Klux-Klan, para aterrorizar os negros, que careceram de direitos civis, políticos e sociais até a década de 1960. O direito de voto dos negros no sul foi obtido por pressão dos movimentos sociais e do Departamento de Estado norte-americano, como contrapropaganda na Guerra Fria.

Milhões de negros migraram para as grandes cidades industriais do nordeste dos Estados Unidos, onde viveram em guetos, padecendo a pobreza e a criminalidade. A maioria dos homens afro-americanos esteve presa. Os negros predominam na população carcerária norte-americana, a maior do mundo. Entretanto, a comunidade está politicamente dividida, com muitos tendo aderido ao status quo branco.

Não tratando aqui do caso brasileiro, cujo “racismo surdo” é por demais conhecido, na América do Sul, foi na Venezuela, Colômbia e Peru onde os negros constituíram uma minoria numerosa, mas de influência menor. Houve também a fuga de escravos para países que não reconheciam a escravidão, como Uruguai e Argentina, onde se formaram comunidades negras geralmente urbanas. Algo semelhante ocorreu no Canadá em relação aos escravos dos Estados Unidos.

A partir dos meados do século XIX, a Argentina, tal como a Austrália, o Canadá, os Estados Unidos e o Brasil, recebeu uma onda de imigrantes brancos para suprir a mão-de-obra. Estima-se que a população argentina seria apenas 8 milhões de habitantes caso não ocorresse essa imigração maciça.

Após a conquista da África pelos europeus, o colonialismo criou a inevitável via de mão-dupla. Houve uma fluxo de trabalhadores mal remunerados para a Europa, criando lá, assim como nos Estados Unidos e no Canadá, comunidades de origem africana. Os negros, tal como os turcos, árabes, hindus e asiáticos, realizam tarefas que os brancos europeus julgam mal remuneradas. Formam uma comunidade numerosa e culturalmente integrada, devido à discriminação que ainda sofrem.

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