Processo de Descolonização da África

 

imperialismo-africaA expansão colonial europeia na África dividiu o continente entre quatro conquistadores: Grã-Bretanha, França, Bélgica e Portugal. As colônias africanas eram predominantemente de exploração e não de povoamento. Determinou uma reorganização da geografia política africana, voltada para o mercado metropolitano, unindo e separando áreas e economias, sociedades e povos.

Tal reorientação geoeconômica manifestou-se pela criação de novas “regiões” na África, regiões que entravam em contradição com a tradicional ordenação continental, externalizando sua economia e criando novas realidades sociais e políticas.

Paulo Fagundes Visentini, Luiz Dario Teixeira Ribeiro e Analúcia Danilevicz Pereira, autores do livro História da África e dos Africanos (Petrópolis; Vozes; 2014), mostram que o domínio colonial clássico na África durou aproximadamente 75 anos, tempo suficiente para o amadurecimento de sua incorporação na economia mundial e para a emergência de um movimento emancipacionista bastante problemático.

Diversos autores divergem sobre o momento em que o colonialismo europeu contemporâneo ocupa a África de forma decisiva. Alguns argumentam que a invasão francesa no Egito em 1798 seria o ponto de partida. Outros, inspirados pelas questões econômicas, lembram os protetorados instalados no Magreb em função das dívidas das províncias do Império Otomano. Outros, ainda, propõem como data inicial da “partilha” a atuação de Leopoldo II, da Bélgica, e da Associação Internacional do Congo, e consideram as mais de vinte expedições geográficas internacionais de franceses, britânicos, portugueses e alemães, realizadas entre 1768 e 1871, em território africano como possibilidades de “largada” da corrida pela África.

No entanto, foi a partir de 1880 que se deram a ocupação e a estruturação de um sistema de administração colonial efetivo sobre o complexo territorial africano, além da construção de uma infraestrutura de transportes e comunicações voltada para a exploração dos recursos locais. Libéria e Etiópia foram as únicas regiões que mantiveram certa autonomia em relação aos europeus.

O auge da dominação e reordenação deu-se no período entre as duas guerras mundiais, com marcada participação da crise econômica de 1929 e a posterior recessão.

Um dos maiores impérios coloniais – o Império Francês – agrupou suas diferentes áreas em blocos com sede regional e unidade administrativa, embora pouco integrados econômica e politicamente devido:

  1. à economia estar voltada para a metrópole,
  2. à artificialidade política dos territórios coloniais e
  3. à incapacidade de criar uma nova identidade.

Esses blocos regionais, dada a exiguidade de recursos para as colônias de exploração, não suportaram as demandas da descolonização política. Foram desintegrados, provocando a “balcanização” do continente.

A forma verbal balcan- + -izar tem como etimologia o nome Balcãs, derivado do vocábulo turco com significado de ‘montanha’. Ele designa a região dos Alpes Dináricos e da Transilvânia e as cadeias dos Cárpatos, que constituem relevo atormentado. A região prolonga-se na península Balcânica, situada entre o mar Adriático, a oeste, o mar Egeu e o Mar Negro, a leste, subdividida em numerosos Estados nacionais em países sem unidade étnica: Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegóvina, Macedônia, Sérvia, Kosovo, Romênia, Bulgária, Albânia, Grécia e Turquia.

No decurso da história, inúmeros exércitos invasores passaram pelos seus desfiladeiros, diversos povos perseguidos refugiaram-se nas suas montanhas. Por isso, os Balcãs são fracionados em tantos países e abrigam etnias, línguas e religiões diferentes. Logo, o verbo “balcanizar” reflete essa fragmentação histórica dos Balcãs, caracterizando-os como área de constante conflito e permanente instabilidade.

O Império Português, dada a dispersão de suas colônias, não criou unidades do tipo anterior. Cada colônia se manteve diretamente subordinada à metrópole.

O Império Belga, constituído pelo Congo e pelas ex-colônias alemãs de Ruanda e Burundi, possuindo continuidade geográfica, era unificado. E dos mais sangrentos.

Já o pragmático Império Britânico, com colônias dispersas na África Ocidental e agrupadas na Oriental, apresentava variados mecanismos de dominação.

Essas variedades administrativas dos impérios coloniais, a inserção das colônias na economia mundial e a existência ou não de colonos e interesses no local determinaram a variedade de modelos de descolonização, os quais abarcaram da pura e simples retirada até a guerra de libertação.

Em longo prazo, a descolonização não conseguiu alcançar:

  1. a transformação social e
  2. o desenvolvimento autocentrado.

Nesse sentido, ela foi apenas política e esteve sempre pressionada pela Guerra Fria e pela nova forma assumida pelo imperialismo, o neocolonialismo. A subordinação à economia mundial e a seus ciclos persistiu, sendo acompanhada pelas pressões dos órgãos internacionais e pelas “ajudas” econômica, militar, humanitária, etc.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, a situação crítica das metrópoles europeias e sua necessidade de riquezas coloniais entraram em contradições com os ideais dos socialdemocratas que chegaram ao Poder em 1945. Questionou-se, na democracia ocidental, o problema da evolução dos impérios. Certos grupos empresariais já haviam alcançado um nível de desenvolvimento na África que podia prescindir da subordinação direta à metrópole.

Frente a um longo e quase secular processo evolutivo da emancipação, clarificaram-se vários elementos de oposição:

  1. a ascensão dos Estados Unidos e da URSS como potências mundiais e anticolonialistas,
  2. o sistema das Nações Unidas com seu comitê de descolonização,
  3. as reivindicações africanas de emancipação e
  4. os interesses econômicos das emergentes empresas multinacionais obstaculizados pelas políticas dos impérios coloniais.

Tais fatores são determinantes nos processos de descolonização. Na África, onde os colonizados e suas reivindicações são protagonistas preponderantes, deve-se agregar o papel das decisões da Conferência de Bandung e das guerras anticoloniais da Ásia como elementos-chave da descolonização.

Embora o auge da descolonização da África tenha acontecido na passagem da década de 1950 para a de 1960, a reivindicação pacífica ou violenta pela independência se iniciou no imediato pós-guerra. Ela se aprofundou e radicalizou com as tentativas metropolitanas que buscaram criar mecanismos de autonomização lenta e controlada. Isso favorecia as forças internas arcaicas e a permanência das colônias subordinadas à metrópole. No entanto, a dinâmica interna das colônias e a situação internacional atropelaram os projetos gradualistas.

Ao contrário do outro lado do rio chamado Atlântico, onde o Brasil possui 48% do território e há mais 12 países e 3 dependências, na África o fracionamento do território foi quatro vezes maior em 54 países e 6 dependências!

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