Perspectivas Africanas

 

Unique-African-MasksPaulo Fagundes Visentini, Luiz Dario Teixeira Ribeiro e Analúcia Danilevicz Pereira, autores do livro História da África e dos Africanos (Petrópolis; Vozes; 2014), argumentam que há algumas peculiaridades no convulsionado processo histórico africano que precisam ser desmitificadas.

Em primeiro lugar, é preciso descartar a visão segundo a qual a África é um continente voltado ao passado, em um contexto de conflitos insolúveis, e mesmo irracionais do ponto de vista ocidental. As sociedades africanas estão passando por um processo semelhante ao atravessado por outras regiões do mundo, qual seja, a construção dos modernos Estados nacionais e a definição de sua inserção internacional.

Muito do que os europeus consideram absurdo na África constitui apenas a imagem contemporânea de processos semelhantes aos de seu próprio passado nem tão remoto. Quem se sente chocado pelas guerras de aparência étnico-tribal simplesmente esqueceu:

  1. os sangrentos conflitos religiosos e proto nacionais das monarquias dinásticas europeias,
  2. a construção pela força dos Estados nacionais europeus, que esmagaram os regionalismos (alguns dos quais ainda continuam a fazê-lo, por exemplo, a Catalunha), ou
  3. a expansão dos colonizadores americanos que exterminaram as comunidades indígenas nativas.

Esta semelhança, contudo, é ainda agravada pela herança do tráfico de escravos e o colonialismo imperialista.

O breve período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial caracterizou-se, em primeiro lugar, por uma descolonização peculiar e tardia. A peculiaridade reside no fato de a emancipação haver transcorrido largamente administrada pelas metrópoles europeias, apesar da eclosão de alguns conflitos graves.

Isso se deu de forma tardia devido ao descompasso da realidade africana em relação à Ásia e à do Oriente Médio. Herança do tráfico e do colonialismo ainda dominava as estruturas sociais do continente e sua inserção internacional durante a Guerra Fria.

Após as malogradas tentativas de reafirmação colonial na Indochina e na Indonésia e, sobretudo, devido à crise de Suez, ao desafio do nasserismo e à guerra de libertação da Argélia, as metrópoles trataram de emancipar politicamente o continente, cooptando as elites locais. Por exemplo, a formação acadêmica no exterior com “lavagem cerebral” em relação ao nacionalismo coletivista (ou “socialista”) e a implantação mental do individualismo liberal crítico do Estado é uma das mais comuns práticas. Lá como cá…

Isso foi logrado com relativo sucesso, com a implantação de regimes neocoloniais, nos quais os interesses europeus eram conservados. Além disso, criaram-se mecanismos internacionais destinados a perpetuar esta situação, como os programas condicionados de “ajuda” das ex-metrópoles.

Quando os africanos deixaram de solicitar empréstimos ao FMI, passaram a ser mais seletivos com a “ajuda” ocidental e, sobretudo, a desenvolver uma diplomacia mais altiva. Se há casos de corrupção, isso também foi uma herança maldita dos negócios com europeus e com os comerciantes de armas, diamantes e petróleo norte-americanos.

O processo inicial de construção de Estados-nação nos países africanos foi distorcido por:

  1. a permanência das estruturas coloniais,
  2. o neocolonialismo e,
  3. a implantação de pequenos Estados inviáveis política e economicamente, afinal, são 54 países independentes!

A recém retomada da história da África pelos africanos atravessa uma etapa comparável à Europa dos séculos XVI a XIX, ou às Américas do século XIX, mas em um mundo do século XXI com problemas mais complexos.

O continente se dividiu entre uma corrente de Estados conservadores e outra de progressistas, no plano interno e externo, com projetos político-econômicos e alianças internacionais antagônicos. Essa rivalidade se deve à permanência dos “bastiões brancos” na África Austral, que propiciaram o desenvolvimento de uma luta de libertação nacional mais radical. Os primeiros colapsos destes regimes ocorreram na conjuntura particular de meados dos anos 1970, gerando conflitos internos e internacionalizados pelo confronto entre Ocidente e Oriente.

Quando o fim da Guerra Fria, a globalização e o reordenamento mundial que se seguiu combinaram-se aos efeitos da década perdida e dos conflitos regionais, a África sofreu um significativo processo de marginalização internacional, enquanto o caos tomava conta do continente. Em meio à “tribalização” dos conflitos sem estratégia nacional e à desarticulação das economias, estruturas sociais e dos sistemas políticos, reapareciam epidemias de cólera e novos vírus como a Aids e o Ébola, com efeitos malthusianos sobre as populações.

Paralelamente, houve a redemocratização da África do Sul e o progressivo colapso do “protetorado” francês sobre amplos espaços africanos. A África está logrando, agora, certa autonomia para reorganizar-se com base em uma correlação de forças regionais.

A reativação da vida econômica, devida, sobretudo, aos maciços investimentos chineses, por sua vez, tem trazido de volta à África descendentes da diáspora que se encontravam na Europa e, em menor medida, nos Estados Unidos. Na esteira da constituição de um capitalismo africano, face ao colapso da esquerda, tem produzido a emergência de novas contradições e realidades políticas com novos atores sociais.

Na África Meridional, por exemplo, emerge uma nova fratura entre Estados que aderiram às reformas neoliberais e outros que desejam vencer as barreiras legadas pelos antigos colonizadores ou pelas poderosas comunidades brancas remanescentes. Os Estados “liberais” são Zimbábue, Namíbia, Angola e Suazilândia, enquanto os “reformistas” são Moçambique, Botsuana, Lesoto e África do Sul.

Haverá uma espécie de neoimperialismo à chinesa? A maior parte dos Estados africanos tem um pesado déficit com a China, embora o saldo total africano seja positivo, devido a países como Angola que exportam muito mais do que a média.

Os críticos europeus e norte-americanos alegam que a concessão de empréstimos chineses sem a exigência de garantias político-institucionais favoreceria a permanência de ditaduras. Contra-argumenta-se que, ao contrário dos países dos críticos, “a China não dá o peixe, mas ensina sim a pescar”. O histórico da política externa chinesa mostra a prioridade pela não intervenção nos assuntos domésticos.

A presença chinesa, investindo em infraestrutura, energia, doando hospitais e escolas, implantando indústrias e reabrindo atividades que estavam paradas, além de pagar centenas de bilhões de dólares por minerais, petróleo e outras matérias-primas, está mudando a situação da sociedade e a atuação do Estado africano. O futuro está em construção.

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