Os Russos

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Angelo Segrillo, em seu livro Os Russos (São Paulo; Editora Contexto; 2012; 288 páginas), propõe-se a responder à desafiante questão: quem são os russos? Esta questão será também debatida no meu curso Economia no Cinema 2016.

O autor morou muitos anos na Rússia. Primeiro, quando cursou o mestrado no Instituto Pushkin de Moscou, ainda nos tempos da União Soviética. Depois por períodos de longa duração de pesquisa nos arquivos da Rússia pós-soviética como historiador especializado naquela região do mundo. O relato deste livro é fruto, então, não apenas das leituras acadêmicas, como também da vivência e contato pessoal com os russos, em seu ambiente. Ele convida o leitor a lhe acompanhar nesta viagem pela Rússia, caracterizando seus habitantes.

A primeira aproximação da resposta diz respeito a uma distinção, já que eles moram no maior país do planeta: a Rússia. Se o Brasil,com seus 8,5 milhões de km2, representa sozinho quase metade (48%) da América do Sul, a Rússia, com seus cerca de 17 milhões de km2, abrigaria dois desses Brasis gigantescos, ou seja, seu território equivale ao do nosso continente. A antiga União Soviética – assim como o Império Czarista – ocupava assombrosos 22,4 milhões de km2. Era quase um sexto de toda a superfície terrestre!

Mas quem são os habitantes desse território gigante? Em russo há duas palavras diferentes: russkii e rossiyanin (no plural, respectivamente, russkie e rossiyane). Russkii é o russo étnico, aquele que é filho de pai ou mãe russa. Rossiyanin é qualquer pessoa que nasce e vive na Rússia (cidadão da Rússia por nascimento ou vivência), mas não necessariamente é um russo étnico.

Essa diferenciação reflete o modo como a nacionalidade é definida na Rússia: pelo jus sanguinis (“direito do sangue”), enquanto no Brasil temos o jus soli (ou princípio do “direito do solo”). O conceito do jus sanguinis eterniza as diferenças étnicas no país, fazendo com que na Rússia tenha dezenas de nacionalidades há séculos, mantendo suas próprias culturas distintas.

Tal situação cria, a um só tempo, grande riqueza étnica e um problema especial para ser tratado no livro: afinal, de quem o autor vai tratar? Esta obra aborda ambos. Isso significa que o leitor entrará em contato com uma diversidade de culturas maior do que esperava ao ler uma obra sobre o que é tipicamente russo.

O papel da Rússia e o peso dos russos no mundo certamente extrapolam essa ampla diversidade interna. Afinal, esse país por séculos foi, ao menos, uma grande potência (na época czarista) e chegou a ser um dos dois únicos na Terra a terem o status de superpotência em qualquer época (como União Soviética). Até hoje o arsenal nuclear russo é, em termos de número de ogivas nucleares, o maior do mundo.

Além disso, o país tem uma riqueza mineral inigualável, pois possui praticamente todos os principais recursos naturais: desde os mais conhecidos, como petróleo, diamante, ouro, prata, gás natural, carvão, urânio e ferro, até os recursos menos comuns, como cobre, zinco, alumínio, tungstênio, molibdênio, nióbio, magnésio e barita. Isso ajudou a assegurar a subsistência dos russos em épocas de grandes crises econômicas, como a grande depressão pós-soviética nos anos 1990 ou nas primeiras décadas do regime soviético.

Conjunturas delicadas, por sinal, não faltaram para os russos. As dificuldades econômicas das classes menos favorecidas na Rússia czarista, a repressão política na URSS, as desigualdades geradas pela volta ao capitalismo na Federação Russa atual formam um lado negativo da experiência russa que precisa ser estudado e incorporado na avaliação da totalidade da vivência do país.

Segrillo dedica parte importante do livro aos rumos históricos desse país e do seu povo. Desde sua formação até os reinados dos czares chegando à maior revolução que o mundo viu no século XX. Depois de passar mais de sete décadas em regime comunista, o impacto da chegada do capitalismo transformou a vida dos cidadãos. Trata disso, mas também explora a “alma russa”: como eles são no dia a dia, o que leem, como leem, como se divertem, as peculiaridades na culinária.

Ele também destaca algumas áreas em que a Rússia é lembrada mundialmente, como literatura, teatro, dança, música e artes, exemplificadas por figuras tão diferentes quanto os escritores Dostoievski e Tolstoi, os músicos Stravinsky, Rostropovich e Tchaikovsky, os poetas Pushkin e Maiakovski, o dramaturgo Tchekhov e o astronauta Gagarin.

Fecha o livro com a relação da Rússia com o Brasil. Se o intercâmbio ainda é modesto, algumas contribuições notáveis – como os músicos russos que abrilhantam a Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) – já mostram o potencial desses dois gigantes.

Afinal, quem são os russos? Esta é uma pergunta mais difícil de responder do que parece a princípio. Como já mencionado, na língua russa há duas palavras para “russo”: uma se refere ao russo étnico, filho de pai ou mãe russa. E a outra está associada aos nascidos em território russo. Essa diferenciação está relacionada à forma como a nacionalidade é definida lá. Enquanto aqui é brasileiro quem nasce no Brasil, na Rússia, a nacionalidade é definida pelo sangue. Assim, o filho de um casal de imigrantes japoneses no Brasil, de primeira geração, é considerado imediatamente de nacionalidade brasileira. Já o filho de um casal imigrante japonês nascido na Rússia seria considerado de nacionalidade japonesa e não russa. Ou seja, o conceito do jus sanguinis eterniza as diferenças étnicas no país.

Durante a Perestroica (1989-1990) haviam começado a pipocar vários conflitos inter-étnicos na URSS (armênios vs. azerbaijanos, uzbeques vs. quirguizes etc.). O mais importante para os russos é a cultura (e não o sangue biológico em si, que é igual em todos os seres humanos). Para eles, o que vale para determinar a nacionalidade é a preservação da cultura: o local onde você nasce é mero acidente.

Esta ênfase na cultura, na preservação do modo de vida de um povo, é central para os russos. Para nós, brasileiros, que já nascemos em um povo miscigenado talvez seja difícil compreender tal perspectiva. A situação mais próxima que temos é a de índios nativos do Brasil que se consideram uma nação separada. Na Rússia, cada etnia se considera uma nação, ou nacionalidade, separada, embora todas estejam compartilhando a mesma cidadania da Rússia e direitos políticos inerentes.

Em suma, quando falamos da Rússia, estamos falando de dezenas de culturas diferentes compartilhando um mesmo espaço e interagindo. A que nacionalidades nos referimos? O primeiro passo para entender este mundo intricado é observar o mapa da antiga União Soviética. Pelo mapa, podemos ver que a União Soviética era composta de quinze repúblicas constitutivas:

  1. as três eslavas (Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia),
  2. as três do mar Báltico (Estônia, Lituânia e Letônia),
  3. as três separadas da Rússia pela cadeia de montanhas do Cáucaso (Geórgia, Armênia e Azerbaijão),
  4. a Moldova, e
  5. as cinco repúblicas islâmicas da Ásia central (Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão).

Somente aqui temos, então, as chamadas 15 nacionalidades titulares (ou principais) de cada república constituinte da URSS. O problema é que dentro de cada uma dessas repúblicas reproduzem-se dezenas de outras nacionalidades (e subnacionalidades) menos numerosas, como esquimós, alemães, coreanos, chechenos, judeus, ossetas etc. E praticamente todas essas nacionalidades têm representantes na Rússia atual, em pé de igualdade em termos de direitos jurídicos de cidadania, mas diferindo enormemente em termos de cultura, modo de vida e hábitos.

Essa variedade pode ser mais bem compreendida se integrada com um estudo mais detalhado da geografia do país, que é o assunto do segundo capítulo do livro.

Segrillo relata um episódio exemplar do olhar brasileiro sobre os russos. No último ano da existência da URSS, um professor correu uma pesquisa entre alunos estrangeiros pedindo para listar as características mais marcantes dos russos (russkie).

As cinco características dos russos mais citadas entre os brasileiros foram as seguintes:

  1. introvertidos;
  2. gregários
  3. intelectuais;
  4. ligados à natureza;
  5. brutos.

A pesquisa visava apenas colher impressões, não tinha metodologia científica. Mas os resultados iluminam aspectos da vida russa.

A primeira característica – introvertidos – foi citada por brasileiros, mas não pelos alunos europeus, por exemplo. Talvez simbolize um pouco da diferença da cultura brasileira e da russa. Os brasileiros (e quanto mais para o norte no Brasil mais essa característica vai se acentuando) costumam ser bastante expansivos e comunicativos.

Um carioca, acostumado no Rio de Janeiro a falar e ter contato fácil com estranhos na rua, em Moscou achará o russo fechado ao primeiro encontro, pois os contatos com estranhos não acontecem tão facilmente assim. Em geral, os russos são aceitos no grupo ao serem introduzidos por terceiros conhecidos comuns. Mas, uma vez que os russos considerem uma pessoa amiga, tornam-se amigos muito confiáveis. Nesse ponto, Moscou e Rio de Janeiro têm padrões opostos. Muitas vezes, estrangeiros no Rio de Janeiro ficam maravilhados com a facilidade de fazer um primeiro contato, mas decepcionados ao ver que isso não resulta em uma amizade profunda. O carioca não dá seu endereço para quem conhece na praia…

A segunda característica – gregários – é uma consequência da própria história russa. Em um país onde o coletivismo sempre esteve presente (exacerbado enormemente pela experiência socialista soviética), os russos têm um forte espírito de grupo. O aspecto de ajuda mútua aos amigos foi um lado que se desenvolveu muito no período soviético.

Há também um elemento de “classe” nesse aspecto. No período soviético, uma época em que ocasionalmente faltavam vários produtos, a ajuda mútua entre amigos era uma das estratégias de sobrevivência utilizadas para superar dificuldades. Isso lembra o Brasil, onde as classes baixas e pobres costumam se ajudar mais umas às outras (“açúcar para o vizinho agora, para ele emprestar o sal depois” etc.) que as classes abastadas.

A terceira característica – intelectuais (ou seja, ligados à cultura) – pode estar relacionada tanto com a primeira mencionada, introvertidos, quanto com o clima frio, associado ao ensimesmar-se, ao voltar-se ao mundo interior da mente. É fato que os russos, em especial durante o período soviético (em que livros e jornais tinham preços muito baratos), eram um dos povos que mais liam. Se no Rio de Janeiro os cariocas em filas conversam uns com os outros, na URSS as pessoas leem nas filas, nos ônibus, no metrô e em qualquer lugar público.

A quarta característica – ligados à natureza – é uma consequência das condições geográficas. Grande parte da região da Rússia central se encontra na taiga, a maior concentração de florestas do mundo. Moscou e muitas cidades russas foram construídas literalmente no meio de florestas, o que, juntamente com o planejamento urbano, as leva a ter uma das maiores concentrações de parques e florestas urbanas em comparação com qualquer outro país.

Há intenso contato com a natureza por parte dos russos. Os russos, desde cedo, costumam acampar, ter dacha (casa de campo) onde cultivam hortaliças. Essas casas de campo eram erguidas em terrenos que o governo dava a quem quisesse construir e plantar hortaliças para incrementar a produção alimentar familiar. Estavam mais para as casas que pessoas pobres ou de classe média baixa constroem com seus próprios esforços (“autoconstrução”) no Brasil que para uma casa de campo luxuosa brasileira.

Os russos convivem com um inverno rigoroso. Mesmo que os belos parques da capital continuem a ser frequentados no frio, o clima contribui, segundo algumas teorias, para que o povo seja introvertido e voltado ao seu mundo interior.

A quinta característica mais votada – brutos – nas discussões posteriores se revelou ligada a dois fatores. Politicamente, estrangeiros viam o Império Czarista e a União Soviética como imperialistas, subjugando seus conquistados e satélites. Além disso, foi muito citado que no espaço público os russos empurravam as pessoas, não pediam desculpas e as vendedoras soviéticas tratavam mal os clientes nas lojas, chegando a gritar com eles.

Sobre esse argumento histórico, o autor fala adiante. Sobre o dia a dia, acredita que o fato de a pesquisa ter sido realizada na capital pode ter influenciado o resultado. Moscou é uma metrópole, anônima e, realmente, no metrô o pedestre moscovita é mais selvagem que o motorista brasileiro no trânsito de carro. Mas não será essa uma característica das grandes cidades com transportes públicos entupidos?

Finalmente, os destratos aos clientes nas antigas lojas soviéticas ou nas repartições públicas russas seriam assim tão piores do que aqueles encarados por um brasileiro na fila de INSS para conseguir vaga em hospital público? Parece-lhe que as diversas nações têm seus subsolos “negativos” que precisam ser mostrados sim, mas sem perder a perspectiva mais geral.

Impressões e comparações foram uma constante em suas longas estadas tanto na URSS quanto na Federação Russa. Descrições impressionistas não são científicas, mas são humanas. Aqui e ali, ao longo deste livro, o autor deixa escapar quadros de pequenos episódios que aconteceram com ele e que talvez possam ajudar a iluminar e ilustrar algumas facetas das vidas dos russos.

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