Superpopulação Chinesa

CHINA_Economia de Escala

A primeira e mais óbvia constatação em relação aos chineses de Cláudia Trevisan, em seu livro “Os chineses” (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2013), é a de que eles são muitos: 1,350 bilhão de pessoas, 20% da humanidade, sete vezes a população do Brasil. Olhado de qualquer ângulo, é um número impressionante que ao longo da história despertou reverência, alimentou teorias conspiratórias e estimulou a imaginação de homens de negócio fascinados com o que poderia ser o maior mercado consumidor do mundo.

No século XVIII, Napoleão aconselhou seus pares a deixarem a China dormindo. “Quando a China acordar, ela vai balançar o mundo.” No século seguinte, o potencial impacto da demanda chinesa nutriu a fantasia dos mercadores ingleses, que buscavam compradores para os produtos de sua indústria nascente. Pelos cálculos, se cada chinesa aumentasse a barra de seus vestidos em 2,5 centímetros, isso seria suficiente para sustentar as fábricas de lã e linho das ilhas britânicas durante décadas.

Mais recentemente, o “perigo amarelo” se tornou uma obsessão para Mafalda, a personagem criada pelo cartunista argentino Quino, que se perguntava se a terra se moveria literalmente se todos os chineses saltassem ao mesmo tempo e se preocupava com o fato de eles trabalharem do outro lado do mundo no momento em que todos dormiam no Ocidente.

Mafalda teve suas dúvidas nos anos 1970, quando a população da China ainda era de setecentos milhões e o país vivia de costas para o mundo sob o comando de Mao Tsé-tung (1893-1976). Três décadas depois, no início do século XXI, os chineses já eram 1,350 bilhão e não precisaram dar um pulo coletivo para balançar o mundo.

Outra constatação menos óbvia para nossa visão de mundo eurocentrista é a de que os chineses foram a grande potência mundial durante a maior parte da história. Quando o Brasil foi descoberto, em 1500, o então Império do Meio era a maior economia do mundo e respondia por 25% do PIB global. Esse percentual subiu para 33% no começo do século XIX, quando tem início o processo de decadência do país.

Aos olhos chineses, os últimos duzentos anos de supremacia ocidental são a exceção, não a regra. Coerente com essa concepção, os mapas-múndi exibidos nas paredes de Pequim mostram a China, e não a Europa, no centro do mundo.

Além de serem muitos, os chineses existem há muito tempo. A identidade cultural dos habitantes do antigo Império do Meio começou a se formar há pelo menos quatro mil anos e se perpetuou de maneira surpreendente até os dias de hoje. A consciência de que fazem parte de uma civilização milenar é transmitida de geração a geração há séculos e sobreviveu ao violento ataque à tradição liderado por Mao Tsé-tung.

Mais venerada entre as tradições filosóficas e políticas do país, o confucionismo é o principal elemento que garantiu a continuidade da organização social e dos valores chineses, com sua ênfase nas relações familiares, no respeito aos mais velhos, na valorização da hierarquia e na defesa da moralidade e da benevolência por parte dos governantes. Confúcio (551 a.C.-479 a.C.) transformou o culto aos ancestrais em um ponto central de seus ensinamentos e, dessa forma, colocou o vínculo com o passado na vida cotidiana dos chineses.

Mas talvez o mais extraordinário seja o fato de que os chineses não se parecem em nada com a imagem que nós temos de uma suposta placidez, silêncio e contenção orientais. Eles são tão ou mais ruidosos que os brasileiros, manifestam sua curiosidade sem restrições, adoram dançar e cantar, são extremamente gregários, têm paixão pelo jogo e devoção pela boa comida. Até os funerais são barulhentos, com música e fogos de artifício para espantar os maus espíritos. O calendário local é marcado por festivais, que são pretextos para grandiosas celebrações em grupo, realizadas em geral ao redor de mesas fartas.

A vida no país não ocorre entre quatro paredes, mas ao ar livre. Praças, parques, calçadas e hutongs (área residencial tradicional de Pequim, com estreitas ruelas) estão sempre cheios de pessoas que se reúnem para conversar, cantar, jogar, dançar, fazer ginástica, praticar tai chi chuan, caminhar e manter vivas algumas das antigas tradições do país, como as danças do leque ou da espada. O amanhecer nas cidades chinesas é marcado pela visão de grupos de amigos e vizinhos que se exercitam em conjunto.

No início da noite, praças se transformam em salões de baile, com casais que dançam uma espécie de tango chinês. Os que quiserem podem chacoalhar ao som de músicas mais agitadas, em grupos nos quais todos executam a mesma coreografia.

As casas das antigas ruelas de Pequim não são equipadas com banheiros e os moradores usam toaletes públicos. A maioria deles não tem vasos sanitários ao estilo ocidental e exigem a posição de cócoras de seus usuários. Nas portas, placas anunciam para os turistas o que os aguarda.

O fato de serem muitos também molda uma relação especial com a privacidade, e os chineses fazem na rua coisas que, no Ocidente, habitam o universo doméstico. Não é raro encontrar um casal passeando de pijama e chinelo ao cair da tarde, alguém lavando o cabelo na calçada ou pessoas comendo em qualquer lugar.

O vermelho é a cor por excelência da China, a ponto de marcar nos painéis eletrônicos as ações que estão em alta na Bolsa de Valores, enquanto o verde indica os papéis que estão em baixa, exatamente o contrário do que ocorre no Ocidente.

O uso de roupas íntimas vermelhas no Ano-Novo chinês é altamente recomendado e as seções de lingerie dos supermercados ficam cheias de calcinhas, sutiãs, cuecas e meias carmim. Os vestidos de noiva dos casamentos chineses tradicionais também são vermelhos, mas a ocidentalização recente está levando à expansão no uso do branco, cor associada à morte na China e utilizada nos velórios e enterros.

A preferência é bem anterior à Revolução Comunista de 1949, quando o vermelho passou a ser também a marca do poder, em substituição ao amarelo do período imperial. A cor tinge a bandeira do país e a do Partido Comunista e está presente nas cortinas, tapetes e poltronas do plenário do Grande Palácio do Povo, onde ocorrem os grandes encontros da elite governante. Os chineses gostam do vermelho há mais de dois mil anos e associam a cor ao sol, à sorte e à felicidade.

O Ano-Novo na China não é celebrado na noite entre 31 de dezembro e 1º de janeiro. Aliás, não há uma data fixa para a festa, que cada ano cai em um dia diferente, entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro, dependendo do calendário lunar. O Ano-Novo começa no primeiro dia do primeiro mês lunar e é a festa mais importante para os chineses e vários outros habitantes da Ásia, como japoneses, coreanos e vietnamitas.

Também chamado de Festival de Primavera, por marcar o início da estação, o Ano-Novo chinês provoca o maior deslocamento de pessoas da face da Terra, com milhões viajando por todo o país para reencontrar suas famílias.

Apesar da civilização milenar, os chineses sofrem de uma crônica falta de modos, reconhecida oficialmente e combatida por campanhas promovidas pelo governo. Nos meses que antecederam a Olimpíada de Pequim, furar a fila, cuspir no chão e jogar lixo na rua passaram a ser tratados como gestos impatrióticos, que poderiam denegrir a imagem do país diante do mundo.

A melhor medida do grau de preocupação da elite governante com os bons modos é a existência de uma espécie de “departamento de etiqueta” dentro do Partido Comunista, batizado com o inacreditável título de Comitê Diretivo da Civilização Espiritual. Preocupado com a imagem que os chineses projetam no exterior, o comitê divulgou em 2006 um guia para orientar o crescente número de pessoas que fazem viagens internacionais. O China Daily, jornal editado pelo Conselho de Estado, divulgou a notícia sob o título “Dica de viagem: não envergonhe seu país”, que trazia uma lista de práticas que deveriam ser evitadas, como falar alto, emitir sons para limpar a garganta em público e fazer ruído ao comer.

A gentileza está ausente do convívio urbano. Carros não respeitam pedestres, motoristas não dão passagem a outros e homens não seguram a porta para mulheres passarem. Ninguém espera o elevador ficar vazio para depois entrar. Os que estão dentro muitas vezes apertam o botão que fecha a porta assim que o elevador para em um andar intermediário, antes que as pessoas que esperam o tenham alcançado. O metrô no horário de pico é um Deus nos acuda e as pessoas falam no celular aos berros, como se estivessem sozinhas em suas casas.

Claro que tudo isso é uma imensa generalização, mas quem está fazendo campanha por “bons modos” é o próprio governo chinês. Alguns sociólogos sustentam que a falta de refinamento no comportamento público tem origem no longo período em que o país foi comandado por Mao Tsé-tung, entre 1949 e 1976. Nessas quase três décadas, a etiqueta era vista como algo burguês e um instrumento da classe dominante para oprimir os pobres. Essa concepção chegou ao auge na Revolução Cultural (1966-1976), durante a qual milhares de estudantes foram enviados à zona rural para aprender com os camponeses. Os hábitos rudes estavam em alta e qualquer gesto de refinamento poderia ser interpretado como um desvio pequeno-burguês e punido com sessões de humilhação pública, a prisão ou a morte.

Além das campanhas pela polidez, o fim dos anos de materialismo histórico e ideologia maoísta permitiu o renascimento da enorme superstição dos chineses e a retomada de práticas milenares, como o feng shui, a numerologia, a astrologia e a consulta a videntes. Também levou à reabilitação do confucionismo, que Mao Tsé-tung tentou arduamente dizimar durante três décadas. A reverência ao antigo filósofo é tanta que suas ideias substituíram o marxismo-leninismo e o maoísmo no discurso oficial. O Partido Comunista de hoje não prega a luta de classes nem a revolução permanente, mas busca a construção de uma “sociedade harmônica”, uma das ideias mais caras a Confúcio.

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