Invasão Chinesa ao Mundo ou Invasão Americana à China?

Caricatura da divisão imperialista da China

Até bem pouco tempo, segundo Cláudia Trevisan, em seu livro “Os chineses” (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2013), a China parecia um país exótico e distante, que poucos se dariam o trabalho de conhecer. Para os esquerdistas dos anos 1960 e 1970, era a terra do grande timoneiro Mao Tsé-tung, que levou milhões de camponeses a adotarem o comunismo em uma revolução heroica. Os que tinham uma perspectiva histórica mais longa viam a nação dona de uma civilização milenar e de um passado glorioso que havia sido relegada à insignificância na era contemporânea.

Com a abertura ao exterior, a partir de 1979, a China bateu às portas do mundo e entrou por meio de produtos industrializados baratos que revolucionaram o consumo e a estrutura de produção globais. O país distante ficou ainda mais próximo quando, em 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio e passou a ser relevante para todos os temas que importam no mundo, do aquecimento global ao jogo de poder no cenário internacional, passando pela alta nos preços do petróleo, da soja e do minério de ferro. Não dá para entender o mundo de hoje e o que será o mundo de amanhã sem entender a China e sua crescente integração à economia global.

A velocidade e a amplitude das transformações vividas pelos chineses a partir de dezembro de 1978 não têm paralelo na história. Naquela data, Deng Xiaoping conseguiu convencer seus camaradas do Partido Comunista de que o país precisava aderir às regras de mercado, se abrir ao mundo e com a globalização virar uma Chimérica!

Nas três décadas seguintes, a China percorreu uma trajetória meteórica rumo ao grupo das grandes potências mundiais. No período de pouco mais de dois anos, entre dezembro de 2005 e o início de 2008, o país saiu da sétima posição entre as maiores economias do mundo e chegou ao terceiro lugar, deixando para trás Itália, França, Inglaterra e Alemanha. À sua frente, só estavam Japão e Estados Unidos. Já superou o Japão e, se mantiver seu ritmo de crescimento, a China chegará ao topo do ranking antes de 2030.

Quando o processo de reforma foi lançado, a soma das exportações e importações da China representava menos de 1% do comércio global, percentual semelhante ao abocanhado pelo Brasil na mesma época. Quase três décadas depois, em 2007, o país asiático estava em segundo lugar no ranking dos exportadores, com 8,8% dos embarques mundiais, e ocupava a terceira posição na lista dos importadores, abocanhando 6,7% das compras totais. Naquele ano, o fluxo de comércio da China com o restante do mundo somou US$ 2,174 trilhões e seu superávit comercial alcançou US$ 262 bilhões, cifra próxima dos US$ 288 bilhões que resultavam da soma das exportações e importações brasileiras no período. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube dos países mais ricos do mundo, constatou que a China tornou-se a maior potência comercial do globo em 2010.

O antigo Império do Meio tem armas nucleares desde 1964 e é um dos cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2003, a China entrou para um clube ainda mais restrito, ao se tornar o terceiro país a enviar uma missão tripulada ao espaço, depois de Estados Unidos e Rússia. Agora, se prepara para superar os norte-americanos na corrida espacial e ser responsável pela próxima viagem do homem à Lua. Na avaliação da NASA, se mantiver o atual ritmo de desenvolvimento de seu programa espacial, os chineses terão condições de mandar uma missão tripulada à Lua em 2017 ou 2018, antes da expedição dos Estados Unidos, prevista para 2020.

Para completar as credenciais de grande potência, a China ficou em primeiro lugar no número de medalhas de ouro na Olimpíada de Pequim, com 51 vitórias, bem à frente das 36 conquistadas pelos norte-americanos. Foi a primeira vez em sete décadas que a liderança dos Jogos não ficou nem com os Estados Unidos nem com a Rússia-URSS. Se para nós a transformação parece vertiginosa, imagine o que ela significa para quem a vive por dentro.

Os chineses, que hoje consideram o enriquecer algo glorioso, corriam o risco de morrer ou serem enviados a campos de trabalho forçado se mostrassem qualquer gesto pequeno-burguês, durante a Revolução Cultural, que começou em 1966 e só terminou com a morte de Mao Tsé-tung, em 1976. Hoje, substituíram a ideologia comunista pela consumista e os novos emergentes trocaram a vida de privações pela exibição irrestrita da riqueza.

Isolados do mundo até três décadas atrás, os chineses abraçam com voracidade os hábitos ocidentais. Redes de fast-food se multiplicam, os jovens trocam o chá pelo café, danceterias reverberam ao som de música eletrônica, redes de hipermercados se expandem, shopping centers brotam em todo o país e carros ocupam rapidamente o lugar das bicicletas. A internet é um modo de vida para os jovens urbanos que nasceram depois dos anos 1980 e sua paixão pelo mundo virtual levou a China a assumir a liderança no ranking global do número de pessoas conectadas à rede de computadores no início de 2008, com 220 milhões de usuários, comparados a 210 milhões nos Estados Unidos. Um ano mais tarde, o número de internautas chineses já estava em 300 milhões.

A mesma explosão ocorre com os telefones celulares, setor no qual a China detém a liderança global há mais tempo. No início de 2009, havia 640 milhões de celulares no país e a empresa de consultoria BDA prevê que a cifra deverá quase dobrar até 2012, chegando a 965 milhões, com 7 milhões de novos assinantes a cada mês. Os aparelhos parecem uma extensão do corpo dos jovens, que estão quase o tempo todo teclando mensagens de texto; em 2007, os chineses trocaram nada menos que 592 bilhões de torpedos.

A ocidentalização também influencia o ideal de beleza. A China experimenta um surto de cirurgias plásticas, com milhares de pessoas buscando ter olhos maiores, nariz mais fino e seios fartos. As clínicas promovem seus serviços com propaganda ostensiva e meios heterodoxos, como reality shows.

Os programas de TV que mostravam as cirurgias se multiplicaram, entre eles a cópia do norte-americano “I Want a Famous Face”, no qual os candidatos se submetem a intervenções para ter um rosto parecido ao de uma pessoa famosa. Em todos eles, mulheres competiam para ganhar um pacote gratuito de plásticas, desde que concordassem em ter milhares de espectadores para as cirurgias e se comprometessem a ver o resultado ao vivo, diante das câmeras de TV. A popularidade dos programas não impediu que eles fossem proibidos pelos censores em agosto de 2007.

As razões que levam os chineses a realizar cirurgias plásticas vão muito além da busca de um ideal de beleza e refletem o grau de ambição e competição que impera na sociedade. A maioria acredita que as mudanças em seus rostos vão aumentar as chances de sucesso profissional, que se tornou uma obsessão nacional.

A vaidade reprimida durante os anos de Mao se manifesta agora sem nenhuma restrição. Lojas de cosméticos com todas as marcas internacionais povoam os shoppings e oferecem cremes para branquear a pele do rosto, a aspiração máxima das chinesas urbanas, que querem se distanciar da pele queimada de sol dos camponeses. Manicures, salões de beleza e spas estão em todos os lados e as academias de ginástica nos moldes ocidentais atraem uma multidão de jovens que buscam músculos definidos.

Vistos antes como símbolo da degradação feminina e proibidos até 2003, os concursos de beleza se transformaram em uma instituição nacional, acompanhados por milhões de espectadores. A ilha de Hainan, no sul do país, é o local por excelência para realização dos eventos e sediou quatro dos cinco concursos Miss Mundo realizados desde 2003. No de 2007, a vencedora foi a chinesa Zhang Zilin, a primeira representante do Leste Asiático a ganhar o título. As disputas são populares a ponto de ganharem as páginas do Diário do Povo, o sisudo jornal do Partido Comunista, e do China Daily, editado pelo governo.

Fora de Hainan, há uma infinidade de concursos de beleza, para todos os públicos, de aeromoças à terceira idade. Em 2004, o entusiasmo pelas operações plásticas e a paixão pelas misses se encontraram na primeira disputa destinada exclusivamente a pessoas que tivessem realizado cirurgias para mudar a aparência. O Miss Beleza Artificial teve 19 finalistas, com idades de 17 a 62 anos, entre as quais estava um transexual, Liu Xiaojing, que até 2001 era um homem. Para participar da disputa, todos tiveram que apresentar atestados médicos comprovando que haviam realizado plásticas. A vencedora foi Feng Qian, que recorreu ao bisturi para aumentar seus olhos, afinar suas bochechas e diminuir a cintura.

Com mais dinheiro no banco, os chineses também podem se dar o luxo de ter animais de estimação e é cada vez mais comum ver pessoas passeando com seus cachorros nas grandes cidades. Pelo menos em Pequim, ter um bichinho em casa não é barato. Os donos devem registrar seus cachorros na delegacia de polícia e pagar uma taxa de US$ 140 ao ano para mantê-los. Também existe uma política de “cachorro único” na cidade e é proibido ter mais de um animal. A capital chinesa ainda limita o tamanho dos cães, que não podem ter altura superior a 35 centímetros.

Os chineses inventaram o chá e o transformaram na bebida mais consumida em todo o mundo depois da água. Mas o símbolo da ascensão social da nova China é o café, especialmente se for consumido em uma das dezenas de lojas da rede norte-americana Starbucks que brotam em todo o país. O sucesso na China ultrapassou as mais otimistas previsões dos executivos da companhia e em breve o país asiático será o maior mercado da rede fora dos Estados Unidos. Jovens profissionais lotam os Starbucks e pagam por um café cerca de US$ 2,50, mais do que muitos chineses gastam em uma refeição.

A Coca-Cola conseguiu superar a milenar tradição que veta bebidas geladas nas refeições, em razão da crença de que elas dificultam a digestão e devem ser evitadas. A China já é o quarto mercado da companhia e, antes de 2010, deve superar o Brasil e subir para a terceira posição.

As redes de fast-food multinacionais também fincam suas bandeiras nas cidades chinesas. Com seus baldes de asas de frango, o KFC é de longe a mais bem-sucedida, a ponto de muitos homens chineses considerarem suas lanchonetes um ótimo lugar para levar uma garota no primeiro encontro. A empresa norte-americana tinha 1,7 mil restaurantes na China no início de 2008 e abria um novo a cada dia.

O principal concorrente do KFC é o McDonald’s, o primeiro fast-food a se instalar na China, em 1992. A chegada a Pequim de um dos ícones do american way of life se transformou em símbolo da disposição do Partido Comunista de se render à globalização e às leis de mercado. Na época, a loja de Pequim era a maior do McDonald’s no mundo, com setecentos lugares, e seu primeiro dia de funcionamento atraiu uma multidão de 13 mil pessoas.

Em resposta ao enorme crescimento do mercado automobilístico na China, o McDonald’s abriu sua primeira loja drive-through em dezembro de 2005, na província sulista de Guangdong. Dois anos depois, havia 16 lanchonetes desse tipo no país e os chineses ainda estavam aprendendo a se relacionar com a novidade: cerca de 20% dos clientes pediam os lanches dentro dos carros, encontravam um lugar para estacionar e entravam nas lojas para comer. “Eles querem ter a experiência completa”…

O inglês acompanha a invasão dessa legião estrangeira e hoje há mais pessoas na China estudando o idioma do que a população inteira dos Estados Unidos. O país é o mercado de mais rápido crescimento para a English First, uma das grandes multinacionais no ensino de idiomas, com expansão de 50% ao ano a partir de 2005. Bill Fisher, presidente da empresa na China, avalia que o governo passou a estimular o ensino da língua como uma forma de aumentar a competitividade econômica do país, que nesse quesito ficava em desvantagem quando comparado à vizinha Índia.

O basquete é o jogo mais popular entre os jovens e a celebridade mais poderosa do país é o jogador Yao Ming, uma das estrelas da NBA dos Estados Unidos, onde joga no Houston Rockets. De acordo com a revista Forbes, Yao ganhou US$ 56,6 milhões em 2007, valor que inclui seu salário e o que recebeu em campanhas publicitárias para marcas como Coca-Cola, Visa, Apple e McDonald’s. O basquete também garantiu o quarto lugar no ranking da Forbes de 2008 ao jogador Yi Jianlian, que em 2007 entrou para a liga da nba, jogando para o Milwaukee Bucks. O segundo lugar do ranking da Forbes de 2008 era ocupado por outro atleta, Liu Xiang, vencedor da medalha de ouro nos 400 metros com barreira na Olimpíada de Atenas, a primeira do gênero conquistada por um asiático.

Outro sinal da americanização da China é o sucesso de musicais da Broadway, que arrastam legiões de fãs a cada apresentação em Pequim, Xangai e capitais do interior do país. Espetáculos como Cats, O fantasma da ópera e O rei leão começaram a ser apresentados em solo chinês a partir de 2003 e, nos anos seguintes, conquistaram um público expressivo. O sucesso é tanto que um grupo empresarial anunciou no início de 2009 a construção da Broadway de Pequim, que terá 32 teatros e receberá investimentos de US$ 686 milhões. O complexo deverá estar concluído até 2014 e os empreendedores esperam que ele receba cem musicais por ano.

Vistos como diabólicas criações do imperialismo ianque há três décadas, Mickey Mouse e Pato Donald são mais do que bem-vindos na China de hoje. A Walt Disney e o governo de Xangai fecharam um acordo para a construção da primeira Disneylândia do país, que deverá estar pronta em 2014 e consumirá investimentos de US$ 3,6 bilhões. O empreendimento ocupará uma área de dez quilômetros quadrados e será oito vezes maior que o parque inaugurado pela Disney em Hong Kong em 2005 e criticado pelos turistas da China continental por ser pequeno demais.

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