Complexidade da Crise Mundial

Alpinistas

Um sistema complexo como é a economia mundial possui, no Brasil, alguns componentes ou elos da crise sistêmica. No ano passado, a volta da cartilha neoliberal “para garantir a solvabilidade do Tesouro Nacional” — leia-se: o pagamento dos juros aos rentistas — com  brutal ajuste fiscal implementado em conjunto com a política de overdose dos juros, agravou muito as consequências da explosão da bolha de commodities em setembro de 2011, cujas cotações continuaram em queda. A economia brasileira perdeu o grande ímpeto desse “motor de crescimento”: exportação de commodities agrícolas, minerais e petróleo.

No post https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2016/03/24/porque-parou-parou-por-que/  está outra causa da depressão bastante visível: a Operação Lava-Jato, no afã de fazer perseguição político-partidária em vez de investigar a corrupção do cartel em licitações de obras públicas, está causando um enorme ônus à economia brasileira. Simplesmente, não se contentou em prender toda a alta administração das maiores empreiteiras de obras públicas, mas atacou e imobilizou as próprias empresas responsáveis pela maior parte dos investimentos em obras de infraestrutura. Está dando um golpe duro também na economia…

Patricia Stefani e Samuel Kinoshita (Valor, 16/03/16) deram dica de três estudos publicados recentemente explicitam a complexidade e a periculosidade do quadro externo atual.

primeiro deles é um trabalho do FMI — Credit Expansion in EM: Propeller of Growth?, FMI working paper 15/212 https://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2015/wp15212.pdf — que nos ensina as principais características do rápido crescimento do crédito ocorrido no países emergentes nos últimos anos, bem como fornece estimativas de seu impacto sobre o crescimento, com direito a um estudo de caso para o Brasil. A conclusão é que a forte evolução do crédito teve impacto significativo sobre o crescimento no período analisado.

Crescimento do crédito 2003-12 Modalidades de Crédito 2010-12 Crédito no Brasil 1996-2012

O segundo trabalho — Credit, Commodities and Currencies, BIS, fev/2016 2016.2.05-Jaime-Caruana-Transcript-updated –, um pormenorizado discurso do diretor-geral do BIS na London School of Economics, tem o mérito de organizar os estudos da casa, oferecendo uma leitura abrangente do quadro internacional. Segundo esta narrativa,estão intrinsicamente relacionadas ao processo de desalavancagem das economias emergentes:

  1. a queda e frustração com o crescimento econômico,
  2. as variações substanciais nas taxas de câmbio (especialmente dos emergentes contra o dólar americano) e
  3. a queda dos preços das commodities.

Os dados de crédito como proporção do PIB deixam claro o crescimento do endividamento privado nos mercados emergentes no período pós-crise, principalmente por parte das empresas não financeiras. O nível médio do crédito privado nos emergentes passou de 75% em 2009 para cerca de 130% do PIB. Os riscos ressaltados pela instituição concentram-se, principalmente, no alto endividamento de empresas do setor de bens não transacionáveis que, portanto, têm a maior parte de suas receitas concentradas em moeda local, e no segmento mais endividado, que se presume ser de crédito de pior qualidade.

Em um período de dólar forte, como o que vivenciamos hoje, essas firmas, que contraíram dívidas na moeda americana, passam a optar pela desalavancagem, amortizando empréstimos. Em outras palavras, as firmas tomam decisões individuais que acabam apertando as condições financeiras locais e diminuindo o crescimento.

Taxa de câmbio X CDS

O terceiro trabalho — Fiscal Costs of Contingent Liabilities: A New Dataset, IMF working paper 16/14  Fiscal Costs of Contingent Liabilities- A New Dataset – IMF working paper 16/14 –, publicado em janeiro deste ano pelo FMI, trata do custo fiscal potencial associado aos chamados passivos contingentes. A materialização desses episódios, cujo custo médio na amostra reunida pelo estudo é de 6% do PIB, está relacionada à ocorrência de eventos que exigem aportes de recursos por parte do governo central, e engloba o socorro a entidades subnacionais, a fundos de pensão, capitalização de empresas estatais com problemas de endividamento insustentável, dentre outros.

São episódios que tendem a ocorrer subsequentemente a períodos de alto crescimento, sendo provocados pela queda profunda do crescimento econômico por dois anos, até começar a reverter à tendência. Estão associados a:

  1. uma piora do déficit nominal (queda, em média, de 2 pontos percentuais do PIB) e
  2. o aumento da dívida pública (em média de 15 pp do PIB).

Passivos Fiscais Passivos Contingentes Casos Nacionais de Passivos Contingentes

Os seis passivos contingentes ocorreram no Brasil entre 1990-2002:

Casos no Brasil de Passivos Contingentes Casos brasileiros Em suma, a conjuntura internacional é verdadeiramente complexa e incerta. O processo de desalavancagem dos países emergentes, ao reverter as condições financeiras locais, diminuiu o ritmo de crescimento com respeito à fase anterior. No limite, pode até mesmo culminar em um processo não organizado, uma crise de crédito, na qual os governos precisem incorrer em substanciais e inesperados custos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s