Memória Imobiliária Dizimada

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Cláudia Trevisan, em seu livro “Os chineses” (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2013), afirma que “a fúria transformadora na qual a China está mergulhada avança muitas vezes com o sacrifício do patrimônio histórico e de milhares de famílias que perdem suas casas ou terras e recebem indenizações insuficientes para comprar outra propriedade.

A apropriação de áreas rurais para projetos urbanos e industriais é uma das principais fontes de descontentamento no campo, onde inúmeros protestos ocorrem a cada ano.

Em Pequim, milhares de pessoas foram obrigadas a sair das casas onde suas famílias viveram durante décadas ou séculos, para dar lugar a novos arranha-céus e largas avenidas. Quarteirões inteiros carregados de história são destruídos em questão de dias e muitas das construções antigas da cidade deixaram de existir.

Pequim era a mais bem preservada capital imperial do mundo quando sua transformação começou, em 1949, ano em que os comunistas venceram a guerra civil e Mao Tsé-tung decidiu derrubar as muralhas que ainda cercavam toda a cidade. Mesmo com a disposição de Mao de acabar com os vestígios “feudais” de Pequim, grande parte das tradicionais áreas residenciais que ficavam no coração da cidade sobreviveu até o fim do século XX, quando passaram a ser demolidas para dar espaço a novos edifícios. Construídas ao longo de setecentos anos de história, elas são formadas por fileiras de casas com pátios internos, com estreitas ruas, que são chamadas de hutongs.

Até o fim do Império, em 1911, os hutongs localizados a leste e a oeste da Cidade Proibida eram habitados pelos funcionários públicos de alto escalão, que formavam a elite do país. Cada família ocupava uma das casas de quatro lados (siheyuan) em torno de um pátio interno. No mais proeminente vivia o patriarca e, nos outros lados, seus filhos e respectivas famílias.

Na parte ao sul da Cidade Proibida, fora das muralhas, ficava outro grupo de hutongs, mais desalinhados e com casas menores, onde se hospedavam os viajantes que passavam pela capital. Chamada de Qianmen, a região abrigava tavernas, pousadas, prostíbulos e os artistas que apresentavam espetáculos da Ópera de Pequim e malabarismo para os que estavam de passagem.

Com o período de caos vivido depois de 1911, os habitantes dos hutongs empobreceram e o espaço onde viviam foi dividido por um número cada vez maior de famílias, tendência que se intensificou depois da Revolução Comunista.

Hoje, grande parte deles está degradada e pais e filhos dividem casas com apenas dois cômodos que não passam de vinte metros quadrados. A cozinha fica em um corredor estreito compartilhado por várias famílias e o banheiro é comunitário. Apesar disso, muitos dos moradores só abandonam os hutongs sob força policial. Em setembro de 2003, um homem chamado Wang Baoguang morreu depois de atear fogo a seu próprio corpo em protesto contra a destruição de sua antiga casa. Outro, Ye Guoqiang, tentou suicídio ao se atirar de uma ponte, pelo mesmo motivo.

Os hutongs não são apenas construções antigas e únicas: eles representam uma forma de vida, marcada pela íntima convivência entre seus moradores. Caminhar pelos hutongs de Pequim é ser transportado a um tempo que está ruindo sob os guindastes das grandes construtoras. As ruas estreitas estão sempre cheias de pessoas que conversam, jogam baralho ou xadrez, comem ou cozinham na calçada, vão aos pequenos mercados da vizinhança ou simplesmente passeiam de pijamas no fim da tarde. O ritmo da vida nos hutongs é muito mais lento que o do restante da cidade, sensação reforçada pelo fato de que o tráfego de carros é quase inexistente.

A escolha da capital chinesa como sede da Olimpíada de 2008, anunciada em 2001, colocou a cidade antiga de Pequim na mira dos grandes empreendedores imobiliários.

No Congresso Nacional do Povo de 2004, os líderes comunistas aprovaram um megaprojeto de remodelação urbana, considerado o maior realizado em uma cidade já existente. O objetivo era transformar a antiga capital imperial em uma megalópole do século XXI, comparável a Nova York e Londres, com investimentos de no mínimo US$ 40 bilhões. Na época da aprovação do plano, especialistas independentes avaliaram que seriam necessários US$ 100 bilhões para implementação da proposta.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) estimou em 2005 que dois terços dos 62 quilômetros quadrados de hutongs que existiam no coração de Pequim haviam sido destruídos nos vinte anos anteriores. Com eles, milhares de casas com pátio interno que durante séculos abrigaram várias gerações da mesma família. Também se foram muitos dos mil templos que existiam na região. Cerca de 1,5 milhão de pessoas tiveram que deixar suas casas entre 2000 e 2007, segundo estimativa do Centre on Housing Rights and Evictions, entidade com sede em Genebra. “Em Pequim, e na China em geral, o processo de demolição e desocupação é caracterizado pela arbitrariedade e pela ausência de um procedimento legal adequado”, afirma a entidade.

Nos anos seguintes ao da aprovação do plano de remodelação, Pequim embarcou em uma transformação de escala e velocidade inéditas, na qual edifícios e quarteirões são destruídos em questão de semanas, enquanto outras construções surgem em um período contado em meses. Moradores da cidade são constantemente surpreendidos com novas avenidas e canteiros de obras e muitos dizem não reconhecer regiões que deixaram de ver por períodos não maiores que um ano. Quem esteve em Pequim no início da década e voltou quatro anos depois ficou assombrado com a extensão da mudança, que continua a ocorrer. O projeto aprovado em 2004 prevê que a transformação deve estar concluída até 2020.

Cláudia Trevisan, autora do livro “Os chineses” (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2013), morou na capital chinesa entre março de 2004 e março de 2005, em uma nova região chamada Central Business District (CBD), que está sendo completamente remodelada. No período de um ano, viu surgir do outro lado da rua um enorme condomínio com sete edifícios residenciais, que estavam quase prontos na época do seu retorno ao Brasil. Quando voltou a morar em Pequim três anos depois, a região havia mudado novamente e contava com um shopping center de luxo, três torres comerciais, dois hotéis cinco-estrelas, outros condomínios residenciais e novos prédios em construção no lugar dos antigos.

A metamorfose urbana ocorre de maneira tão veloz que a prefeitura de Pequim tem que atualizar o mapa da cidade a cada três meses.

As autoridades da capital estabeleceram em 2002 um plano de conservação de 25 áreas históricas, mas houve pouco empenho na preservação dos hutongs, vistos por muitos dos tecnocratas comunistas como símbolo do passado que eles querem deixar para trás, da tradição imperial à pobreza que marcou a maior parte do século XX. Com a aproximação da Olimpíada e o aumento do número de turistas estrangeiros, os burocratas perceberam que os hutongs são uma das principais atrações locais, tendo em vista sua carga histórica e vestígios que carregam da China antiga. Os que sobreviveram passaram por uma feroz restauração e cada vez mais são endereço de restaurantes, bares e lojas moderninhos, que com o tempo tendem a expulsar os moradores locais com a inflação de preços que provocam e a descaracterização de seu estilo de vida.

A Olimpíada já passou, mas Pequim continua mergulhada em inúmeras construções grandiosas, com as quais se transforma em uma metrópole de ar ocidental. As obras são levantadas em tempo recorde por um exército de operários que recebem menos de US$ 200 por mês e trabalham de domingo a domingo.

Na corrida para se transformar em uma cidade internacional e assombrar o mundo durante a Olimpíada, Pequim também construiu edifícios emblemáticos, cuja grandiosidade, ousadia e modernidade refletem a imagem que a potência ascendente quer ter. Todos os projetos foram concebidos por arquitetos estrangeiros consagrados, escolhidos em concursos internacionais badaladíssimos.

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