Os Japoneses

Os Japoneses

Célia Sakurai é a autora do livro Os Japoneses (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2014), ganhador de Prêmio Jabuti.

Em sua apresentação, o editor comenta que “é grande a tentação de ficar nos estereótipos quando se trata de japoneses. São disciplinados e limpos para uns, silenciosos e desconfiados para outros. Os amantes de lutas marciais lembram dos xoguns e dos samurais, os executivos se recordam do modo japonês de administrar. As mulheres seriam gueixas submissas ou, antes, mulheres modernas que desejam maridos com salário e estatura elevados, de preferência muito ocupados para lhes propiciar mais liberdade?”

De algum tempo para cá, os japoneses passaram a nos dar uma impressão de grande familiaridade. Em alguns estados brasileiros a presença de seus descendentes é bastante expressiva, principalmente em algumas atividades. Todos temos eletroeletrônicos japoneses em casa, muitos possuem carros japoneses nas garagens, alguns possuem niseis e sanseis em suas famílias. A comida japonesa perdeu há muito o status de exotismo (há mais restaurantes japoneses em São Paulo do que churrascarias) e é motivo de orgulho de gastrônomos saber o nome dos peixes em japonês.

Contudo, a familiaridade não tem sido suficiente para destruir os estereótipos. O objetivo deste livro é exatamente o de mostrar quem são os japoneses, a partir de um olhar sobre a sua história, assim como das práticas culturais que desenvolveram ao longo de séculos. Caminha dos mitos de origem, que ainda povoam o imaginário japonês, até o momento em que a Toyota superou as montadoras americanas e se tornou a maior fabricante de automóveis do mundo, espiando temerosa as concorrentes vizinhas da Coréia e da China. Mostra como os japoneses respeitam e cultuam a natureza em seu país e como podem ser predadores no exterior.

Nele podemos ler como se formou o feudalismo japonês, com a criação das milícias em que o samurai começa a se tornar importante. Apresenta como aparece o xogum, entre 1185 e 1333, formalmente submisso ao imperador, mas muitas vezes mais poderoso do que este. Entende-se a base histórica do espírito de grupo japonês, criada durante a consolidação das comunidades, período em que o coletivo importava mais do que os indivíduos. Passa pela Restauração Meiji, o período de ocidentalização acelerada do país, quando se liquida o último samurai e se estabelecem as bases de um país moderno, sem prejuízo de sua cultura milenar e de seus valores. “Educação pode conviver com tradição”, diziam e provaram os japoneses no primeiro exercício de “antropofagia” (ingestão e deglutição) que se repetiria depois no pós-guerra.

O final do século XIX encontra um Japão nacionalista. Confinados numa ilha superpovoada e com poucos recursos naturais, os japoneses inflam sua autoimagem e começam sua fase de expansão atrás de espaços que consideravam vitais. A humilhante derrota final, depois de festejadas vitórias iniciais, iria abalar profundamente a crença dos japoneses na propalada divindade do imperador e predispor o povo a um período de desarmamento e paz. As bombas atômicas, despejadas em duas de suas cidades, ajudaram a convencer os relutantes.

O pós-guerra é um período difícil. Sobreviver era necessário e para isso foi preciso recorrer à proverbial capacidade de organização do povo. Alguns fatores ajudaram os japoneses, como a Guerra Fria (que rapidamente transformou ex-aliados em inimigos e ex-inimigos em aliados), assim como as guerras da Coréia e do Vietnã. Embora seja impossível adivinhar o que teria acontecido caso os americanos não tivessem esquecido rapidamente todo o ódio que desenvolveram pelos japoneses durante a guerra, é inegável que os sacrifícios, o desprendimento pessoal e a enorme capacidade de absorver a tecnologia e adaptá-la às necessidades da sociedade e do mercado foram os fatores que propiciaram as bases do “milagre japonês”. Em poucos anos os sinais da guerra desapareceram, grandes metrópoles foram reconstruídas e um novo Japão começou a mostrar a sua cara.

Mas não só de Hondas e Toyotas se fez o Japão. Ao lado de produtos e mercadorias, os japoneses exportaram seus mitos, seus samurais, seus monstros. Não há criança que não conheça os Power Rangers da vida, os assustadores e divertidos Godzillas, os Pokémons. De receptores culturais, os japoneses, agora ricos e poderosos, tornaram-se exportadores de bens culturais num universo globalizado e pop.

Não falta neste livro um capítulo especial sobre os japoneses fora do Japão, particularmente no Brasil, a maior colônia do mundo. Afinal, Célia Sakurai, historiadora e antropóloga brasileira, a quem a Editora Contexto encomendou esta obra, é, ela mesma, de origem japonesa.

Destacaremos, em uma série de posts, dois momentos de decisões cruciais que alterariam o rumo do país de maneira irreversível: o primeiro é o rumo à modernização da Era Meiji (1868-1912) e o segundo é o pós-guerra, quando o Made in Japan dos anos 1950 ao século XXI levou a economia japonesa se tornar a com o segundo maior PIB no mundo, só recentemente ultrapassado pelo PIB pelo Paridade do Poder de Compra da China.

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