Era Meiji (1868-1912) no Japão: Reformas Econômicas

Período Meiji

Célia Sakurai, autora do livro Os Japoneses (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2014), apresenta a Restauração Meiji como a restituição do poder ao Imperador após o xogunato Tokugawa (1603-1867) e o auto isolamento do país com a opção voluntária de fechamento ao contato com o exterior. Ela se pauta por reforma internas, cujo objetivo é adaptar o Japão às exigência do mundo na época, o que implicava em buscar participar com alguma força no circuito capitalista. A meta era criar uma sociedade com condições de inserção e competitividade no mercado mundial, adaptando-se ao padrão tecnológico ocidental. Em outras palavras, tratava-se de ocidentalizar o Japão e sua economia, aprendendo com os estrangeiros.

Para tirar o atraso histórico, técnicos japoneses foram enviados ao exterior para aprender com os europeus e norte-americanos. Isto implicou no desenvolvimento de um governo que encorajou a modernização diretamente através da construção da integração política, adotando o nacionalismo e disseminando benefícios sociais, principalmente educacionais, para a maior parte da população. Até certo ponto, limitou também os privilégios da antiga casta aristocrática dominante, composta pelos xoguns e seus samurais. Em aparente paradoxo, resgatou o Poder Imperial do Estado para abrir caminho à sociedade industrial com economia de mercado.

O objetivo principal não era, de fato, “ocidentalizar”, no sentido de aceitar 100% dos valores dos Estados e da culturas ocidentais, mas sim tornar viável o Japão de valores tradicionais, adotando determinadas inovações. A Restauração Meiji foi mais uma adaptação que uma revolução.

As medidas econômicas estavam basicamente ligadas à centralização da economia em torno de um Estado intervencionista, sob liderança da casta dos sábios-tecnocratas. No entanto, esta favorecia os interesses da casta dos comerciantes. O governo, em ritmo acelerado:

  1. apoiou a iniciativa privada,
  2. ampliou a rede de transportes (estradas de ferro e transporte a vapor) e comunicações (telégrafos em 1869, correio postal em 1871, primeiro jornal em 1870, regulamentação da imprensa e opinião pública em 1875),
  3. instituiu o monopólio em setores básicos da economia, e
  4. consolidou um sistema bancário (Banco Nacional em 1873, Banco do Japão em 1882, 204 bancos privados em 1883, padrão-ouro em 1871, Bolsa de Valores de Tóquio em 1878).

O governo instituiu Ministérios, estabelecendo regras com relação ao funcionamento interno do país. Os postos do novo Estado foram preenchidos por representantes dos feudos das províncias que haviam liderado a Restauração.

No setor fundiário, realizou-se uma reforma agrária, quebrando a antiga estrutura fundiária e permitindo-se o arrendamento e a venda de terras. Houve a abolição das instituições feudais e a conversão dos feudos em prefeituras administradas por funcionários nomeados pelo governo central. A Reforma dos Impostos Territoriais, em 1873, permitiu que os tributos agrários cobrissem os subsídios estatais à indústria emergente.

O desenvolvimento precoce da indústria manufatureira têxtil no Japão permitiu que, embora tenha ocorrido um encolhimento do ramo de fiação, a tecelagem com o uso de fio importado tornasse competitiva diante do tecido estrangeiro. Os japoneses também se dedicaram a desenvolver o ramo de processamento de alimentos e bebidas em meados do século XIX.

Paralelamente à produção de bens de consumo não-duráveis, o Japão passou a desenvolver setores da indústria pesada com a elaboração de maquinário e motores, para a construção de ferrovias e trens, portos e estaleiros, centrais elétricas. Buscou-se a tecnologia de ponta ocidental. Ao aprender com estrangeiros, os japoneses procuravam adaptar e melhorar técnicas e equipamentos para, em seguida, fabricar suas próprias máquinas.

A economia, depois da longa era anterior de fechamento, abriu-se para o comércio exterior, disputando mercados. O Japão, que ocupava uma posição inferior à da China e Índia, concentrou capital e incentivou por meio de subsídios as indústrias em desenvolvimento, explorando o dumping para expandir a produção de tecidos, tomando a liderança mundial da China.

A ideologia desenvolvimentista incentivava investimentos industriais e viagens de estudo e pesquisa, apelando para trabalhadores e empresários dedicarem-se à causa nacional. Isto mesmo em situação de trabalho árduo, baixos salários, abusos e maus-tratos. A pressão para trabalhar era não só para não se prejudicar ou a sua família, mas também levando em conta a Nação. Foram assim fatores determinantes do desenvolvimento industrial relativamente rápido do Japão:

  1. o patriotismo,
  2. a qualificação dos trabalhadores, e
  3. a disciplina do trabalho de equipe supervisionado.

O governo associou-se a empresas como a Mitsui e a Misubishi, criadas por ex-samurai da casta dos guerreiros, fazendo negócios com o Estado. Com a parceria muito bem recompensada por seu “patriotismo”, elas cresceram, tornando-se conglomerados ainda na Era Meiji. Surgiram mais três conglomerados (zaibatsu): Yasuda, Sumitomo e Dai Ichi. Liderados por membros da casta dos aristocratas, exploraram atividades apoiadas pelo governo: bancos, mineração, navegação para fins militares e comerciais, indústrias têxteis.

Em 1882, houve privatização, isto é, a venda de empresas que estavam sob tutela estatal para grupos privados, por exemplo, os estaleiros da Nagasaki para a Mitsubishi, a tecelagem de seda para a Mitsui, cimento para o Furukawa, minas para Asano e Kuhara. Para ser um país rico, justiçava-se, o governo deve amparar as indústrias estratégicas necessárias até obter condições de entregá-las ao setor privado, para o Estado se dedicar somente a criar e manter:

  1. um exército forte,
  2. uma polícia eficiente e
  3. uma educação que contemple a todos.

Essas grandes empresas privatizadas fortaleceram os zaibatsu para a expansão territorial do Estado japonês na Ásia.

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