Era Meiji (1868-1912) no Japão: Reformas Sociais

Período Meiji - Artelino

Célia Sakurai, autora do livro Os Japoneses (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2014), afirma que, como fez com a economia, o governo japonês foi impondo regras à sociedade a partir de decretos. As Reformas do Período Meiji regulamentaram a vida social de maneira compulsória, através de leis e decretos de cima para baixo. As regras de funcionamento da sociedade passaram a ser uma questão de Estado.

Romperam a rígida estrutura social do passado. Todos habitantes passaram a ser considerados cidadãos com direitos e deveres. O alargamento dos direitos da cidadania à população foi considerado imprescindível para a instauração da modernidade ocidental no extremo-oriente.

Por exemplo, a partir de 1870, cada família passou a ter um sobrenome próprio. Antes, o nome da família do senhor feudal e o lugar do nascimento é que identificavam os indivíduos.

Os samurais, em 1876, foram obrigados a suprimir todos os sinais externos de seu antigo status: espadas e o penteado. A partir de então, a igualdade era a promessa, sem os privilégios concedidos antes aos samurais, que viviam de renda e/ou koku de arroz, quando seu status era logo abaixo dos senhores de terra. Viviam à espera de qualquer requisição de seus serviços de casta dos guerreiros, mas durante todo o xogunato Tokugawa (1603-1867), eles nunca tiveram que se expor em grandes lutas…

As Forças Armadas tinham grande prestígio e poder na nova ordem. Desde o início, eram independentes do governo civil, inclusive com orçamento militar autônomo, o que foi fatal para um futuro Estado belicoso liderado pela casta dos guerreiros. Em um “governo duplo”, o comandante supremo delas era o Imperador. O Exército e a Marinha serviram também para fomentar a identidade nacional. O serviço militar tornou-se obrigatório e universal (não só para membros da casta dos guerreiros e aristocratas), uniformizando e disciplinando os cidadãos masculinos.

Em 1872, foi decretada a educação compulsória. Assim como as Forças Armadas, a educação deveria receber prioridade na construção do novo modelo de país. Foi concebida como uma missão nacional. As autoridades argumentavam que a riqueza e o poder do país como um todo seriam prejudicados se as pessoas comuns fossem iletradas.

No início, muitas famílias pobres se revoltaram contra a necessidade de escolarização dos filhos, porque não poderiam mais contar com a contribuição das crianças no orçamento familiar. Porém, acabou vencendo o argumento do sacrifício necessário pela pátria.

As escolas serviram, igualmente, à promoção da disciplina, da obediência, da adaptação a horários e da subserviência ao Imperador. Fomentaram a identidade nacional japonesa, minando provincianismos e antigas distinções sociais com a qualificação de todos os cidadãos igualmente. Ética, virtude, moralidade, poupança e patriotismo era temas obrigatoriamente conhecidos pelos estudantes. Ensinavam modos de servir à pátria.

Observando o que era feito no Ocidente, os educadores colocaram uma ênfase maior nas Ciências em detrimento da tradição como fonte de conhecimento, embora com o ensino contrabalançado pelo moralismo do tipo tradicional. Destacaram o ensino também de línguas estrangeiras modernas como o inglês.

Em uma sociedade em que a hierarquia por idade era muito valorizada, a perda de controle dos pais sobre a educação dos filhos era potencialmente revolucionária. Mas o “amor ao conhecimento” era um preceito ligado ao budismo e ao confucionismo. O empenho do governo com educação em massa proporcionou uma transformação radical com consequências importantes na economia nacional, nas relações sociais e familiares, nos modos de encarar a infância.

Em 1900, a sociedade japonesas era ainda pobre e não contava com todas as escolas primárias de que necessitava para atender adequadamente sua população em idade escolar. Os adolescentes ainda constituíam 15% da força de trabalho das fábricas. O Estado investiu no ensino secundário e universitário, com a preocupação de educar jovens homens com talento para especializações técnicas necessárias à industrialização. Para as meninas, enfatizava-se uma educação que as tornasse boas esposas e mães sábias.

Nos anos entre o início da Era Meiji (1868) até o fim da guerra em 1945, as mulheres foram incentivadas a gerar filhos pensando no progresso da Nação que se formava e, mais tarde, como contribuição às Forças Armadas. O número de filhos nesse período chegava à média de cinco por família. Os casamentos em todos os estratos sociais continuavam a não ser frutos de escolha pessoal, mas sim intermediados por alguém. Não eram “casamentos românticos” como se imaginava ser “por amor” no Ocidente.

A rotina masculina era (e ainda é) trabalhar muito tempo, chegar tarde da noite exausto com os filhos já dormindo e, no dia seguinte, repetir tudo de novo. Durante os dias úteis, o pai não faz nenhuma refeição com a família. O diálogo com a esposa se restringe basicamente a assuntos ligados aos filhos. As escolas cuidam da educação deles, dos quais os pais exigem elevada performance escolar “para honrar os antepassados que tanto sacrificaram por eles”. O ideal é que o marido ausente se mantenha empregado com salário condizente e que não solicite os favores da mulher, cuja obrigação é manter o bem-estar doméstico do marido com casa-comida-e-roupa-lavada.

Os japoneses encaram a vida de modo diferente dos ocidentais. Nada para japonês é 100%: nem a felicidade, nem a infelicidade. O casamento não significa uma totalidade, mas o preenchimento de uma parte da vida de cada um dos cônjuges. Há uma separação dos diferentes papeis que cada indivíduo exerce, um dos quais é ser parte de um casal. Talvez por isso seja baixa a taxa de divórcios no Japão se comparada a sociedades ocidentais…

One thought on “Era Meiji (1868-1912) no Japão: Reformas Sociais

  1. Esse post explica muita coisa….rsrs…e as consequências desse modelo de “trabalhar ainda mais” é refletido hoje. No Japão existem até eventos para celebrar a memória daqueles que morreram após trabalhar demais: é o chamado Karoshi.

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