Macroeconomia como Sistema Complexo

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O capítulo Economia como Objeto Complexo de autoria de Orlando Manuel da Costa Gomes, no livro Modelagem de sistemas complexos para políticas públicas (editores: Bernardo Alves Furtado, Patrícia A. M. Sakowski, Marina H. Tóvolli – Brasília : IPEA, 2015), possui um tópico com o título deste post. Vou resumi-lo.

A economia é vista por autores clássicos e neoclássicos como uma entidade governada:

  1. pela interação,
  2. pela evolução,
  3. pela aprendizagem,
  4. pela adaptação e
  5. pela dependência em face do passado.

Eles também argumentaram em favor de se estabelecerem alguns pressupostos simplificadores com o objetivo de discernir uma ordem onde apenas uma multitude descoordenada de relações era aparente.

Os autores que mais contribuíram para a teoria econômica, ao longo do século XX, nomeadamente John Maynard Keynes ou Milton Friedman, nunca se esconderam por detrás de simples modelos mecânicos para disfarçar a complexidade do sistema econômico.

Seus intérpretes simplificaram essa complexidade em modelos de análise básicos e estilizados. Então, foram ensinados em sala de aula e usados como referência para a implementação de políticas que almejavam alcançar um equilíbrio geral.

O modelo keynesiano IS-LM-BP é um bom exemplo de como uma análise detalhada sobre o funcionamento da economia agregada foi reduzida a relações simples entre política monetária, política fiscal, política cambial e controle de capital, que são úteis para uma análise de conjunto, mas onde muitas questões sobre o comportamento dos agentes que as geraram foram esquecidas.

A macroeconomia da síntese-neoclássica acabou por ficar fortemente associada ao conceito tradicional dos modelos de equilíbrio geral nos quais a heterogeneidade e a adaptabilidade dos agentes está ausente.

A macroeconomia é o resultado de múltiplas interações que são agregadas no sentido de explicar o comportamento da economia como uma única entidade, exigindo a análise de sua complexidade.

Em uma perspectiva da complexidade, os fundamentos microeconômicos relacionam-se com a identificação de diferentes grupos que se comportam de forma distinta entre eles e das interações que se estabelecem no seio de cada grupo e entre grupos.

A macroeconomia tem de ser uma ciência aplicada para a qual a observação da estrutura das relações econômicas e dos padrões de interação deve preceder a construção de um modelo de base empírica, que pode ser empregado para avaliação e implementação de políticas.

Acima de tudo, deve-se evitar incorrer numa falácia da composição:

  • na macroeconomia, o todo está longe de ser a soma das partes;
  • quando os agentes estabelecem relações econômicas, estão criando uma realidade única que vai além das caraterísticas de cada entidade individual.

Progressivamente, as simulações numéricas de modelos baseados na interação entre agentes e os modelos estilizados da Física da teoria da relatividade – e não apenas a Física da mecânica newtoniana – têm substituído, como ferramentas analíticas, os modelos macroeconômicos tradicionais nos quais os agentes são dotados de capacidades computacionais ilimitadas e onde a agregação é apenas um processo ingênuo de aumento de escala da análise.

As novas técnicas encontram-se bem apetrechadas para lidar com a heterogeneidade e a interação, permitindo destacar a crítica ao reducionismo: o comportamento do todo do sistema econômico não pode ser inferido a partir do comportamento de um único agente.

A relação entre fenômenos micro e macro não dimensionáveis é complexa, isto é, os acontecimentos macro não podem ser inferidos a partir do comportamento das unidades micro, uma vez que eles correspondem a uma ordem superior de complexidade.

A macroeconomia é uma ecologia complexa de planos, onde as unidades micro podem gerar diferentes padrões macro em resposta a diferentes processos de interação.

Falhas de coordenação podem desviar a economia de uma posição de equilíbrio, apesar de o equilíbrio poder também ser formado a partir de uma ordem espontânea.

O equilíbrio ao nível macro não é imposto pela estrutura da economia; se ele emerge, será o resultado casual de uma série de processos de interação.

A flexibilidade dos modelos de macroeconomia como um sistema complexo, baseados na interação entre agentes em introduzir dinâmicas inesperadas de desvio em face do equilíbrio sobre estruturas teóricas simples, tornou os mercados financeiros e de crédito o cenário ideal para analisar e estudar circunstâncias financeiras extremas, como os crashs de mercado, as bolhas especulativas ou as corridas aos depósitos bancários.

Na anatomia das redes de crédito e financeiras pululam múltiplas unidades em interação, possibilitando a investigação das fontes de instabilidade nos mercados financeiros e de crédito e os canais que ligam o sistema de crédito à macroeconomia, de modo a explicar as flutuações observadas, tanto em períodos de normalidade econômica como, com especial ênfase, em fases de recessão profunda.

Grande parte do esforço na macroeconomia teórica, ao longo das últimas décadas, relacionou-se com a procura dos microfundamentos do comportamento macro.

Os modelos que integram caraterísticas de complexidade são construídos sobre a observação de padrões de interação entre agentes individuais.

São também modelos equipados com a capacidade de:

  1. gerar uma visão integrada do sistema e
  2. pesquisar padrões coletivos.

É neste sentido que a macroeconomia complexa emerge e evolui à medida que as relações individuais se transformam em padrões coletivos de interação no âmbito da estrutura de análise que é erigida, e não a partir de choques exógenos inexplicáveis pelo âmbito do modelo de análise.

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