Glossário sobre Complexidade

Complexidade do Cérebro

Do Texto para Discussão 2107 (Brasília : Rio de Janeiro : Ipea; julho de 2015) Perspectivas da Complexidade para a Educação no Brasil, das pesquisadoras Patrícia Alessandra Morita Sakowski & Marina Haddad Tóvolli, ambas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, é possível extrair os conceitos-chave, ou melhor, o jargão técnico da Ciência da Complexidade quando aplicada também à Economia.

Quase como um glossário, ou seja, um dicionário de palavras de sentido obscuro ou pouco conhecido, adaptarei, esquematicamente, um conjunto de termos dessa área de conhecimento e seus significados para aplicações multidisciplinares. Analogamente, focalizarei as interações com Economia.

Sistemas complexos abrangem um grande número de agentes heterogêneos, cuja interação leva a aprendizado e cognição.

Eles são compostos de camadas interconectadas, cada uma das quais dá suporte e restringe as outras camadas.

Por meio de mecanismos de retroalimentação (feedback) e adaptação, esses sistemas e seus agentes coevoluem.

Os agentes heterogêneos de um complexo sistema econômico são, por exemplo, setor privado, setor público e setor de atividade:

  • cada agente econômico aprende de um modo diferente,
  • cada governo tem o seu método de incentivos e penalidades, e
  • cada setor de atividade possui um modo particular de produzir e lucrar.

O aprendizado surge não somente das informações e normas transmitidas pelos governos, mas também é resultado das interações entre os agentes econômicos e outros indivíduos, seja CPFs, seja CNPJs, em ambientes formais e informais.

Os sistemas econômicos são formados por camadas interconectadas:

  1. na perspectiva macro, eles englobam instituições governamentais, como os ministérios da Fazenda, do Planejamento, da Agricultura, da Indústria e Comércio, do Trabalho, da Previdência Social, e dos Transportes; entre outros, órgãos governamentais subsidiários como Banco Central, CVM, SUSEP, etc., também podem ser considerados como partes do sistema complexo, uma vez que eles influenciam a alocação dos recursos orçamentários, as condições de planejamento indicativo para as empresas e a acessibilidade aos incentivos fiscais e creditícios;
  2. em um nível menor, as empresas não podem ser separadas do contexto em que existem, pois fatores externos, como o contexto mundial ou a posição socioeconômica da comunidade onde se instalou, impactam o desempenho econômico dos consumidores e investidores;
  3. similarmente, o setor produtivo estatal influencia e é influenciado pela setor produtivo privado;
  4. no nível interpessoal, os agentes econômicos interagem com seus concorrentes, reguladores, dirigentes sindicais ou patronais, governantes e sua comunidade como um todo;
  5. enquanto no nível intrapessoal, o desempenho resulta de processos mentais influenciados por interesses pessoais, histórico pessoal, níveis de hormônio, memória operacional e outras características específicas, como resposta a estímulos do ambiente.

Os traços econômicos em uma sociedade emergem então das interações de todas essas diferentes escalas, as quais não podem ser isoladas uma das outras.

Devido à natureza complexa dos sistemas econômicos, as tradicionais metodologias lineares não são suficientes para capturar as dinâmicas desses sistemas.

A presença de múltipla causalidade e não linearidade pode até mesmo colocar em dúvida a validade externa de resultados obtidos em rigorosos experimentos aleatórios controlados. Isto porque o controle de todas as principais variáveis pode ser impossível em pesquisas econômicas.

Dada a natureza complexa da economia, as metodologias de sistemas complexos podem ajudar a analisá-la em diferentes formas:

  • Primeiramente, o simples entendimento da natureza complexa dos sistemas econômicos pode ajudar os pesquisadores a se desprenderem de uma visão mecanicista da economia, regida por causalidades simples e controles que levam a resultados previsíveis.
  • Em segundo lugar, a modelagem da economia a partir de pesquisas colaborativas pode fornecer uma melhor compreensão das dinâmicas do sistema, porque na tentativa de identificação dos principais elementos e regras de um sistema, pode-se entender, pouco a pouco, como os diferentes agentes se inter-relacionam, assim como simular os possíveis resultados de uma determinada intervenção, por exemplo.

A imensa disponibilidade de dados sobre economia também torna viável estudos de associação:

  1. técnicas de machine learning (aprendizagem automática) e análise de rede podem fornecer insights valiosos sobre tendências ou aspectos específicos a serem investigados;
  2. compreender a complexidade dos sistemas econômicos pode ser a maneira de se encontrar soluções simples, por exemplo, ao se conhecer a rede de relações compreendidas no sistema, é possível identificar os nós centrais ou pontos de alavancagem a partir dos quais poderiam ocorrer mudanças.

É importante mencionar que as metodologias de sistemas complexos não são um substituto dos métodos tradicionais de pesquisa econômica, mas sim um complemento.

O conhecimento sobre os sistemas econômicos pode surgir da combinação de:

  1. pesquisas empíricas,
  2. métodos quantitativos e qualitativos tradicionais,
  3. estudos de associação e
  4. modelagem.

Vários estudos chamam atenção para os princípios da complexidade e a necessidade de se repensar a Economia, principalmente a ressignificação das práticas tradicionais.

Há um grande foco em se questionar o modelo tradicional, baseado nas teorias ortodoxas, e em se propor um novo modelo da complexidade econômica a partir dos pressupostos epistemológicos presentes nas teorias quânticas e biológicas.

O paradigma tradicional ou newtoniano-cartesiano, que tem como pressuposto básico a fragmentação e a visão dualista do universo, teve grande influência sobre a Economia, o estudo e a prática pedagógica do professor de Economia.

A prática educacional em Economia tem sido marcada por uma visão cartesiana de dicotomia das dualidades (sujeito-objeto, parte-todo, razão-emoção, local-global), em que se rejeita a articulação desses pares binários.

Observa-se uma subdivisão do conhecimento em áreas, institutos e departamentos, em que os princípios de fragmentação, divisão, simplificação e redução são dominantes, resultando em uma prática pedagógica descontextualizada.

Os princípios de fragmentação e de simplificação foram concretizados na Economia por meio de uma estrutura disciplinar do conhecimento, a qual acabou por perder significação.

As atividades pedagógicas têm enfatizado os aspectos instrutivos, em detrimento de aspectos criativos, reflexivos, construtivos e cooperativos.

Observa-se um processo rígido de transmissão de conteúdo que:

  1. privilegia a memorização de informações isoladas; e
  2. desconsidera o contexto, o envolvimento dos agentes econômicos e suas diferenças.

Cada agente econômico é concebido como um espectador, que deve copiar, memorizar e reproduzir os conteúdos apresentados por O Mercado como Deus.

De forma geral, a maioria dos economistas tende a perceber e a interpretar o mundo a partir da Física clássica, em que a realidade é apresentada como estável, previsível e predeterminada.

Contrapondo esta visão, as Teorias Quânticas e Biológicas apresentam pressupostos epistemológicos como dialogicidade, incerteza, etc., propondo uma ressignificação das práticas econômicas.

Apresentarei em outro post, brevemente, alguns desses princípios.

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