Made in Japan dos anos 1950 ao século XXI

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Célia Sakurai, autora do livro Os Japoneses (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2014), coloca-se a questão-chave: como o Japão conseguiu criar em pouco mais de uma década toda a tecnologia que exibiu com orgulho para o resto do mundo?

Por mais paradoxal que pareça, sua condição de país derrotado na II Guerra Mundial, mas com posicionamento estratégico no contexto da Guerra Fria, teve a ver com esse sucesso. A renúncia oficial às atividades bélicas abriu caminho para que os investimentos se voltassem aos produtos para o consumidor.

Também grande parcela dos recursos do país foi investida para criar condições de apoio ao desenvolvimento das indústrias:

  1. no campo da siderurgia e de outras indústrias de base,
  2. na garantia do fornecimento de energia,
  3. no melhoramento das estruturas de transportes,
  4. nas redes de telefonia e telecomunicações.

O incentivo aos estudos já era tradição japonesa desde o início da Era Meiji. No pós-guerra, sob a bandeira da reconstrução do país, a educação adquire uma nova modalidade nacionalista, dessa vez pacífica e produtiva.

Os melhores estudantes passaram a ser premiados com vagas nas universidades e com garantias de emprego vitalício nas empresas. Em poucos anos, o número de pesquisadores japoneses colocava o país dentre os mais destacados em vários campos, principalmente aqueles voltados à tecnologia. Até hoje o Japão é um dos países que mais formam engenheiros.

O Conselho Científico do Japão, subordinado diretamente ao Primeiro Ministro, dava as diretrizes estratégicas para o planejamento. A Agência de Ciência e Tecnologia acolheu as demandas do setor privado e se responsabilizou por desenvolver a “alta ciência”: energia nuclear, atividades espaciais como satélites meteorológicos, de comunicação, oceanográficos, e tecnologia marítima.

Há certa autonomia na incorporação da tecnologia, pois os centros de pesquisa responsáveis pelas inovações feitas nos produtos fabricados, nos materiais e nos métodos de fabricação estão dentro das próprias empresas que atuam no mercado. Eles voltavam-se, exclusivamente, para desenvolver produtos com fins de exploração comercial. Importaram os conhecimentos desenvolvidos em outros países avançados e os aplicaram. Havia a tendência de dar prioridade ao prático e imediato.

A máxima de que “o Japão não cria, só copia” tinha sentido só quando houve urgência em levantar a sua economia no pós-guerra. Então, não havia tempo para a pesquisa básica, para desenvolver teorias, mas apenas para aplica-las. Depois dessa fase inicial, desenvolveu-se a preocupação em “criar” tecnologia.

As condições históricas da reconstrução do país direcionaram todos os esforços para o trabalho. A ideologia do trabalho tornou-se motivo de orgulho nacional que impulsionou os japoneses na direção do desenvolvimento industrial do país.

A autoestima e a qualidade de vida da população foi melhorando paulatinamente com os progressos na aplicação de novas tecnologias e com a sua exportação. A distribuição relativamente igualitária da renda e os investimentos na escolaridade, por sua vez, contribuíram para o sucesso econômico do país como um todo.

Para fazer do Japão “uma barreira contra o comunismo”, tanto o soviético, quanto os dos vizinhos chinês e coreano-do-norte, as forças da ocupação norte-americana, entre 1945 e 1952, minimizaram as retaliações ao derrotado e adotaram medidas que ajudaram a acelerar a reconstrução do país. Foi fundado o Banco da Reconstrução com capital para reerguer as indústrias química, pesada, siderúrgica e naval. O período da ocupação direcionou o Japão para a sobrevivência econômica e a democracia liberal.

O Estado foi conduzido de maneira a trabalhar em conjunto com a iniciativa privada. O crescimento econômico alicerçou-se em duas bases principais: a iniciativa das empresas e o planejamento indicativo governamental. Ao governo cabia planejar, determinar as metas e ajudar a iniciativa particular a operá-las.

Houve reforma no sistema bancário com a criação de um novo Banco do Japão, subordinado ao Ministério das Finanças, e o controle dos bancos comerciais que antes da guerra estavam nas mãos dos zaibatsu. O Banco do Fomento do Japão foi criado em 1951.

Foram elaborados planos específicos para setores estratégicos. No final dos anos 1950, o incremento baseou-se no fortalecimento das indústrias básicas e das novas (eletrônicas, automóveis, de precisão), que receberam no Japão o dobro de incentivos governamentais que as indústrias nos Estados Unidos e na Europa na mesma época.

No estudo do case japonês, no período 1950-1989, que alçou o Japão derrotado ao posto de segunda potência econômica mundial, ultrapassando os países de capitalismo maduro europeus, denominou-se de “milagre japonês”. Ao buscar suas causas, depararam-se com particularidades culturais do povo.

Os japoneses, educados sob determinados valores, uniram-se em torno de objetivos comuns, que determinaram ações coletivas que elevaram o orgulho nacional, desde as campanhas de austeridade dirigidas pelo governo, todos procuraram colaborar com a elevação da poupança doméstica. A casta dos sábios mostrou-se capaz de absorver informações e inovar no campo da tecnologia.

Os altos níveis de educação formal, além da disciplina e do tradicional respeito às hierarquias, também são apontados como vantagens da sociedade japonesa. Seu espírito associativo deriva-se da filosofia confucionista, para a qual “o sucesso de um é o do outro também”, e defende que a harmonia social e o consenso político e corporativo devem ser buscados a todo custo. As empresas concedem vantagens aos empregados, como emprego vitalício, melhores salários e participação nas decisões, desde que os trabalhadores respondam com lealdade e dedicação exclusiva.

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