Capital Humano e Cultural Japonês

Japonês pragmático

Para tornar possível o “milagre econômico” japonês (1945-1989), além das ações governamentais e do compromisso coletivo com a modernização, somou-se uma ética que valorizava o trabalho e um conjunto de crenças baseadas em elementos tradicionais da cultura japonesa compartilhados por praticamente toda a Nação. Nessas crenças, encontra-se a ideia de que o coletivo está acima do indivíduo. Há um forte senso de obrigação recíproca.

Célia Sakurai, autora do livro Os Japoneses (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2014), defende a tese de que o capital humano é que fez, de fato, a diferença no Japão. Argumenta que, lá, os trabalhadores desenvolveram um senso de “dever ser útil” o tempo todo. Para entregar o pedido no prazo certo, eram capazes de dormir no emprego!

Sindicatos negociavam aumentos salariais de antemão com a administração, evitando greves que seriam prejudiciais à empresa como um todo. Mesmo hoje, dificilmente funcionários mudam de empresa em busca de melhores salários ou de progressão na carreira mais rápida. Além da relação contratual, estabelecem uma ligação emocional com seu emprego; sair dele significa “deixar de pertencer”.

Os trabalhadores, recrutados logo que saem do colégio ou da universidade, têm disponibilidade para aceitar a “cultura da empresa”, dispondo para ela até a fazer sacrifício da vida pessoal e/ou familiar. Segundo o pensamento dominante, é no local de trabalho que se obtém autoestima e satisfação com o reconhecimento profissional do artífice. Este é o trabalhador, o operário ou o artesão que produz algum artefato ou que professa alguma das artes. Ele executa sua arte consoante as encomendas que recebe. É quem inventa ou cria alguma coisa, podendo assinar como autor, seja de trabalho manual, seja de trabalho intelectual.

Se o trabalhador não é alienado, interessando-se pelo produto de seu trabalho, sua empresa é vista como “uma família” e o empresário como seu “chefe natural”. É quase um “pai-patrão”…

Uma questão levantada pela autora é se com o avanço do individualismo liberal e do consumismo desenfreado das sociedades ocidentais como modelo universal, será que em um futuro próximo os japoneses terão a mesma disponibilidade de abrir mão de suas vontades pessoais em nome de apelos patrióticos pelo bem da economia nacional?

Desde a modernização Meiji, os japoneses se defrontaram com um conjunto de valores vindos do Ocidente no qual o individualismo era um dos mais difíceis de ser entendido e incorporado. Antes, em sociedade predominantemente rural, o indivíduo estava atado à família e à comunidade local. Os grupos dentro das aldeias predominaram até o problema da liberdade individual ter sido colocado pelos “bárbaros ocidentais” opositores das Monarquias Absolutistas.

A partir do período Meiji até a II Guerra Mundial, houve um esforço para abafar as tentativas de adotar o individualismo à moda ocidental, enfatizando o pertencimento dos indivíduos aos grupos como um valor e um dever. O Imperador ficava no centro de um circuito de deveres e obrigações de cunho moral e religioso.

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Qualquer manifestação que fugisse às regras era prontamente cortada. Quanto maior a fidelidade aos projetos da Nação japonesa, maior o reconhecimento e maior a satisfação pessoal.

A transgressão a essas regras era considerada uma traição à Nação e aos antepassados. Isso colocava cada indivíduo atado ao círculo familiar, à escola e ao trabalho. Em um sistema rígido de diferenciação social, quase não havia possibilidade de sair do status social adquirido no nascimento.

No processo de modernização, todos os japoneses passaram a ser considerados iguais por lei. Mudanças na maneira de cada indivíduo a se localizar socialmente foram impostas de baixo para cima e tiveram que ser colocadas em prática.

Porém, até hoje, os japoneses têm associações que nasceram no tempo das aldeias. Elas se baseiam na cooperação entre seus membros. Existe uma hierarquia que é respeitada e obedecida sem restrição. Cada membro tem uma função perante o coletivo.

O bem comum significa produzir e cumprir com as obrigações. Com a instituição de um fundo financeiro comum, os participantes recebem crédito em situações de necessidade.

Pela maneira como funciona a maioria das empresas japonesas, há uma reprodução do antigo cooperativismo na cultura empresarial. O trabalhador japonês se considera parte da empresa e, como tal, conhece o seu funcionamento, é chamado para opinar, desde o escalão inferior, e recebe bônus semestrais (PLR – Participação no Lucro e Resultado) que se adicionam ao seu salário.

Ele vê a empresa como extensão de sua família sem risco de ser demitido até a aposentadoria. Se requisitado, dispõe-se a mudar de cidade ou de país, muitas vezes deixando a família. Na happy-hour, após o trabalho, vão para bares trocar ideias que acabam sendo uma extensão da prática de dar tudo de si pelo trabalho.

Desde a época feudal até o século XX, as comunidades mantinham o seu equilíbrio assentado na obediência de cada um às normas da coletividade. Pelo não cumprimento de uma ordem, as sanções comunitárias afetavam toda a família, com o “nome sujo” dificultando arranjar casamentos para todos os membros. Nas escolas, no trabalho e até mesmo dentro de casa, os japoneses se veem diante da imposição de regras que identificam a sua inserção nos grupos.

Os estudantes japoneses usam uniformes até a entrada na faculdade. Os empregados de escritório vestem-se com ternos todos parecidos. A transgressão no mundo do século XXI não é castigada como no passado das aldeias, mas continua sendo malvista pela sociedade. Os jovens de cabelos coloridos com roupas extravagantes chamam a atenção, mas não incomodam porque não subvertem a ordem. Ao atingir uma certa idade e quando adquirem outro status dentro da sociedade, os membros desse grupo espalhafatoso se afastam e se enquadram, deixando de ter sinais chamativos para si…

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