Ciência da Complexidade Aplicada à Economia

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As pessoas tendem a desenvolver uma mentalidade determinística e centralizada, ou seja, esperam que os sistemas tenham regras determinísticas que governem seus comportamentos, e que exista um controle central na maioria dos sistemas. Contudo, a maior parte dos sistemas complexos demonstra o oposto. Assim, expor os alunos de Economia aos conceitos da complexidade pode ajudar na contraposição dessa tendência de servidão ao controle, seja por O Mercado, seja por O Estado. Superarão o conceito de equilíbrio com o entendimento de auto-organização.

Apresento a partir do Texto para Discussão 2107 (Brasília : Rio de Janeiro : Ipea; julho de 2015), Perspectivas da Complexidade para a Educação no Brasil, das pesquisadoras Patrícia Alessandra Morita Sakowski & Marina Haddad Tóvolli, alguns dos pressupostos epistemológicos das Teorias Quânticas e Biológicas como dialogicidade, incerteza, etc. É possível uma ressignificação das práticas econômicas a partir deles, abandonando o mecanicismo por perceber e a interpretar o mundo a partir da Física clássica, em que a realidade é apresentada como estável, previsível e predeterminada.

O princípio dialógico é um importante conceito da complexidade. Esse princípio refere-se à capacidade de associação entre dois termos que são antagônicos, mas ao mesmo tempo complementares. Por exemplo, ordem e desordem são antagônicos, mas podem ser em alguns momentos complementares, ao colaborarem e produzirem organização e complexidade.

Em relação ao princípio dialógico, o envolvimento dos contrários implica a valorização de uma Economia que considera o conflito de interesses entre agentes econômicos em uma sociedade antagônica, que observa o todo, as partes e suas relações, em vez de isolá-las. A partir dessa visão, o currículo fragmentado dos cursos ortodoxos de Economia cederia lugar a um currículo transdisciplinar que permitiria a comunicação e o diálogo entre os saberes, que promove a construção do todo.

Relacionada com o princípio dialógico está a ideia da complementaridade dos opostos. No contexto da Economia, a ortodoxia dá ênfase em apenas um dos atributos dos pares binários como base do ensino, por exemplo, a racionalidade, o que acaba por gerar uma visão unilateral e uma incompreensão do processo de decisões econômicas. Como resultante, os alunos de Economia não são capazes de articular as diversas dimensões comportamentais do próprio indivíduo.

Nesse contexto, a proposta da Economia da Complexidade é a articulação dos pares binários, de forma a obter uma visão mais completa dos fenômenos observados, pois “a razão sem emoção não capta a característica humana, enquanto que emoção sem razão não conduz a parte alguma”.

Outro exemplo é o binário ordem-desordem. Há uma relação simbiótica de interdependência entre ordem e desordem. Em relação à gestão econômica, argumenta-se que a ordem está representada pela legislação e pela organização, normas legais e burocráticas. Na gestão dessa organização surgem a desordem e a ambiguidade, introduzidas pelos sujeitos que dão dinamicidade ao modelo de funcionalidade e racionalidade do sistema. Seres humanos, com sua diversidade, dão suporte e funcionalidade ao gerenciamento da organização.

O comportamento das pessoas na instituição é um misto de dependência e autonomia, que é outro par binário. A ordem é desejável, mas a desordem, o espontaneísmo, a desobediência e/ou a inovação proporcionam vitalidade à instituição, embora, em excesso, levem à sua desintegração.

Essas ideias nos conduzem à importância da incerteza e da não linearidade. O princípio da complementaridade dos opostos leva à articulação das dualidades, como certeza e incerteza, negando uma visão reducionista e determinista.

O conceito de incerteza opõe-se à ideia dualista dicotomizada, que enfatiza apenas a ordem e a certeza. A Economia ortodoxa mantém um cenário de certeza ao repetir normas, valores e sanções sociais, ao seguir as regras instituídas, como as regras de avaliação de desempenho via análise de balanços contábeis, de forma que se torna previsível o comportamento dos investidores e/ou acionistas.

Estes participantes de O Mercado, muitas vezes, desconsideram as características incertas e complexas do processo de construção da riqueza, despersonalizando e homogeneizando os agentes econômicos. Ao se considerar que as características do sujeito, do conhecimento e da sociedade são dinâmicas, a articulação da certeza e da incerteza na prática econômica é fundamental.

O conceito de incerteza, ainda, vai contra a ideia de causalidade linear fundamentada na racionalidade cartesiana, ao questionar a estabilidade, a determinação e a previsibilidade dos fenômenos. O pressuposto de uma dinâmica não linear contrapõe-se às práticas econômicas oriundas da teoria ortodoxa, em que o processo de construção do conhecimento econômico é compreendido como linear e não há espaço para uma aprendizagem colaborativa e interativa.

Outro importante conceito da complexidade é a recursão – ação de recorrer, de reajustar – organizacional. Um processo recursivo é “um processo em que os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores do que os produz”. O princípio recursivo rompe com a ideia de causa e efeito, ao apresentar a concepção cíclica de que tudo o que é produzido retorna para o que (e quem) o produziu.

Essa ideia é congruente com o sistema econômico se o considerarmos como um sistema que se auto-organiza, no sentido de que o agente econômico é fruto de um determinado sistema complexo e, ao mesmo tempo, influenciador deste. Dessa forma, as relações retroativas entre o agente e o sistema fazem com que este evolua e se desenvolva.

A mesma ideia poder ser vista quando se discute sobre a construção do conhecimento econômico. Informação e conhecimento relacionam-se. Porém, estando o sentido no intérprete e não na informação, esta somente adquire significado dentro de um contexto humano. Conhecimento é, então, o processo de atribuição de significado às informações. Isso ocorria nas interações entre os sujeitos e na relação destes com o mundo.

Dessa forma, a construção de conhecimento engloba movimentos recursivos, em que:

  1. indivíduos transformam o conhecimento, e
  2. o conhecimento transforma os sujeitos que o produziram.

Relacionado com a recursão organizacional, há o princípio da autopoiese.

Autopoiese (do grego auto “próprio“, poiesis “criação“) é um termo cunhado na década de 1970 pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana para designar a capacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios. Segundo esta teoria, um ser vivo é um sistema autopoiético, caracterizado como uma rede fechada de processos de produções moleculares em que as moléculas produzidas geram com suas interações a mesma rede de moléculas que as produziu.

A conservação da autopoiese e da adaptação de um ser vivo ao seu meio são condições sistêmicas para a vida. Portanto, um sistema vivo, como sistema autônomo está constantemente se autoproduzindo, autorregulando, e sempre mantendo interações com o meio, onde este apenas desencadeia no ser vivo mudanças determinadas em sua própria estrutura, e não por um agente externo.

Esse princípio refere-se a uma unidade autônoma que se constitui como uma rede de produção de componentes, os quais participam recursivamente na mesma rede de produção. Em outras palavras, não existe uma separação entre o produtor e o produto, de forma que a organização autopoiética é em si o produto de suas operações.

Todo o conhecer e o aprender dos agentes econômicos implicam processos autopoiéticos, dado que o conhecimento e a aprendizagem são processos interpretativos e recursivos, gerados pelo sujeito quando este interage com o ambiente. Há impossibilidade de se predizer o que acontece com o agente econômico apenas pela observação do ambiente em que ele está inserido, uma vez que o ambiente não determina, mas pode apenas desencadear mudanças nas estruturas cognitivo-emocionais do agente. Isso significa que a dinâmica de um governo pode funcionar bem com um determinado grupo de agentes econômicos, mas não com outro grupo.

Para a prática econômica isso implica a adoção de uma metodologia que estimule os próprios agentes econômicos a produzirem o seu conhecimento. O Estado teria o papel de facilitar diálogos entre os planificadores, os legisladores e os agentes, respeitando a diversidade de cada um, dado que cada agente tem seu próprio estilo de aprendizagem de sua atividade e sua própria forma de solucionar problemas.

Ao considerar que o ambiente influencia o indivíduo, enfatiza-se que o conhecimento deve ser encarado como resultante do enredamento de aspectos físico, biológico e social. Isso implica a necessidade de ressignificar o próprio conceito de percepção.

O último princípio apresentado por Patrícia Alessandra Morita Sakowski & Marina Haddad Tóvolli é o princípio hologramático. Este princípio refere-se à ideia de que a parte constitui o todo, e o todo constitui a parte.

Usa-se a ideia do holograma físico – fotografia que produz uma imagem tridimensional e que contém informação sobre a intensidade e a fase da radiação refletida, transmitida ou difratada pelo objeto fotografado – para argumentar que o menor ponto da imagem do holograma contém quase toda a informação do objeto representado.

Essa ideia vai contra a atual estrutura disciplinar de áreas de conhecimento, para formar apenas especialistas, que “sabem quase tudo sobre quase nada”, e não cultos generalistas. Ela está baseada nas orientações cartesianas, em que se acredita que a soma das partes listadas nas grades curriculares dos cursos ortodoxos de Economia equivale ao todo do conhecimento econômico. Essa estrutura disciplinar impossibilita o aluno de Economia de estabelecer relações entre os conhecimentos obtidos não só das disciplinas do curso, mas também de outras áreas de conhecimento.

Ao considerar que a compreensão das partes depende de suas inter-relações com a dinâmica do todo, argumenta-se que, para explicar fenômenos isolados, a contextualização é fundamental. Há uma necessidade de:

  1. se inverter o foco do binário parte-todo e
  2. interligar a totalidade fragmentada.

Uma forma de superar a atual estrutura disciplinar e fragmentária do ensino de Economia, e de articular os contrários, é a transdisciplinaridade. Ao apontar que o que parece contraditório em um nível de realidade pode não o ser em outro nível de realidade, a transdisciplinaridade desvela que não existe uma verdade absoluta, mas sim verdades relativas, sujeitas a constantes mudanças. Dessa forma, a transdisciplinaridade oferece uma compreensão maior da realidade social, que assume um significado mais amplo.

A partir da visão transdisciplinar, o conhecimento é visto como uma rede de conexões. O conhecimento é multidimensional, devido aos diferentes níveis de realidade no processo cognitivo.

Ao seguir a prática pedagógica tradicional, os professores de Economia tendem a ignorar o princípio hologramático e a não articular os diversos saberes para a construção de um conhecimento multidimensional. Dada a complexidade dos fenômenos, para se conhecer um objeto em toda a sua dimensão, são necessários conhecimentos e observadores transdisciplinares.

A transdisciplinaridade maximiza a aprendizagem ao trabalhar com imagens e conceitos que mobilizam, conjuntamente, as dimensões mentais, emocionais e corporais, tecendo relações tanto horizontais como verticais do conhecimento. Ela cria situações de maior envolvimento dos alunos de Economia na construção de significados para si.

Por isso mesmo que ministro, desde 2013, o curso Economia no Cinema e iniciei, no ano passado, Economia Interdisciplinar.

Economia no Cinema 2016

Economia no Cinema 2015

Economia no Cinema 2014

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