Analfabetismo Funcional X Educação Financeira

Educação e Orçamento Doméstico

Há mais de 15 anos, organizei um Curso de Extensão em Economia Financeira na UNICAMP. Depois de minha licença (5 anos) para cuidar de Finanças e Mercado de Capitais na Caixa Econômica Federal, retornei com uma visão de Economia Aplicada a respeito das necessidades mais práticas dos alunos já formados em curso superior. Eles buscam aprender e entender tanto o jargão econômico quanto as melhores práticas em decisões financeiras, sejam corporativas, sejam pessoais.

Parto da hipótese de que se todos os estudantes, desde a Educação Fundamental, tivessem acesso à Educação Financeira, suas famílias sofreriam menos danos em sua qualidade de vida, devido à má administração do orçamento doméstico. O acesso à cidadania financeira é um direito e o conhecimento de Finanças Pessoais é um dever por parte de todos!

Camilla Veras Mota (Valor, 28/03/16) informa que o aumento do desemprego, a inflação em nível ainda elevado e os demais desdobramentos da recessão não são os únicos elementos que pesam sobre a renda das famílias. Pesquisa conduzida recentemente pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela Ação Educativa mostra que quase um terço dos tomadores de decisões financeiras nos domicílios brasileiros são analfabetos funcionais – e, assim, mais vulneráveis a situações de inadimplência ou de descontrole do endividamento.

“O mundo das decisões financeiras é complexo. É preciso entender sobre o custo dos juros, para não se comprometer com crédito além do que você pode”, pondera a diretora-executiva do IPM, Ana Lúcia Lima.

Entre os achados do levantamento, ela destaca que a escolaridade tende a crescer entre os membros mais jovens da família – um reflexo do esforço recente de ampliação de acesso ao ensino básico e do aumento da média de anos de estudo da população. No grupo dos entrevistados entre 15 e 24 anos, 17% eram analfabetos funcionais, proporção que sobe para 19% na faixa de 25 a 39 anos, para 26% entre 35 e 49 anos e chega a 49% entre aqueles na faixa etária de 50 a 64 anos.

O preocupante é que, na maioria dos casos observados, a responsabilidade pelas decisões financeiras no âmbito familiar se concentra justamente nas mãos dos adultos mais velhos, um grupo que tem menores níveis de alfabetismo. Foram entrevistadas 2.002 pessoas, residentes em zonas urbanas e rurais das cinco regiões.

Os percentuais foram calculados com base no Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), criado pelo próprio IPM. A escala conta com cinco níveis:

  1. analfabeto,
  2. rudimentar,
  3. elementar,
  4. intermediário e
  5. proficiente.

Integrantes dos dois primeiros são considerados analfabetos funcionais.

Além da idade, o rendimento familiar tem uma associação importante com os níveis de alfabetismo. Mais da metade dos que declararam que o orçamento domiciliar chega a um salário mínimo são analfabetos funcionais, fatia que cai para 13% dentre aqueles que têm renda superior a cinco salários mínimos, grupo no qual 87% estão entre os funcionalmente alfabetizados.

Esse cenário se torna ainda mais desafiante em um contexto de crise. A responsabilidade sobre a educação financeira da população não deveria recair apenas sobre as escolas. Iniciativas como a formulação de normas que favoreçam a edição de textos de mais fácil entendimento pelos prestadores de serviços financeiros ou o estímulo à criação de espaços que fortaleçam a educação financeira também contribuiriam para evitar decisões mal tomadas, que conduzam as famílias a um eventual desequilíbrio orçamentário.

Isso seria interessante no mundo do trabalho, por exemplo, com vantagens para a própria empresa. Por que as empresas não oferecem aulas de Educação Financeira aos funcionários? Eles aproveitarão as lições tanto na vida pessoal quanto no escritório. Eles acabarão aprendendo a negociar melhor com bancos e com fornecedores.

 casos de colaboradores que dominam os processos de gestão de compra, pedem desconto aos fornecedores e negociam prazo, mas que acabam se atrapalhando nas Finanças Pessoais. Assim, cada dirigente deve manter de forma permanente um grupo de Whatsapp com os gestores de diferentes departamentos e realizar, uma vez ao mês, uma “reunião de filosofia estratégica” com a equipe.

Fora do âmbito das Finanças Domésticas, chama atenção no estudo do IPM e da Ação Educativa o número expressivo de entrevistados com ensino superior completo nos cortes mais baixos da escala de alfabetismo — apenas 22% dos participantes atingiram níveis de proficiência. O país conseguiu avançar na inclusão social, o desafio agora é dar um salto na qualidade. Não por acaso, a proporção de analfabetos funcionais no país está há três anos estacionada em 27%. Em 2001, quando começa a série do Inaf, o percentual era de 39%.

A proporção ainda relevante de pessoas nos estágios mais iniciais de alfabetismo entre os graduados com nível superior tem desdobramentos diretos no mercado de trabalho e sobre a produtividade da economia. O empregador acaba selecionando, prioritariamente, aqueles com qualificação mais avançada, geralmente formados em Universidades de excelência.

4 thoughts on “Analfabetismo Funcional X Educação Financeira

  1. Professor, trabalho em áreas de auditoria e financeira desde 1988 e fico estarrecido com a quantidade de colegas que vivem pendurados em limites de cheque especial, cartão e outras linhas. Gente com boa escolaridade, com rendas mensais entre 10 e 20 mil reais, mas que se endividam por falta de planejamento e organização, ou porque tomaram e tomam decisões erradas; ao aderirem ao consumismo, ao apego a grifes, a compra/troca de veículos impulsivamente , a decisão de construir casas em condomínios de luxo em padrão muito superior a suas rendas, ou seja, a falta de educação financeira também atinge alfabetizados e proficientes !!

    1. Prezado Paulo,
      estou de acordo contigo. A falta de Educação Financeira sob o aspecto de autocontrole do impulso para gastos em busca de status social atinge gente de todas as escolaridades.

      Os vieses heurísticos — “regras de bolsos” aprendidas na “escola-da-vida” — atinge todas as mentes, se o sujeito não controla seus instintos irracionais. Um dos piores é o viés da autovalidação: ele “se acha” consultando apenas os próprios pares! Sujeita-se a ser “Maria vai com as outras”…

      Por exemplo, ele segue cegamente o grupo de “amigos” que acha que status social é composto pelos “Cinco Cês da Classe C”: Carro, Casa, Casar, Cruzar-Criar-Crianças, Consumir.

      Se quiséssemos ampliar o mnemônico, que serve para facilitar a memorização, de modo jocoso, diríamos “Ceis” (com C) “Çonhos” (com C cedilha) da Classe C, isto é, da típica Classe Média, são aqueles acrescentados de Cruzeiro como símbolo do status de viajar.

      Mas isso poderia ser visto como esnobismo, porque professor acha que “passaporte não é diploma”. Então, tento cobrar dos outros o que, pretensamente, acho mais valioso: Cultura. Este seria o sétimo Cê, mas custa muito conseguir…

      Tento ainda incentivar o oitavo Cê: Complementar Previdência.

      Isso é um mero mnemônico para lembrar que atinge também de A a B.
      att.

  2. Fernando, ótimo texto e muito pragmático.

    No entanto, penso que a ideia central do texto não pode ser generalizada, pois mesmo não havendo mais analfabetos funcionais tomando decisões (bem utópico), ainda sim teríamos decisões tomadas a partir de vieses heurísticos totalmente incongruentes.

    Neste cenário, os desequilíbrios financeiros continuariam ocorrendo, comprometendo a saúde física e emocional do indivíduo, e, obviamente, os sonhos deste, não importando se são “grandes” ou “pequenos” sonhos.

    Com isso, me volto ao que você pontuou sobre a educação financeira sendo oferecida nas organizações. SIMPLESMENTE ESPLÊNDIDO! Os empresários devem entender que o saúde financeira da organização depende, indiretamente, claro, da saúde financeira dos seus funcionários. No entanto, avalio que seja necessária maior divulgação por parte dos profissionais especialistas na área do que podem contribuir neste cenário. O intuito seria de demonstrar que ferramentas podem ser utilizadas no dia-a-dia por pessoas comuns para não tomarem decisões danosas a si mesmas.

    Infelizmente não podemos esperar mudanças nas nossas leis para que a educação financeira seja incluída no currículo dos nossos alunos e alunas Brasil afora. E quem entende um pouco do potencial de uma pessoa educada financeiramente, sabe que é muito interessante manter a população no “desconhecimento pleno”. Obviamente, refiro-me aos políticos.

    Abraço

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