“Fintech”: Financial Technology — Uma Ideia na Cabeça, Uma Tecnologia à Mão…

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A Wikipedia define, convencionalmente, um banco. “Bancos são instituições intermediárias entre agentes superavitários e os agentes deficitários, que exercem, além de outras, a função de captar os recursos dos superavitários e emprestá-los a juros aos deficitários, gerando a margem de ganho denominada de spread bancário. Os bancos têm também por funções captar capital em formas de poupança, financiar automóveis e casas, trocar moedas internacionais, realizar pagamentos, entre outros”.

Se fosse definir essa “coisa” apenas por suas funções, destacaria as três principais:

  1. prover um sistema de pagamentos;
  2. captar depósitos de terceiros, oferecendo aplicações financeiras seguras, líquidas e rentáveis;
  3. oferecer financiamentos para alavancagem financeira da rentabilidade dos capitalistas.

Mas não esqueceria que, por ser responsável por guardar recursos de terceiros, é uma instituição que necessita de autorização da Autoridade Monetária, i.é, necessita de concessão e fiscalização do Banco Central, para “abrir suas portas” ao público. Afinal, este que garante em última instância a segurança dos depósitos.

Dito isso, alerto que não basta “uma ideia na cabeça, uma tecnologia à mão” para virar banqueiro. Assim como não basta “uma ideia na cabeça, uma câmara à mão” para virar cineasta…

Essa advertência é necessária nos tempos atuais de inovações tecnológicas, cujos inventores se imaginam, de uma hora para outra, se tornar empreendedores em todas as áreas, mesmo que tenham “desconhecimento de causa”.

Acham que basta a descoberta de um pequeno nicho, que fornece dados alternativos, p.ex., para detectar um aumento no número de cópias baixadas do aplicativo da Wayfair na Apple Store. Simultaneamente, registra-se um salto nas avaliações de consumidores, o que frequentemente significa a utilização real do aplicativo.

Segundo o Financial Times (31/03/16), as informações podem vir da Thinknum, uma das muitas butiques especializadas em fornecer dados não tradicionais sobre quase tudo, desde o burburinho nas mídias sociais até imagens de satélite que podem ser garimpadas por cientistas da computação de vanguarda em busca de vantagens nos investimentos.

Balanços trimestrais, avisos sobre revisão de metas de lucro, relatórios econômicos, reuniões de executivos e avaliações setoriais há muito são o fundamento da análise financeira, mas o crescente mundo do “big data começa a tornar-se cada vez mais importante. “É uma nova era, esta é a nova forma de se fazer análise”, clama um empreendedor-especulador, ex-analista de fundo hedge e um dos fundadores da Thinknum. “As pessoas querem dados! Esta é uma área de alto crescimento de lucros.”

“Big data” é um termo simples e descritivo dado à explosão de informações dos últimos anos, alimentada pela revolução on-line. Há mais de 1 bilhão de sites com 10 trilhões de páginas individuais, com 500 “exabytes” de dados, segundo o Deutsche Bank. Um exabyte tem 1 milhão de terabytes ou 1 bilhão de gigabytes. E a enxurrada de dados cresce a cada dia. Mais de 100 bilhões de sites são adicionados à internet por ano.

Há muito tempo existem dados não tradicionais que os gestores de recursos inovadores podem garimpar, muitas vezes valendo-se da velha engenhosidade humana. Alguns fundos, por exemplo, enviavam analistas em início de carreira para observar centros comerciais e concessionárias de automóveis em busca de estimativas de vendas e movimentação de clientes. O volume de dados disponíveis agora vem se expandindo exponencialmente e os avanços na capacidade de computação e na complexidade dos algoritmos permitem que os dados digitais sejam digeridos automaticamente.

Muitos começam a ver benefícios concretos. Por exemplo, alguns fundos de hedge vêm usando imagens de satélite para avaliar o verdadeiro estado da economia chinesa, já que a precisão dos dados oficiais vem sendo colocada em dúvida. Algoritmos avançados podem analisar fotos tiradas do espaço para fornecer um indicador em tempo real da economia.

A empresa americana SpaceKnow lançou recentemente o índice China Satellite Manufacturing, que usa 2,2 bilhões de arquivos de observação por satélite de mais de 500 mil quilômetros quadrados e de 6 mil instalações industriais pela China para calcular o nível da atividade industrial no país.

A política é outra área em que o uso de dados pode revelar indicações para negócios. A VogelHood, uma empresa de análises em Washington, analisa montanhas de informações fornecidas pelo governo federal e por lobistas para fornecer dados brutos e informes por encomenda ao setor de investimentos com o propósito de prever o resultado de fusões e aquisições ou os vencedores de contratos governamentais.

“Firmas que estão mais engajadas com o governo norte-americano – em outras palavras, que fazem mais lobby – são mais bem- sucedidas”. Lá é lobby, aqui é corrupção…

Alguns fornecedores de dados até decidiram entrar, eles próprios, no mundo dos investimentos. A CargoMetrics, com sede em Boston, foi criada originalmente para, com base em imagens de satélites e dados de navegação, fornecer informações a comercializadoras de commodities sobre o comércio internacional, mas recentemente fundou seu próprio fundo de hedge para negociar a partir de suas análises.

Os dados também podem ser bem detalhados. A Eagle Alpha, uma plataforma de informações alternativas criada por Emmett Kilduff, ex-executivo de banco de investimento no Morgan Stanley, aliou-se com uma grande empresa de transporte e logística que usa faturas individuais para elaborar um indicador atualizado do comércio internacional, permitindo aos clientes ver padrões de importação e exportação em 12 grandes países bem antes da divulgação dos números mensais oficiais.

“O mundo vem criando uma quantidade exponencial de dados o tempo inteiro, mas isso não vem sendo realmente aproveitado pelo setor de investimentos”, diz um especulador.

Além de informações que ajudem os investidores a saber mais sobre o estado da economia chinesa, os dados sobre o consumo são particularmente populares, segundo fornecedores de dados. Por exemplo, a Thinknum também fornece dados detalhados sobre empresas como o Lending Club, uma instituição de crédito entre pares, e a Soulcycle, uma rede de academias de ginástica.

No caso do Lending Club, busca cada empréstimo individual na Securities and Exchange Commission (SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos), onde precisam ser registrados obrigatoriamente, para calcular o movimento da firma. No da Soulcycle, pode mostrar a capacidade total e o grau de presença em cada aula da empresa – e até informar o nome do professor. “Há tantos dados por aí afora”, diz um esperto especulador-inventor. “O setor financeiro está atrasado em relação à maioria dos outros setores. Esse é o futuro.”

Parece que é o mesmo que pensam, ingenuamente, Lauro Gonzalez, Eduardo Diniz e Adrian Cernev — professores da EAESP­FGV e pesquisadores do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV. Publicaram artigo a respeito (Valor, 31/03/16) para divulgar uma novidade recente que, supostamente, “está mobilizando o mercado de serviços financeiros”: as Fintech.

“Trata-se abreviação do termo “Financial Technology“, usado para identificar empresas recém criadas (start-ups), dirigidas por jovens empreendedores e apoiadas no uso intensivo de plataformas tecnológicas para oferecer serviços financeiros por meio de modelos de negócio inovadores para clientes jovens e aos precariamente atendidos pelo sistema financeiro tradicional. Alguns exemplos: empresas de pagamento, cartões de crédito, empréstimos entre pessoas, sem a presença de bancos (peer to peer) e alocação de investimentos.

Nos Estados Unidos, as Fintech atraíram US$ 12 bilhões de investimentos somente em 2014, contra US$ 4 bilhões em 2013. Por lá, espera-se que a velocidade de crescimento continue alta, tanto pelo gigantesco tamanho do mercado de serviços financeiros como pela capacidade de agregar valor por meio de ganhos de eficiência. De fato, nesses novos modelos, os custos de transação tendem a ser menores do que aqueles incorridos no setor bancário tradicional.

Além disso, novas formas de avaliação de risco podem surgir a partir do uso de informações “alternativas”, como as mídias sociais em geral ou empresas de comércio eletrônico, que podem alimentar modelos de risco de crédito inovadores e capazes de incluir os menos favorecidos.

Obviamente, não se trata aqui de decretar o fim dos bancos. As Fintech podem por um lado representar uma ameaça, por outro podem ser um espaço para o desenvolvimento de parcerias e soluções inovadoras. Em alguns casos, a tecnologia pode ser uma alavanca para as próprias operações tradicionais, por exemplo, volumes transacionados com cartões de crédito. Ademais, algumas dessas empresas serão incorporadas pelos próprios bancos.

No Brasil, estima-se haver 400 Fintech, entre aquelas efetivamente em operação e em estágio de desenvolvimento. O Valor (20/03/16) noticiou que, apenas durante um evento voltado para criação de soluções novas em serviços financeiros, 16 projetos foram elaborados, sendo 3 deles escolhidos para premiação. Um dos projetos envolve uma solução de pagamento para população de baixa renda: uso de linha pré-paga de celular para pagamento de água, luz e telefone.

Alguns modelos de negócio já existentes, apesar de não concebidos originalmente para o atendimento da população excluída, podem evoluir de forma a fazê-lo. É o caso do cartão de crédito Nubank, criado há cerca de um ano e meio, cuja fila de espera é de nada menos do que 70 mil pessoas, a maior parte clientes de outros cartões.

O grande interesse advém dos custos menores e da possibilidade de resolver qualquer pendência pela internet. Outra vantagem é incluir um aplicativo no celular que oferece informações detalhadas sobre os gastos realizados no plástico. Embora os juros cobrados no cartão ainda sejam elevadas, o acúmulo de informações sobre os usuários pode propiciar reduzir as taxas no médio e longo prazo.

O sucesso desse e outros modelos é emblemático. Há uma grande demanda por serviços financeiros mais eficientes e apropriados. Hoje, tal demanda não é atendida pelo sistema financeiro tradicional brasileiro.

Trabalhando em parceria com os grandes bancos ou desafiando-os em seu próprio mercado, as Fintech já ocupam um espaço importante no Brasil [?!], em particular naqueles mercados em que o sistema bancário tem tido menor capacidade de atender às demandas dos clientes. Uma parcela significativa dessas iniciativas miram o mercado de pagamentos no varejo, cuja ineficiência tem sido frequentemente destacada em relatórios do Banco Central.

Outras áreas de concentração para as Fintech são os serviços de apoio financeiro e os de crédito para pequenos empreendedores, tradicionalmente pior atendidos pelos bancos. Junto com esses segmentos, investimentos, seguros, e até operações com Bitcoin, estão entre as áreas de atuação das Fintech brasileiras.

Um fator crítico para o sucesso das Fintech é a obtenção de escala. Não basta ter uma boa proposta de valor e um uso inovador da tecnologia. É preciso alcançar uma massa crítica de usuários que permita a sustentabilidade do empreendimento. Como em qualquer outro modelo de negócio, espera-se que muitas Fintechs não prosperem. Entretanto, aquelas que passarem pelo teste de fogo do mercado podem revolucionar os serviços financeiros.

Na década de 70, um conjunto de inovações, tais como uso de agentes de crédito e empréstimos em grupo, impulsionou o crescimento do microcrédito e teve efeitos sobre a vida de milhões de pessoas mundo afora. Quase 50 anos mais tarde, pensar fora da caixa permanece a mola propulsora da inclusão financeira e é possível afirmar que as Fintech já são mais do que uma simples promessa.”

FNC: acho que enriqueceria a análise do artigo destacar algumas estatísticas, para se dimensionar do que se está falando. Senão, corre o risco de enganar incautos…

Em setembro de 2015, o sistema bancário brasileiro possuía 115.031.161 clientes tomadores de crédito, 129.595.909 depositantes de poupança (entre os quais 67 milhões ou 52% tinham saldo menor ou igual a R$ 100), e 9.448.091 investidores em Fundos de Investimentos (4,4 milhões) e títulos e valores mobiliários (5 milhões). Este número segue a minha “Regra dos Nove” — leia:  https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/11/15/renda-do-capital-versus-renda-do-trabalho/#more-40081

 

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