Concentração Bancária: Escolha por Bancos Grandes Demais Para Quebrar

Concentração Bancária

Sempre que um jornalista me questiona a respeito da concentração bancária brasileira, retruco: “como o senhor escolhe seu banco? Eu escolho entre ‘bancos grandes demais para quebrar’, e o senhor?”

No Brasil, quando alguém busca segurança para seus depósitos e/ou investimentos financeiros, é natural se dirigir a um dos BBICS (Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander). Afinal, “meia-dúzia de cinco bancos” (já que o Bradesco adquiriu o HSBC) detém mais de 2/3 do ativos totais do sistema bancário brasileiro, 78% dos depósitos totais, e obteve 62% do lucro líquido. Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa e Santander (o grupo BBICS) somam 20.760 ou 90% do total de agências.

Registra-se a maior possibilidade de receber crédito em algum banco dos BBICS e/ou do BNDES, já que estes bancos fizeram 80,2% das operações de crédito registradas contabilmente em setembro de 2015. Concentrada também é quantidade de clientes das carteiras de crédito dos oitos maiores, neste caso, incluindo o Votorantim (quase 50% das ações possuídas pelo Banco do Brasil) e o Pan (idem em relação à Caixa). Eles atenderam 87% do total de clientes, açambarcando 90% das operações de crédito.

Felipe Marques e Vinícius Pinheiro (Valor, 28/03/16) informam que não é só da falta de crédito que empresários de todos os setores e portes têm se queixado na atual crise. É também da falta de bancos. Em meio à saída de instituições financeiras estrangeiras do Brasil, ao encolhimento dos bancos médios e à falta de capital dos bancos públicos, empresas brasileiras têm visto sumir o número de portas para bater em busca de dinheiro. A redução do número de bancos na ativa ajuda a amplificar os efeitos da atual escassez de crédito, resultado do temor das instituições em emprestar e não receber.

A concentração bancária não é uma história recente no país, mas ganhou uma série de novos capítulos em 2015. Dois dos maiores bancos estrangeiros no Brasil, Citi e HSBC, vão encolher as operações no país – o HSBC vendeu sua unidade brasileira ao Bradesco e o Citi busca comprador para seu banco de varejo. Já o BTG Pactual, conhecido por ser um dos mais agressivos na tomada de risco de crédito no mercado, se viu obrigado a diminuir de tamanho após a corrida por liquidez causada pela prisão de André Esteves, ex-controlador da instituição. Entre os médios, instituições como Pine, Indusval e Fibra tiveram nova deterioração nos resultados e reduziram suas operações.

Na visão de um importante banqueiro, a concentração do sistema financeiro em poucos nomes agravará a dificuldade de rolagem de dívida de empresas nos próximos meses. Muitas companhias que tomaram recursos no exterior precisarão, com a piora do risco Brasil, rolar essas dívidas localmente. “Não há nenhum incentivo nos bancos em emprestar para pessoa jurídica”, diz. “Em um sistema concentrado como o nosso, os bancos não têm estímulo para tomar risco e ampliar o volume de empréstimos, só para controlar inadimplência”, diz.

Para grandes empresas, quando é necessária a formação de um sindicato de bancos para arcar com a dívida, a ausência de instituições é ainda mais aguda, avalia esse banqueiro. “Hoje, os sindicatos são feitos com quatro ou cinco bancos. Se, por qualquer motivo, um sai, o sindicato rui.”

As medições mais recentes de concentração bancária divulgadas pelo Banco Central não incorporam ainda boa parte desses episódios – mesmo porque, a compra do HSBC sequer foi efetivada pelo Bradesco. Na escala do BC, o país apresentava, em dezembro do ano passado, um nível “moderado” de concentração bancária. Esses indicadores têm crescido nos últimos anos, depois de terem dado um salto em 2008. Em dezembro, os quatro maiores bancos do país detinha 74,5% do crédito.

“Um sistema mais concentrado tem uma vantagem para o regulador do ponto de vista da estabilidade do sistema, mas perde em termos de inovação e agressividade”, afirma o professor de Direito Econômico da Universidade Federal de Minas Gerais Leandro Novais e Silva. Na visão dele, há uma necessidade de se analisar o nível de concentração em cada produto da prateleira dos bancos, não apenas pelo crédito e depósitos de uma forma agregada. “Em alguns segmentos, como o crédito imobiliário, a concentração está bem acima da média. Tanto que, quando a Caixa freia o financiamento, todo o crédito habitacional sofre.”

Silva avalia que em determinados segmentos o nível de concentração teve mudanças relativamente pequenas com a saída de concorrentes. Porém, do ponto de vista do tomador, há uma percepção de menos opções para se procurar crédito.

Pelo menos entre os grandes bancos privados, dinheiro para emprestar não falta, mas as instituições têm optado por preservar a liquidez em meio ao agravamento da crise. A cautela tem fundamento. A inadimplência nas operações de crédito subiu de 2,8% para 3,5% em um ano, de acordo com o BC.

“Se soubéssemos [da piora da economia], teríamos sido mais rigorosos ainda na exposição a setores de mais risco”, afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, em teleconferência com analistas.

Para se proteger do risco de calote, alguns bancos não só restringiram o crédito como também o número de empresas com as quais trabalham, e fecharam as portas para uma série de clientes. O resultado é que, nesses determinados segmentos, a concentração cresce. O crédito para empresas de médio porte, por exemplo, que já atraiu bancos privados e públicos, hoje depende muito mais das instituições oficiais, que têm reduzido as operações devido à maior inadimplência e à falta de capital.

Isso acabou fazendo com que “sobre” liquidez para um grupo seleto de companhias, justamente aquelas de melhor saúde financeira, enquanto as mais endividadas são preteridas, afirma alto executivo de um banco. “A concentração bancária pode ter ajudado, mas o que acontece hoje é, principalmente, uma concentração do crédito nos melhores riscos”, diz.

Em paralelo, esse executivo vê os bancos se recusarem a conceder crédito a companhias com dificuldades de rolar dívidas em outras instituições. “Tudo o que um banco não quer é dar saída para outro.”

Não custa lembrar, porém, que mesmo que parte do mercado de Citi, HSBC e BTG passe para as mãos dos grandes bancos a concentração bancária não deve repetir o salto dado em 2008 e 2009 – quando Itaú e Unibanco se fundiram e o Banco do Brasil comprou Banco Votorantim. Isso porque os três representavam juntos só 7,7% do total de ativos do sistema financeiro em setembro.

Executivo de uma outra grande instituição financeira minimiza os efeitos da concentração sobre o crédito. “Um banco consegue precificar o risco, mas não existe taxa de juro para cobrir um risco que eu não conheço”, afirma a fonte. Como a incerteza vale para todos, no momento atual a escassez de crédito ocorreria independentemente do número de bancos, avalia.

A principal medida de concentração bancária, o Índice de Herfindahl-Hirschmann, fechou 2015 com leve recuo ante 2014, mas em patamar superior ao que apresentava durante a crise de 2008, quando houve seca no crédito. Em dezembro de 2015, o indicador de concentração no crédito estava em 1.573, de acordo com o BC – patamar considerado “moderado”. No mesmo período de 2014, era de 1.645. Em setembro de 2008, o índice estava em 1.094.

Os dados do BC começam em 2007, mas especialistas afirmam que a tendência de concentração é anterior. A leitura de um executivo é que o regulador incentiva a consolidação, com vistas à aumentar a estabilidade do sistema. “A questão é que é preciso equilibrar estabilidade e competição.”

“Níveis maiores de concentração fortalecem os bancos em negociações com empresas, já que há um volume maior de créditos nas mãos de um único credor”, diz Janser Saloman, sócio da Rosenberg Partners, que dá consultoria para empresas em recuperação judicial.

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