Invasão e Conquista da Palestina por Israel

Israel X Palestina

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, conta que, em 1949, as Nações Unidas aprovaram uma resolução apoiando a independência da Líbia e estabeleceram uma comissão para supervisionar a transferência de poder. Em 1951, o país tornou-se independente, com o chefe da ordem sanusita como rei Idris, mas por vários anos a Grã-Bretanha e os Estados Unidos mantiveram bases militares lá.

Em outro país, a Palestina, a solução de interesses conflitantes mostrou-se impossível. Isso iria causar danos duradouros nas relações entre os povos árabes e as potências ocidentais.

Durante a guerra, a imigração judia para a Palestina fora praticamente impossível, e a atividade política, em sua maior parte, suspensa. À medida que a guerra chegava ao fim, tornou-se claro que as relações de poder haviam mudado.

Os árabes na Palestina eram menos capazes que antes de apresentar uma frente unida, por causa do exílio ou prisão durante e após a revolta de 1936-39 e das tensões e hostilidades geradas por movimentos violentos. A formação da Liga Árabe, com seu compromisso de apoiar os palestinos, pareceu oferecer-lhes uma força que no fim se revelou ilusória.

Os judeus palestinos, por sua parte, eram unidos por fortes instituições comunais. Muitos deles tinham tido treinamento e experiência militar nas forças britânicas durante a guerra. Eles tinham apoio mais amplo e mais decidido de judeus em outros países, agitados pelos massacres de judeus na Europa. Resolveram, então, criar não apenas um refúgio para os que sobreviveram, mas uma posição de força que tornasse impossível no futuro um acontecimento desses.

O governo britânico, embora consciente dos argumentos em favor de uma rápida imigração judia em larga escala, sabia também que isso levaria ao pedido de um Estado judeu, o que despertaria forte oposição dos árabes, que temiam ser submetidos ou desapropriados, e dos Estados árabes. Os britânicos não tinham mais tanta liberdade de ação como antes de 1939, por causa de suas estreitas relações com os Estados Unidos e sua dependência econômica deles.

O governo americano, tendo ainda poucos interesses próprios no Oriente Médio, e sofrendo alguma pressão de sua grande e politicamente ativa comunidade judia, inclinava-se a usar sua influência em favor das exigências sionistas de imigração e um Estado.

A questão da Palestina tornou-se então um ponto importante nas relações anglo-americanas. As tentativas de acordo sobre uma política conjunta, através da comissão de inquérito anglo-americana (1945-46), e depois discussões bilaterais, não chegaram a qualquer conclusão, pois nenhuma política sugerida recebia a aprovação de judeus e árabes ao mesmo tempo, e o governo britânico não estava disposto a executar uma política que não tivesse essa aprovação.

A pressão americana sobre a Grã-Bretanha aumentou. Aí, ataques judeus a autoridades e instalações britânicas na Palestina chegaram perto do ponto da revolta aberta.

Em 1947, a Grã-Bretanha decidiu entregar o assunto às Nações Unidas. Uma comissão especial da ONU enviada para estudar o problema apresentou um plano de partilha em termos mais favoráveis aos sionistas que o de 1937. O plano foi aceito pela Assembleia Geral das Nações Unidas em novembro de 1947, com apoio bastante ativo dos Estados Unidos e também da Rússia, que desejava a retirada dos britânicos da Palestina.

Os membros árabes das Nações Unidas e os árabes palestinos rejeitaram-no. Então, mais uma vez diante da impossibilidade de encontrar uma política que árabes e judeus aceitassem, a Grã-Bretanha decidiu retirar-se da Palestina em uma data fixada, 14 de maio de 1948.

Isso seguia um precedente recentemente estabelecido pela retirada britânica da Índia. Talvez tenha se esperado que, como na Índia, a iminência da retirada levasse as duas partes a algum tipo de acordo. À medida que se aproximava a data, a autoridade britânica inevitavelmente diminuiu e irrompeu a luta, em que os judeus logo conquistaram uma vantagem.

Isso, por sua vez, levou à decisão dos países árabes vizinhos de intervir. Assim, uma série de conflitos locais transformou-se em uma guerra. A 14 de maio de 1948, a comunidade judia declarou sua independência como Estado de Israel, que foi imediatamente reconhecido pelos Estados Unidos e pela Rússia.

Então, forças egípcias, jordanianas, iraquianas, sírias e libanesas avançaram sobre as partes predominantemente árabes do país. Em uma situação em que não havia fronteiras fixas nem nítidas divisões de população, a luta se deu entre o novo exército israelense e os dos estados árabes, e, em quatro campanhas interrompidas por cessar-fogo, Israel conseguiu ocupar a maior parte do país. Por prudência, inicialmente, e depois por pânico e por causa da política deliberada do exército israelense, quase dois terços da população árabe deixou suas casas e tornou-se refugiada.

No início de 1949, fez-se uma série de armistícios entre Israel e seus vizinhos árabes, sob a supervisão das Nações Unidas, e criaram-se fronteiras estáveis:

  1. cerca de 75% da Palestina foram incluídos dentro das fronteiras de Israel;
  2. uma faixa de terra na costa sul, que se estendia de Gaza à fronteira egípcia, foi posta sob administração egípcia;
  3. o resto foi anexado pelo Reino Hachemita da Jordânia (nome tomado pela Transjordânia em 1946, depois que um tratado com a Grã-Bretanha redefiniu as relações entre os dois países);
  4. Jerusalém foi dividida entre Israel e a Jordânia, embora muitos outros países não reconhecessem formalmente a divisão.

A opinião pública nos países árabes foi muito afetada por esses acontecimentos. Foram encarados como uma derrota para os governos árabes. Isso iria levar a muitos levantes nos anos seguintes.

Também foram vistos como uma derrota para os britânicos, que tinham conseguido retirar seus funcionários e soldados do país sem perdas, mas em circunstâncias que despertaram suspeitas e hostilidade em ambos os lados.

Nos países árabes, a opinião predominante era de que a política britânica na verdade ajudara aos sionistas: tendo encorajado a imigração judia, o governo não se mostrara disposto a aceitar suas implicações para os árabes, ou detê-la antes que levasse à submissão ou desapropriação deles, ou pelo menos limitar o dano que causaria. Os Estados Unidos, por sua vez, eram vistos como tendo agido inteiramente em apoio aos sionistas.

Apesar disso, as posições de britânicos e americanos permaneceram fortes. O governo israelense, no qual a figura dominante era David Ben Gurion (1886-1973), recusou-se a receber de volta qualquer número de refugiados árabes. Mas era geralmente aceito pelos governos britânico, americano e israelense que eles mais cedo ou mais tarde seriam absorvidos na população dos países onde haviam se refugiado, e que se poderia conseguir não a paz, mas pelo menos um modus vivendi entre Israel e seus vizinhos.

Nesse meio tempo, as principais energias do governo de Israel foram dedicadas à tarefa de absorver grande número de imigrantes judeus, não apenas da Europa Oriental, mas também dos países árabes. Isso mudou a estrutura da população: em 1956, de um total de 1,6 milhão, os muçulmanos árabes e os cristãos somavam 200 mil, ou cerca de 12%.

Grande parte da terra que pertencera aos árabes foi tomada, por diferentes meios, para assentamento judeu. Embora os cidadãos árabes tivessem direitos legais e políticos, não pertenciam plenamente à comunidade nacional que se formava.

O movimento de população judaica para dentro de Israel teve impacto também nos países árabes. Na geração após 1948:

  1. as antigas comunidades judias dos países árabes praticamente cessaram de existir;
  2. as do Iêmen e Iraque mudaram-se sobretudo para Israel;
  3. as da Síria, Egito e do Magreb, para a Europa e América do Norte, além de Israel;
  4. só a comunidade judia do Marrocos continuou sendo de tamanho significativo.

Continua em próximo post.

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