Proclamação da República no Egito

árabe

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, conta que, nos anos seguintes à invasão da Palestina, o centro de conflito e discussão política estava não no conflito árabe-israelense, mas em outros países nos quais a Grã-Bretanha ainda tinha uma posição especial: no Irã, além da fronteira oriental do mundo árabe, onde a nacionalização da empresa de petróleo de propriedade britânica causou uma crise internacional, e no Egito.

Ali, a Grã-Bretanha ainda tinha muita liberdade de ação. Tendo divergido da política britânica na Palestina, os Estados Unidos não estavam dispostos a enfraquecer a posição da Grã-Bretanha como guardiã dos interesses ocidentais em outras partes do mundo árabe, embora o grande investimento de capital americano nos campos de petróleo da Arábia Saudita levasse à substituição da influência britânica pela americana.

A União Soviética, do seu lado, estava demasiado ocupada com outras regiões para seguir uma política ativa nos países árabes. Os estados árabes, embora comprometidos em princípio com a defesa dos interesses dos palestinos, preocupavam-se sobretudo com seus próprios problemas.

A base do poder britânico no Oriente Médio sempre fora a presença militar no Egito, e foi aí que a Grã-Bretanha se viu diante do problema mais urgente. Assim que a guerra acabou, houve uma exigência do governo egípcio de mudança no acordo a que se havia chegado em 1936.

As negociações entre os dois governos se deram de 1946 em diante, mas fracassaram em dois pontos:

  1. primeiro, a pretensão egípcia de soberania sobre o Sudão, que o governo britânico não aceitava, na crença de que a maioria dos sudaneses não aceitaria e que a Grã-Bretanha tinha obrigações com eles; e,
  2. segundo, a questão da posição estratégica britânica no país.

Seguindo o tratado de 1936, forças britânicas foram retiradas do Cairo e do Delta, mas houve um impasse em relação à Zona do Canal. Estadistas e estrategistas britânicos achavam essencial permanecer lá em peso, tanto para defesa dos interesses ocidentais e do Oriente Médio quanto dos interesses britânicos no Mediterrâneo Oriental e na África.

Em 1951, irrompeu uma séria luta entre forças britânicas e guerrilheiros egípcios. Em janeiro de 1952, isso detonou um movimento popular no Cairo em que instalações ligadas à presença britânica foram destruídas.

O colapso da ordem, por sua vez, deu a oportunidade para a tomada do poder, em julho de 1952, por uma sociedade secreta de oficiais egípcios de patente média, a princípio uma liderança corporativa e depois sob o domínio de Gamal ‘Abd al-Nasser (1918-70). O rompimento com o passado, que ia se mostrar em muitas esferas, foi simbolizado pela deposição do rei e a proclamação de uma república no Egito.

Gamal ‘Abd al-Nasser, líder do grupo militar que agora governava o Egito, já na assinatura do acordo sob o qual as forças britânicas deviam deixar a Zona do Canal, reconheceu que, na verdade, esse acordo não levava à entrada do Egito no sistema de defesa ocidental. Ao contrário, dava-lhe a liberdade de seguir uma política de não-alinhamento, e de formar em torno de si um bloco de países árabes igualmente não alinhados com o qual o mundo externo teria de lidar como um todo.

Uma expressão dessa política foi a estreita relação estabelecida com os principais defensores da ideia de não alinhamento, Índia e Iugoslávia. Outra, e mais dramática, foi o acordo feito em 1955 para o fornecimento de armas ao Egito pela União Soviética e seus aliados, um acordo que rompeu o controle sobre fornecimentos de armas a Israel e aos estados árabes vizinhos que os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França tinham tentado manter.

A política de neutralismo quase inevitavelmente atraiu o Egito e seus aliados para uma inimizade com aqueles cujos interesses seriam afetados por ela. As potências ocidentais teriam pelo menos de esperar obstáculos e limites ao defenderem seus interesses políticos e econômicos. Não mais podiam controlar o desenvolvimento do problema de Israel, ou outros problemas, como talvez tivessem esperado fazer. Para o governo dos Estados Unidos, na era da Guerra Fria, a recusa a juntar-se à aliança ocidental no Oriente Médio era na verdade juntar-se ao bloco oriental.

O apelo ao neutralismo e à maior unidade sob a liderança egípcia, feito por ‘Abd al-Nasser a povos árabes passando por cima de seus governos, era uma ameaça aos regimes que defendiam políticas diferentes: em particular o do Iraque, que, após a assinatura do Pacto de Bagdá, tornou-se o principal protagonista da aliança ocidental. Sua vida política nesse período foi dominada por Nuri al-Sa‘id (1888-1958), que desempenhara um papel importante na política nacional árabe desde a revolta árabe durante a Primeira Guerra Mundial.

A ascensão de um forte governo egípcio, com seu próprio abastecimento de armas e um forte apelo aos sentimentos de palestinos e outros árabes, era vista por Israel como uma ameaça à sua posição.

Esses antagonismos locais, por sua vez, aprofundaram a hostilidade das potências ocidentais:

  1. os Estados Unidos por causa de sua ligação com Israel,
  2. a Grã-Bretanha por causa de sua filiação ao Pacto de Bagdá, e
  3. a França por causa do encorajamento e ajuda que achava que o Egito, com sua visão de um mundo árabe independente e não alinhado, dava à revolução argelina.

Entre 1955 e 1961, houve uma série de crises em que todos esses fatores estiveram envolvidos. Em 1956, os Estados Unidos, que tinham dado esperanças de que iam fornecer ajuda financeira ao Egito para um projeto de irrigação muito grande (a grande barragem de Assuan), de repente retiraram sua oferta. Em resposta a isso, o governo egípcio não menos de repente nacionalizou a Companhia do Canal de Suez e assumiu a administração do canal.

Isso causou alarme a usuários do Canal de Suez, que temiam que a liberdade de usá-lo ficasse sujeita a considerações políticas. Para os governos britânico e francês, pareceu um ato de hostilidade, tanto por causa do interesse britânico e francês na empresa que construíra e era dona do canal, quanto porque isso aumentava a estatura de ‘Abd al-Nasser nos países árabes. Os israelenses viram nisso uma oportunidade de enfraquecer um Estado vizinho todo-poderoso e hostil, cuja fronteira com eles tinha sido perturbada por algum tempo. O resultado foi um acordo secreto entre França, Grã-Bretanha e Israel para atacar o Egito e derrubar o governo de ‘Abd al-Nasser.

Em outubro de 1956, forças israelenses invadiram o Egito e marcharam para o canal de Suez. De acordo com o acordo prévio entre os três, a Grã-Bretanha e a França enviaram um ultimato a Israel e ao Egito, para que se retirassem da Zona do Canal, e a recusa de ‘Abd al-Nasser deu um pretexto para forças britânicas e francesas atacarem e ocuparem parte da Zona.

Essa ação, porém, era uma ameaça não apenas ao Egito e aos estados árabes que o apoiavam, mas aos Estados Unidos e à União Soviética, que como grandes potências não podiam aceitar que passos tão decisivos fossem dados numa área em que tinham interesses sem que se levassem em conta esses interesses. Sob pressão americana e soviética, e diante da hostilidade mundial e do perigo de colapso financeiro, as três forças retiraram-se.

Esse foi um dos raros episódios em que a estrutura de poder no mundo ficou claramente revelada: a hostilidade de forças locais atraiu potências mundiais de segundo escalão em defesa de interesses próprios, só para darem de cara com os limites de sua força quando desafiaram os interesses das superpotências.

O resultado dessa crise foi aumentar a estatura de ‘Abd al-Nasser nos países árabes vizinhos, já que ele foi visto em geral como tendo saído da crise politicamente vitorioso. Também aprofundou a cisão entre os que o apoiavam e os que viam sua política como perigosa. Essa divisão agora entrava como um fator nos assuntos internos dos outros estados árabes.

Em 1958, combinou-se com rivalidades locais para causar uma eclosão de guerra civil no Líbano. No mesmo ano, uma luta pelo poder entre grupos políticos na Síria levou um deles a tomar a iniciativa de união com o Egito. A união se fez, e em fevereiro os dois países fundiram-se na República Árabe Unida.

Os dois reinos hachemitas, Iraque e Jordânia, estabeleceram uma união rival, mas no mesmo ano, em julho, a mesma combinação de descontentes internos com as esperanças suscitadas pela liderança egípcia de um novo mundo árabe levou à tomada do poder no Iraque por oficiais do exército. O rei e a maior parte de sua família foram mortos, e também Nuri al-Sa‘id.

O Iraque tornou-se uma República. Então, a dinastia hachemita não pôde mais esperar desempenhar um papel de destaque na política árabe, embora o outro ramo dela continuasse a reinar na Jordânia.

A notícia da revolução iraquiana levou ao envio de tropas americanas ao Líbano e britânicas à Jordânia, para estabilizar uma situação incerta, mas elas logo se retiraram. No que diz respeito aos britânicos, isso marcou o fim de seu papel ativo e importante na política árabe.

A princípio, a revolução pareceu abrir a perspectiva de o Iraque juntar-se à união de Egito e Síria, mas a divisão de interesses entre Bagdá e o Cairo logo se mostrou. Dentro da própria República Árabe Unida, os interesses divergentes de Damasco e Cairo também levaram, em 1961, a um golpe militar na Síria e à dissolução da união.

Apesar desses reveses, ‘Abd al-Nasser ainda aparecia, aos olhos da maioria dos árabes e de grande parte do mundo externo, como o símbolo do movimento de povos árabes para uma maior unidade e genuína independência.

Continua em próximo post.

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