Transformação Econômica das Sociedades Árabes Após a Descolonização

Crise Petróleo - Campos Sauditas

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, narra também as mudanças ocorridas nas sociedades árabes após as descolonizações ocorridas nos anos 1950 e 1960.

O resultado de um rápido crescimento demográfico, com pouca mudança na taxa de natalidade, mas decréscimo na taxa de mortalidade, foi que a distribuição etária do povo mudou. Em 1960, mais de metade da população na maioria dos países árabes tinha menos de vinte anos.

Houve também outras mudanças na estrutura da população. O elemento estrangeiro, que desempenhara um papel tão grande no moderno setor da economia, encolhera com a mudança das condições políticas e a retirada de privilégios econômicos. O número de residentes estrangeiros:

  1. no Egito encolheu de 250 mil em 1937 para 143 mil em 1960;
  2. na Líbia, de 100 mil para a metade no mesmo período;
  3. na Tunísia, de 200 mil para menos de 100 mil;
  4. no Marrocos, de 350 mil para 100 mil;
  5. na Argélia, de quase 1 milhão para menos de 100 mil.

Contra isso, houve uma grande movimentação de judeus tanto da Europa quanto do Oriente Médio e do Magreb para o novo Estado de Israel, cuja população judia aumentou de 750 mil em 1948 para 1,9 milhão em 1960. As antigas comunidades judias dos países árabes minguaram em medida correspondente, pela emigração para Israel, Europa e Américas.

Uma mudança de significado mais geral foi o movimento de população para longe da terra. Isso se deu sobretudo como resultado do aumento da população rural acima da capacidade da terra de sustentá-la, mas em alguns lugares também foi causado por mudanças nas técnicas agrícolas:

A introdução de tratores em terras produtoras de grãos significou que eram necessários menos trabalhadores. Os proprietários de terra intensamente cultivada para fins comerciais preferiam trabalhadores qualificados a meeiros.

Na Palestina, o deslocamento resultou mais diretamente de mudanças políticas. Já se notava a superpopulação rural nas aldeias árabes em 1948, mas os acontecimentos daquele ano levaram à desapropriação de mais de metade das aldeias, e em sua maioria os aldeões tornaram-se refugiados sem terra em acampamentos ou favelas na Jordânia, Síria e Líbano.

Devido a essas migrações naturais, a maioria dos países árabes passava de sociedades basicamente rurais para outras em que uma parte grande e crescente da população se concentrava em poucas cidades grandes.

Para alimentar a crescente população, e melhorar os padrões de vida, seria preciso produzir mais no campo e na cidade. Essa necessidade deu uma nova urgência à ideia de crescimento econômico, que atraía governos também por outros motivos.

Na fase de domínio imperial, tanto a Grã-Bretanha quanto a França começaram a ver o rápido crescimento econômico como um possível meio de criar um interesse comum entre governantes e governados. Quando governos nacionalistas assumiram, também eles viram o desenvolvimento econômico como o único meio de conseguir força e autossuficiência, sem as quais as nações não poderiam ser de fato independentes.

Esse foi portanto um período em que os governos intervieram com mais força no processo econômico, para estimular o crescimento. No campo, foi uma era de obras de irrigação em grande escala, em vários países: Marrocos, Argélia, Tunísia, Síria, e acima de tudo Egito e Iraque. No Iraque, um aumento das receitas do governo devido à maior produção de petróleo tornou possível pela primeira vez executar obras de irrigação e controle de enchentes em larga escala e de acordo com um plano.

Um tipo de exportação cresceu rapidamente de importância nesses anos, a de petróleo. Ofereceu o mais impressionante exemplo de interdependência econômica entre os países que produziam petróleo e o mundo industrializado.

Após um início pequeno antes da Segunda Guerra Mundial, os recursos petrolíferos dos países do Oriente Médio e do Magreb revelaram estar entre os mais importantes do mundo. Em 1960, esses países produziam 25% do petróleo bruto do mundo e — devido ao pequeno tamanho do mercado local — eram coletivamente os maiores exportadores.

A maior produção era no Irã e, entre os países árabes, no Iraque, Kuwait e Arábia Saudita, mas também havia produção em outros países do golfo Pérsico e no Egito. Em 1960 grandes jazidas haviam sido descobertas também na Líbia e na Argélia. No futuro, parecia provável que o petróleo do Oriente Médio se tornaria mais importante ainda: em 1960 as reservas eram estimadas em cerca de 60% das reservas conhecidas do mundo.

A concessão para explorar, e para extrair e exportar petróleo quando descoberto, foi mantida em toda parte por empresas estrangeiras, a maioria controlada pelo pequeno número de grandes empresas de petróleo que juntas tinham um virtual monopólio da indústria.

No Iraque, a exploração estava nas mãos de uma empresa de propriedade conjunta britânica, francesa, holandesa e americana. Na Líbia, nas mãos de um grande número de empresas. Na Argélia, nas de uma empresa francesa com fundos do governo.

O capital delas vinha sobretudo de investidores privados ocidentais. Esse, na verdade, foi o mais importante exemplo de investimento privado ocidental nos países durante esse período. A alta tecnologia também era fornecida sobretudo por funcionários europeus e americanos.

O grosso do petróleo era exportado para países ocidentais. Além do próprio petróleo, a contribuição dos países anfitriões restringia-se na maior parte aos escalões inferiores da mão-de-obra, qualificada e não qualificada, e mesmo isso em volume limitado, já que a extração e o processamento de petróleo não exigem muita mão-de-obra.

Mas no início da década de 1960 a situação estava mudando. Mais nativos locais ocupavam empregos de alta qualificação. Embora a força de trabalho total ainda não fosse grande, os treinados na indústria passavam para outros setores da economia.

Mais importante ainda, a divisão de lucros entre as empresas e os países anfitriões também mudava. Em 1948, 65% das receitas brutas da indústria iam para as empresas, e a parte dos países limitava-se a um royalty, uma pequena porcentagem num preço que as próprias empresas fixavam. A partir de 1950, a pressão dos países produtores assegurou mudanças nos acordos, até que a parte deles chegou a 50% da renda líquida das empresas.

Em 1960, os principais países produtores (não só no Oriente Médio) reuniram-se na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), uma aliança com o objetivo de apresentar uma frente comum nas negociações com as grandes empresas de petróleo, que também trabalhavam em estreita união. Estava assim aberto o caminho para um novo processo que iria acabar com as funções das empresas sendo assumidas pelos governos, pelo menos na produção.

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Continua no próximo post.

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