Crise de 1967 entre Israel e Árabes

Ataque Israel

Albert Hourani, em seu livro “Uma História dos Povos Árabes”, (São Paulo; Companhia de Bolso; 2006; 704 páginas) conta que, já no início da década de 1960, havia sinais de que as reivindicações e pretensões do nasserismo iam além de seu poder. A dissolução da união entre Egito e Síria, em 1961, e o fracasso das últimas conversações sobre unidade mostravam os limites da liderança de ‘Abd al-Nasser e dos interesses comuns dos estados árabes.

Mais significativos eram os acontecimentos que ocorriam no Iêmen. Em 1962, o imã Zaydi, governante do país, morreu, e seu sucessor foi quase imediatamente deposto por um movimento no qual liberais educados que tinham estado no exílio se juntaram a oficiais do novo exército regular, com um certo apoio tribal limitado. O antigo imanato tornou-se a República Árabe do Iêmen – agora muitas vezes chamada de Iêmen do Norte, para distingui-la do Estado estabelecido após a retirada britânica do Iêmen e do protetorado em torno, oficialmente conhecido como República Popular do Iêmen, mas muitas vezes chamada de Iêmen do Sul.

A casta que tomou o poder pediu imediatamente ajuda, e unidades do exército egípcio foram mandadas. Mesmo com esse apoio, porém, a tarefa de governar um país que tinha sido diretamente controlado, mas mantido junto pela habilidade e os contatos do imanato, revelou-se difícil demais para o novo governo. Partes do campo, que ainda aceitavam a autoridade do imã, ou se opunham ao tipo de controle que o governo tentava criar, levantaram-se em revolta. Tinham apoio da Arábia Saudita.

Seguiram-se vários anos de guerra civil, em que se entrelaçaram o conflito entre grupos locais e entre o Egito e as monarquias árabes “tradicionais”. Nenhum dos lados pôde vencer o outro; os que os egípcios apoiavam podiam controlar apenas as cidades principais e as estradas entre elas, mas não a maior parte do campo, e um grande exército egípcio, combatendo em condições desconhecidas, foi retido ali por vários anos.

As limitações do poder egípcio e árabe foram mostradas mais decisivamente em uma crise maior ocorrida em 1967, levando o Egito e outros estados árabes a um confronto direto e desastroso com Israel.

Era inevitável que a dinâmica da política nasserista levasse ‘Abd al-Nasser à posição de principal defensor dos árabes no que para a maioria deles era o problema central: o das relações com Israel. A princípio cauteloso na abordagem do problema, em 1955 o governo militar do Egito começara a firmar sua liderança.

Os acontecimentos de 1956 (Crise do Canal de Suez — leia post anterior) e dos anos posteriores transformaram ‘Abd al-Nasser na figura simbólica do nacionalismo árabe, mas por trás disso havia uma certa linha de política egípcia: tornar o Egito líder de um bloco árabe tão estreitamente unido que o mundo externo só pudesse tratar com ele através de um acordo com o Cairo.

A tarefa de agir como líder e porta-voz da causa palestina tinha perigos óbvios, e até 1964 o Egito executou-a com cuidado. Naquele ano, recusou-se a ser atraído a um confronto com Israel sobre os planos israelenses de usar as águas do Jordão para irrigação.

Dessa época em diante, porém, ‘Abd al-Nasser ficou exposto a pressão de todos os lados. Os regimes “conservadores”, com os quais já estava em conflito por causa da guerra civil no Iêmen, afirmavam que sua cautela era um sinal de que ele na verdade não acreditava na causa que devia apoiar. Na Síria, o poder caíra nas mãos de um grupo ba‘thista que achava que só através da revolução social e do confronto direto com Israel se podia resolver o problema da Palestina e criar uma nova nação árabe.

Na teia de relações interárabes tecia-se agora um novo fio. Desde 1948, os próprios palestinos não tinham podido desempenhar um papel independente nas discussões sobre seu destino:

  1. sua liderança desmoronara,
  2. estavam espalhados por vários estados, e
  3. os que haviam perdido casa e trabalho tinham de reconstruir uma nova vida para si.

Só tinham podido desempenhar um papel sob o controle dos estados árabes e com a permissão deles. Em 1964, a Liga Árabe criara uma entidade separada para eles, a Organização para Libertação da Palestina (OLP), mas esta se achava sob controle egípcio e as forças armadas a ela ligadas faziam parte dos exércitos do Egito, Síria, Jordânia e Iraque.

A essa altura, surgia uma nova geração de palestinos, no exílio mas com uma lembrança da Palestina, educada no Cairo ou Beirute e reagindo a correntes de pensamento ali atuantes. Aos poucos, em fins da década de 1950, começaram a surgir dois tipos de movimentos claramente palestinos:

  1. o Fatah, empenhado em manter-se inteiramente independente dos regimes árabes, cujos interesses não eram os mesmos dos palestinos, e em confronto direto com Israel; e
  2. vários movimentos menores, que emergiram dos grupos nacionalistas árabes pró-nasseristas em Beirute e aos poucos passaram para uma análise marxista da sociedade e da ação social, e a crença em que o caminho para a recuperação da Palestina estava em uma revolução fundamental nos países árabes.

Em 1965, esses grupos começavam a empreender ações diretas contra Israel, e os israelenses começavam a retaliar, não contra o Ba‘th sírio, que apoiava os palestinos, mas contra a Jordânia.

Essas ações israelenses não eram simplesmente uma resposta ao que os palestinos faziam, mas nasciam da dinâmica da política israelense. A população de Israel continuara a crescer, sobretudo pela imigração; em 1967, estava em cerca de 2,3 milhões, dos quais os árabes compunham uns 13%.

Seu poder econômico aumentara, com a ajuda dos Estados Unidos, contribuições dos judeus no mundo externo e reparações da Alemanha Ocidental. Também viera escalando a força e a especialização de suas forças armadas, e da força aérea em particular.

Israel sabia-se militar e politicamente mais forte que os vizinhos árabes. Diante da ameaça desses vizinhos, o melhor curso era mostrar sua força. Isso poderia levar a um acordo mais estável do que o que pudera conseguir, mas por trás disso havia a esperança de conquistar o resto da Palestina e terminar a guerra inacabada de 1948.

Todas essas linhas convergiram em 1967. Diante da retaliação israelense contra outros estados árabes, e com informações (que podiam ser infundadas) de um iminente ataque israelense à Síria, ‘Abd al-Nasser pediu às Nações Unidas que retirassem as forças que haviam sido estacionadas na fronteira com Israel desde a guerra do canal de Suez em 1956. Quando se fez isso, ele fechou o golfo de Ácaba aos navios israelenses.

Talvez lhe tenha parecido que nada tinha a perder:

  1. ou os Estados Unidos interviriam no último instante para negociar um acordo político que seria uma vitória para ele,
  2. ou, se chegasse a uma guerra, suas forças armadas, equipadas e treinadas pela URSS, eram suficientemente fortes para vencer.

Seus cálculos poderiam ter se revelado corretos se os Estados Unidos tivessem pleno controle da política israelense, pois havia um movimento dentro do governo americano para resolver o problema pacificamente. Mas as relações entre as grandes potências e seus clientes jamais são simples.

Os israelenses não estavam dispostos a dar ao Egito uma vitória política que não correspondesse ao equilíbrio de poder entre eles. Também nada tinham a perder. Acreditavam que suas forças armadas eram mais fortes, e no caso de um revés inesperado podiam estar certos do apoio dos Estados Unidos. À medida que cresceu a tensão, a Jordânia e a Síria fizeram acordos militares com o Egito.

A 5 de junho de 1967, Israel atacou o Egito e destruiu sua força aérea. Nos poucos dias seguintes, os israelenses ocuparam o Sinai até o canal de Suez, Jerusalém e a parte palestina da Jordânia, e parte do sul da Síria (o Jawlan, ou “colinas de Golan”), antes que um cessar-fogo acertado nas Nações Unidas encerrasse a luta.

A guerra foi um momento decisivo, sob muitos e diferentes aspectos. A conquista de Jerusalém pelos israelenses, e o fato de que os lugares santos muçulmanos e cristãos agora estavam sob controle judeu, acrescentaram outra dimensão ao conflito. A guerra mudou o equilíbrio de forças no Oriente Médio. Ficou claro que Israel era militarmente mais forte que qualquer combinação de estados árabes. Isso mudou a relação de cada um deles com o mundo externo.

O que era, certa ou erroneamente, encarado como uma ameaça à existência de Israel despertou simpatia na Europa e América, onde as lembranças do destino judeu durante a Segunda Guerra Mundial ainda eram fortes. A rápida vitória israelense também tornou Israel mais desejável como aliado aos olhos dos norte-americanos.

Para os estados árabes, e sobretudo o Egito, o que acontecera fora em todos os sentidos uma derrota que mostrava os limites de sua capacidade militar e política. Para a URSS, foi também uma espécie de derrota, mas uma derrota que deixou os russos mais decididos a impedir que seus clientes incorressem em outra da mesma magnitude. Em um nível muito profundo, a guerra deixou sua marca em todos no mundo que se identificavam como judeus ou como árabes, e o que fora um conflito local tornou-se mundial.

O resultado mais importante em longo prazo foi a ocupação israelense do que restava da Palestina árabe: Jerusalém, Gaza e parte ocidental da Jordânia (geralmente conhecida como “Margem Ocidental”). Mais palestinos tornaram-se refugiados, e mais caíram sob o domínio israelense. Isso fortaleceu o senso de identidade palestina, e a convicção entre eles de que no fim só podiam contar consigo mesmos.

Também colocou um problema para os israelenses, estados árabes e grandes potências.

  • Devia Israel continuar ocupando o que conquistara, ou negociar a terra por algum tipo de acordo pacífico com os estados árabes?
  • Devia haver algum tipo de entidade política para os palestinos?
  • Como podiam os estados árabes recuperar a terra que tinham perdido?
  • Como podiam as potências conseguir um acordo que não resultasse em outra guerra, à qual podiam ser arrastadas?

É possível que alguma iniciativa dos vencedores abrisse o caminho para a resposta a algumas dessas questões. Mas a iniciativa não veio, talvez porque levou algum tempo para que os israelenses digerissem os resultados de uma vitória tão súbita e completa.

Os palestinos, vendo-se em sua maioria unidos sob domínio israelense, exigiram uma existência nacional separada e independente.

Os israelenses começaram a administrar as terras conquistadas praticamente como partes de Israel. O Conselho das Nações Unidas finalmente conseguiu em novembro chegar a um acordo sobre a Resolução 242, por cujos termos haveria paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas, Israel se retiraria dos territórios que tinha conquistado, e se cuidaria dos refugiados.

Mas houve desacordo sobre o modo como isso devia ser interpretado: se os palestinos deviam ser encarados como uma nação ou uma massa de refugiados individuais. Os chefes de estados árabes adotaram sua própria resolução em uma conferência realizada em Cartum, em setembro de 1967: nenhum reconhecimento das conquistas israelenses e nenhuma negociação. Também aqui, porém, poderia haver interpretações diferentes: para o Egito e a Jordânia pelo menos, o caminho ainda estava aberto para um acordo negociado.

Ataque israelita

‘Abd al-Nasser viveu mais três anos após a sua derrota. A posição dele no mundo árabe fora seriamente abalada por ela. Suas relações com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha azedaram com a acusação, na qual ele acreditava, de que eles haviam ajudado militarmente Israel durante a guerra, e pela insistência americana em que Israel só se retiraria dos territórios conquistados em troca da paz.

A posição de Nasser em relação a outros governantes árabes foi enfraquecida quando as limitações de seu poder se tornaram claras. Um dos resultados imediatos da guerra de 1967 foi que ele reduziu suas perdas no Iêmen e fez um acordo com a Arábia Saudita pelo qual retiraria suas forças.

Dentro do Egito, porém, a posição de ‘Abd al-Nasser continuou forte. No fim da fatídica semana de junho de 1967 ele anunciou sua renúncia, mas isso provocou generalizados protestos no Egito e em outros países árabes, talvez devido a uma habilidosa organização, mas talvez por um sentimento de que sua renúncia seria uma derrota e humilhação maiores.

O domínio que ele tinha sobre o sentimento popular em outros países árabes também continuou forte. Tanto por sua estatura quanto pela reconhecida posição do Egito, ele era o intermediário indispensável entre os palestinos e aqueles entre os quais eles viviam.

Nos anos seguintes a 1967, o crescimento do sentimento nacional palestino e a força crescente do Fatah, que controlou a OLP a partir de 1969, levaram a:

  1. vários incidentes de ação guerrilheira contra Israel, e
  2. represálias israelenses contra as terras onde os palestinos tinham alguma liberdade de ação.

Em 1969, a intervenção egípcia propiciou um acordo entre o governo libanês e a OLP, estabelecendo os limites dentro dos quais a OLP teria liberdade de ação para operar no sul do Líbano. No ano seguinte, 1970, irrompeu uma séria luta na Jordânia entre o exército e grupos de guerrilha palestinos, que pareciam a ponto de tomar o poder no país. O governo jordaniano conseguiu impor sua autoridade e acabar com a liberdade de ação dos grupos palestinos, e mais uma vez foi a mediação de ‘Abd al-Nasser que fez a paz entre eles.

Imediatamente após isso, ‘Abd al-Nasser morreu de repente. As cenas extraordinárias em seu funeral, com milhões chorando nas ruas, certamente significavam alguma coisa. Pelo menos no momento, era difícil imaginar o Egito ou o mundo árabe sem ele. Sua morte foi o fim de uma era de esperança de um mundo árabe unido e renovado.

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