Crédito em Desaceleração – Funding Desnecessário

Crédito por origem de capital 1996-2015Captações X CréditoCaptação em 2015Letra Financeira set 2014-15Número de agências 2010-15

Quando não há perspectiva de uma retomada do crédito, os bancos brasileiros freiam a captação de recursos no mercado local. Houve também uma mudança na composição do funding, com um ganho de velocidade da emissão de Letras Financeiras, instrumento voltado para investidores institucionais, que conta com um prazo mínimo de dois anos. Diante da fraca demanda por crédito e do aperto no orçamento das famílias, a aposta das instituições financeiras é que essa tendência prossiga.

Ao todo, considerando os diversos tipos de instrumentos, o saldo dos recursos captados pelos bancos no país cresceu apenas R$ 25 bilhões nos primeiros nove meses de 2015, com base nos balanços mais recentes das instituições e dados do Banco Central, BM&FBovespa e Cetip. Era uma fração do que foi captado em todo o ano de 2014, quando o funding local aumentou em R$ 275 bilhões. Como grande parte desse estoque é valorizado a uma taxa equivalente à Selic, na prática, os bancos mais tiveram saques do que captaram dinheiro novo dos clientes.

A conta inclui desde recursos obtidos com Certificados de Depósitos Bancários (CDB) e poupança até as operações compromissadas, depósitos judiciais e letras de crédito e financeira. Todo esse universo de instrumentos totaliza um estoque próximo de R$ 2,2 trilhões em recursos captados de clientes no país, já descontada a parcela que fica retida no BCB, devido ao recolhimento compulsório. O funding total, incluindo emissões externas, é da ordem de R$ 4 trilhões.

A redução das captações é reflexo direto do maior aversão ao risco dos bancos para emprestar. Como o crédito não cresce, parte dos recursos dos clientes é direcionada para fundos de investimento. A demanda de investidores institucionais, incluindo as gestoras de fundos que pertencem aos próprios bancos, pelas Letras Financeiras, tem colaborado para o crescimento mais rápido desses papéis mesmo em um cenário de desaceleração das captações.

Em novembro de 2015, o saldo de Letras Financeiras era de R$ 421 bilhões, um aumento de 20,5% em relação ao mesmo mês do ano de 2014, segundo dados da Anbima, associação que representa as instituições que atuam no mercado de capitais.

Ao mesmo tempo, fontes mais tradicionais de dinheiro para os bancos têm perdido recursos, uma vez que o aperto crescente no orçamento das famílias diminui a capacidade de investir sobra de renda. A subida da taxa básica de juros (Selic) também torna menos atraente o rendimento dessas aplicações, contribuindo para aumentar os resgates de depósitos de poupança e outros investimentos financeiros.

É o caso da caderneta de poupança, cujo saldo apresentava redução de 3% até novembro de 2015, depois de acumular resgates de R$ 58 bilhões durante o ano. A mesma tendência ocorre com os certificados de depósito bancário (CDB), cujo estoque também caía 3% até novembro. Mas o maior impacto da estratégia dos bancos de diminuir a captação no varejo ocorreu nos depósitos à vista (o dinheiro cujo saldo está registrado na conta corrente), que tiveram uma redução de 22% no saldo desde o fim do ano de 2014.

Como se espera que o crescimento do crédito seja bem reduzido, então não há necessidade de funding. Ao mesmo tempo, os bancos têm se mantido bastante líquidos. O crescimento da Letra Financeira é uma forma de os bancos alongarem o prazo médio de suas captações, além de acabar reduzindo a participação de fontes de varejo na captação em prol de investidores institucionais. Nas contas da Moody’s, a participação de instrumentos de captação de varejo no funding dos bancos recuou de 68% em 2011 para 61% em 2015.

Há uma relação entre o alongamento de prazo da captação e a migração de recursos para fundos de investimento. Segundo a Anbima, o patrimônio dos fundos de investimento do país aumentou em R$ 283 bilhões até novembro de 2015 – bem acima da captação bancária.

O Banco Central (BC) ampliou os prazos mínimos de resgate das Letras de Crédito, o que acabou direcionando para o CDB quem queria investir sem abrir mão de liquidez.

No conjunto de siglas que compõem a captação bancária brasileira, a grande novidade nos últimos anos foi a participação crescente das Letras Financeiras e das Letras de Crédito. Embora esse cenário tenha se mantido em 2015, houve uma clara preferência dos bancos em emitir letras financeiras (LF), o que acabou fazendo com que as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) perdessem parte da atração que mostravam até então.

Em novembro de 2015, o saldo de Letras Financeiras era de R$ 421 bilhões, o que representava um aumento de 20,5% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo a Anbima. Entre novembro de 2013 e 2014, o estoque de letras financeiras crescia a 10,8%.

A Letra Financeira foi criada em 2009, logo após a crise financeira do ano anterior. Até então, praticamente todo o funding local dos bancos brasileiros tinha liquidez diária. Como forma de estimular o novo instrumento, que possui prazo mínimo de dois anos, o Banco Central (BC) isentou a captação com as letras do recolhimento do depósito compulsório. Os recursos também não estão sujeitos à contribuição ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Ambos os benefícios ajudam a compensar a taxa mais elevada exigida pelo investidor em troca da liquidez mais restrita.

Entre os maiores bancos do país, o Santander foi quem mais aumentou a captação com o instrumento. Em setembro de 2015, o banco tinha R$ 52,7 bilhões em letras financeiras, com alta de 55% na comparação com o mesmo mês de 2014. O Bradesco também apresentou uma forte expansão na emissão de letras, de 50%, para R$ 74,6 bilhões. Nos maiores bancos públicos, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, houve também crescimento do uso de Letras Financeiras.

Apenas o Itaú Unibanco diminuiu o uso de Letras Financeiras em 2015. O maior banco privado do país possuía no balanço do fim do terceiro trimestre um total de R$ 33,5 bilhões em captações com o instrumento, com queda de 12% ante setembro do ano anterior. Porém, o banco emitiu um grande lote desses papéis em outubro de 2015, algo em torno de R$ 12 bilhões, o que fez a inverter a curva no ano.

Embora cresçam em velocidade superior à da Letra Financeira, as captações com Letras de Crédito arrefeceram o avanço em 2015. Houve crescimento de 30,3% no saldo de LCI até novembro, para R$ 199,7 bilhões, e de 29,6% da LCA, para R$ 192 bilhões. Os dois instrumentos, porém, cresciam a uma taxa superior no mesmo período do ano anterior, de 63% e 31,3%, respectivamente. Os dados combinam emissões registradas na Cetip e na BM&FBovespa.

Nos últimos meses de 2015, o estoque das Letras de Crédito se estabilizou. Apesar da demanda por esse tipo de papel, o lastro estava mais escasso, uma vez que a capacidade de originação dos bancos está reduzida. Parte do crescimento das Letras Financeiras deveu-se à migração de investidores institucionais que estavam aplicados em CDBs e acabaram indo para um papel mais adequado ao seu perfil ao longo dos últimos anos.

A atratividade da LCI e da LCA ficaria ainda menor se as mudanças na tributação dos investimentos, que estavam em discussão no Senado, acabassem com a isenção de imposto de renda para pessoas físicas. Com o fim do benefício fiscal, havia um consenso entre analistas de que o custo de captação dos bancos deveria subir. Isso porque uma parte do benefício tributário do investidor é “dividido” com os bancos, que emitem os papéis a taxas mais baixas do que os instrumentos que não contam com a isenção. Porém, o ex-presidente do BRAM (Administração de Recursos de Terceiros do Bradesco) tornou-se ex-Ministro da Fazenda, então, o interesse em tal mudança foi dispersado.

A proposta também poderia afetar outras modalidades de captação, na medida em que mudasse regras de tributação de instrumentos como o CDB e a Letra Financeira em função do seu prazo. Porém, uma vez que a demanda por financiamento estava fraca, não havia sentido em pagar caro aos clientes para ampliar a captação de recursos, independentemente do instrumento.

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