Poder Dinástico Árabe

rebelde árabe

No posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, escrito por Malise Ruthven em 2002, pois o autor Albert Hourani faleceu em 1993, trata-se da década decorrida após a publicação da primeira edição deste livro.

Testemunhou-se muitos eventos dramáticos e significativos:

  1. a invasão do Kuwait pelo Iraque em agosto de 1990, seguida pela operação Tempestade no Deserto;
  2. uma encarniçada guerra civil na Argélia que talvez tenha custado cem mil vidas;
  3. a unificação dos dois Iêmen;
  4. a morte de três “grandes veteranos” da política árabe: o rei Hussein da Jordânia, em fevereiro de 1999, o rei Hasan do Marrocos, em julho de 1999, e o presidente Hafez al-Asad da Síria, em junho de 2000, todos sucedidos por seus filhos;
  5. a criação da Autoridade Palestina em Gaza e partes da Cisjordânia ocupadas por Israel, conforme os acordos pioneiros de Oslo, assinados pelo primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin e Yasser ‘Arafat, presidente da Organização para a Libertação da Palestina, nos jardins da Casa Branca, em Washington, D.C.;
  6. o assassinato de Rabin por um extremista judeu e o desmonte desses mesmos acordos em 2002, depois do segundo levante palestino e da reação militar de Israel.

Porém, o mais dramático de todos os eventos recentes, em termos de cobertura da mídia, se não pelo cálculo de perdas e sofrimentos humanos, foram os ataques a Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001, que causaram mais de três mil mortes, as baixas mais pesadas sofridas em consequência de um ato beligerante em território americano desde o final da Guerra da Secessão.

Todos os dezenove suspeitos dos sequestros suicidas que jogaram três jatos comerciais cheios de passageiros e combustível contra o World Trade Center, em Manhattan, e o edifício do Pentágono, perto de Washington, eram árabes, quinze deles da Arábia Saudita. Todos tornaram-se suspeitos de terem sido treinados pela rede da al-Qaida (“base” ou “fundação”) criada e presidida pelo dissidente saudita Osama bin Laden.

Albert Hourani, falecido em 1993, possuía uma compreensão aguda do legado comum de religião e consciência histórica que mantém os povos árabes unidos e das diferenças ideológicas e forças estruturais que continuam a dividi-los. No prólogo deste livro e em várias seções do texto, Hourani presta homenagem a Ibn Khaldun (1332-1406), o filósofo árabe da história cuja teoria da renovação cíclica e cujo conceito de ‘asabiyya — “um espírito corporativo orientado para a obtenção e manutenção do poder” — ainda proporcionam uma moldura útil para pensar os eventos contemporâneos.

Na teoria de Ibn Khaldun, a primeira forma de sociedade humana foi a dos valentes e vigorosos povos das estepes e das montanhas, na qual a autoridade estava baseada nos laços de parentesco e coesão social — ‘asabiyya. Um governante com ‘asabiyya estava em boas condições de fundar uma dinastia, uma vez que os habitantes urbanos careciam dessa qualidade.

Quando o domínio dinástico fosse estável e próspero, a vida na cidade floresceria. Mas na época de Ibn Khaldun, cada dinastia trazia consigo as sementes de seu declínio, pois os governantes degeneravam em tiranos ou eram corrompidos pela vida de luxo. No tempo devido, o poder passaria para uma nova casta de governantes-guerreiros da periferia.

Em sua aplicação mais ampla, a teoria de Khaldun, tal como interpretada por Hourani, ainda pode nos propiciar insights significativos, apesar do choque cultural maciço sofrido pelo mundo árabe-muçulmano com a dominação europeia, a começar pela conquista francesa da Argélia, na década de 1830 e culminando com o colapso do império otomano, em 1918.

Hourani observa que no período pós-colonial, desde o começo da década de 1960, houve pouquíssima mudança na natureza geral da maioria dos regimes árabes ou na direção de suas políticas: na Arábia Saudita, nos países do golfo Pérsico, na Jordânia, na Tunísia e no Marrocos, não houve mudança substancial por mais de uma geração. Na Líbia, na Síria e no Iraque, as castas que estavam no poder por volta de 1970 mantiveram o controle ao longo dos anos 80 e 90.

Esse grau de continuidade política parece paradoxal se levarmos em conta as mudanças extraordinariamente rápidas e o grau de turbulência social sob a superfície:

  1. a explosão populacional,
  2. o ritmo acelerado da urbanização,
  3. a ampliação do transporte motorizado,
  4. a transformação do campo,
  5. as mudanças demográficas que inclinaram a balança para o lado da juventude, e
  6. as contínuas irrupções de conflitos armados na região, do Saara Ocidental à Palestina e ao golfo Pérsico.

Não obstante, à luz dos acontecimentos turbulentos da década passada, a explicação de Hourani ainda se sustenta. Tomando e adaptando uma ideia de Ibn Khaldun, podia-se sugerir que a estabilidade de um regime político dependia de uma combinação de dois fatores. Era estável:

  1. quando uma casta guerreira-governante coesa podia ligar seus interesses aos de outras castas como as de comerciantes e sábios-sacerdotes, também poderosas na sociedade, e
  2. quando essa aliança de interesses se expressasse em uma ideia política que tornasse legítimo o poder dos governantes aos olhos da casta dos trabalhadores e dos párias, ou pelo menos de uma parte significativa da sociedade.

A coesão dos regimes depende agora de fatores como:

  1. cultos de personalidade disseminados por meio da mídia visual e
  2. presença ubíqua dos serviços de informação e segurança — instrumentos que não estavam à disposição das castas dos guerreiros-governantes do passado.

Além disso, na maioria dos países, o poder do governo estende-se agora às partes mais remotas do interior, onde seu domínio era outrora fraco ou praticamente ignorado. Mas na moderna política árabe, a ‘asabiyya da casta dinástica-governante ainda é um fator importante e talvez crucial na aquisição e manutenção do poder.

Continua em próximo post.

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