Radicalismos (por Angela Alonso)

Angela Alonso FFLCH-USPGostei do artigo de estreia de Angela Alonso na “Ilustríssima” (FSP, 10/04/16). Ex-professora de meu filho, ela é do Departamento de Sociologia da USP e presidente do Cebrap. É autora de ‘Flores, Votos e Balas’ (Companhia das Letras, 2015). Neste (mau) tempo de predominância de colunistas direitistas, ela é bem vinda como contraponto. Compartilho o artigo dela abaixo.

“O feminismo é um câncer.” “O Holocausto realmente aconteceu?” Frases nesta linha saíram da boca, ou melhor, do Twitter de Tay. Você não sabe quem é? Não tem importância, Tay já não existe. Viveu míseros quatro dias. Era um robô interativo da Microsoft, criado para se comunicar com o público jovem. Morreu graças a seu sucesso.

A empresa sacrificou Tay por conta de sua empatia com usuários do Twitter, em cuja convivência se converteu em racista, xenófoba, machista, isto é, em eleitora potencial de Donald Trump ou Jair Bolsonaro.

Tay serviu de esponja e espelho para fenômeno em alta: a radicalização de posições políticas. As novas tecnologias circulam juízos peremptórios e informações sem checagem. Como na vida “real”, laços virtuais se constroem entre os assemelhados em opiniões, aspirações, gostos. Mimetismo de “likes” e “shares” instantâneos, ânsia de pertencimento que suprime o raciocínio complexo, apostos e adversativas – quem se aventura incorre num pecado, o “textão”. O alarido é por apreciação definitiva, a favor ou contra, sem meio-tom.

A radicalização política cria cercas de arame farpado no mundo virtual como naquele estrangeiro a Tay, o da convivência face a face, em carne e osso. E derrama sangue – Paris e Bruxelas, Turquia e Paquistão o testemunham. No Brasil, produz tensão que se apalpa com os dedos.

Radicalização” está longe de ser termo unívoco. Basta ir ao “Aurélio” – digo, ao Google. O radical do século 19 ficava à esquerda dos liberais: pró-reformas igualitárias e uso cirúrgico da violência, como pregavam os anarquistas de que trata Benedict Anderson no livro “Sob Três Bandeiras: Anarquismo e Imaginação Anticolonial“. Radicais por contraponto ao outro lado da balança, tão saliente na vida brasileira, o conservadorismo.

Mas ser radical também é ir à raiz. Antonio Candido, em ensaio chamado justo “Radicalismos”, comenta grandes do pensamento brasileiro –Manuel Bonfim, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda– que desvelaram os alicerces de nossa formação social.

Radicais do pensamento, como esses, privilegiam o diagnóstico acurado das causas dos problemas, ao passo que os radicais da ação, o objeto de Anderson, vão logo às vias de fato. Qual desses tipos grassa no Brasil hoje? Dispensa esforço detectar a engorda dos radicais da ação e a anemia dos radicais do pensamento.

Nos protestos pró-governo ressurgiu ativista que parecia morto como Tay, o radical de esquerda. Voltou sua estética, sua imagética, suas palavras de ordem, sua orientação distributivista. Mas sem o distintivo, segundo Candido, dos radicais clássicos: a originalidade de diagnóstico e prognóstico.

Se neste lado há escassez, no outro, há penúria de pensamento novo. Domina a opinião pública hoje este tipo paradoxal, espécie de oximoro: o radical de direita. Seu ar da graça se deu em faixas chulas e pueris em protestos que extrapolaram o ataque ao governo e à pessoa da governante, para incidir sobre direitos adquiridos e liberdades individuais.

Você o conhece: vocifera em programas de TV, blogs, ruas, incapaz de tolerar os distintos de si, seja em gênero, classe, raça, orientação sexual, religiosa ou partidária. Na sua lógica, o diferente é um desclassificado, cuja existência ofende. Alguém com quem não pode conviver e que quiçá possa eliminar, numa materialização dos reality shows.

Essa indigência da ação tampouco acha estofo no pensamento. Esses radicais – ou liberais, como sua versão mais culta preferiria– estão a dever uma exposição apurada dos fundamentos de suas posições. Faltam análises sofisticadas, dignas do contraponto com Sérgio Buarque, ou que honrassem um Oliveira Vianna.

Multiplicam-se os raciocínios chinfrins, vez ou outra embalados em erudição –inclusive em artigos neste jornal. Simplificação extrema do pensamento escancarada por jovens incautos o bastante para explicitar o maniqueísmo – caso do mocinho que declinou seu modelo norteador: os Power Rangers.

É uma intolerância singela “contra-tudo-que-está-aí”. Raciocínio de prazo e perna curtos que impede de avistar o “tudo-o-que-está-por-vir”.

Estes novos radicais de direita, qual Tay, apenas destilam bílis. À diferença dos de esquerda, desconhecem liderança. São criaturas antes miméticas que reflexivas, mas aptas a se rebelar contra seus criadores. Tay o fez: achacou a Microsoft sem clemência. E, ao contrário do robô da Microsoft, os nossos têm um defeito de fabricação: carecem do botão de desligar.”

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