Luta Pan-Islâmica: Jihad contra a Insubmissão (ou Paganismo) do Ocidente

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O posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, cujo falecido autor foi Albert Hourani, foi escrito Malise Ruthven em 2002. Desde então, a situação política de alguns dos países citados se modificou.

Mas Ruthven comenta que “não se pode esperar que um historiador tenha êxito ali onde os serviços de inteligência do Ocidente fracassaram de forma tão espetacular”. Mas o leitor atento terá encontrado no relato que Hourani faz da situação delicada dos árabes modernos muitas “sinalizações na estrada” para o 11 de setembro.

A “vanguarda de combatentes dedicados” queria promover a jihad “não apenas para defesa, mas para destruir todo culto de falsos deuses e remover todos os obstáculos que impediam os homens de aceitar o Islã” encontrou sua realização nos movimentos islamistas que brotaram primeiro no Egito e, depois, em todo o mundo muçulmano.

A jihad contra os russos (após a invasão do Afeganistão em 1979), apoiada pela Arábia Saudita, os países do golfo Pérsico e os Estados Unidos, com fundos e armamentos canalizados através da inteligência militar paquistanesa, foi o catalisador que fundiu vários milhares de voluntários do Egito, da Arábia Saudita e do norte da África em uma poderosa força de combate que resistia à “guerra ao terrorismo” liderada pelos americanos no Afeganistão.

Para os seguidores extremistas, a jihad contra a nova jahiliyya (ignorância, insubmissão ou paganismo) representada pelo Ocidente faz parte de uma luta pan-islâmica. Pelo menos um dos grupos que participa da rede da al-Qaida pretende que a luta leve à restauração de um califado universal!

Embora a jihad contra os russos tenha atraído voluntários de todas as partes do mundo muçulmano, o cerne do movimento foi recrutado no mundo árabe e foram os árabes (os assim chamados “afegãos-árabes”) que predominaram nessa nova vanguarda extremista.

Depois da retirada soviética do Afeganistão, em 1989, esses mujahdin temperados pela batalha voltaram a atenção para outras regiões onde, de acordo com suas análises, os muçulmanos estavam lutando contra as forças da nova jahiliyya, representada por governos antimuçulmanos, pró-ocidentais ou seculares.

Alguns desses lugares, como a Caxemira, a Bósnia, o sul das Filipinas e a Somália, estavam linguística e culturalmente distantes dos centros árabes-muçulmanos. Mas em pelo menos três regiões importantes — Egito, Argélia e península Arábica — o retorno dos afegãos-árabes levou a um aumento significativo do nível de violência dirigido contra o governo ou contra aqueles percebidos como seus protetores estrangeiros.

A Arábia Saudita e o Iêmen testemunharam sofisticados ataques terroristas contra pessoal militar dos Estados Unidos e o navio de guerra americano Cole. No Egito, turistas foram atacados com o objetivo de prejudicar a economia com o estancamento do fluxo de moeda estrangeira. Na Argélia, houve uma escalada no grau de violência depois que o exército interveio para evitar que o principal partido islâmico — a Frente de Salvação Islâmica — ganhasse o segundo turno das eleições para a Assembleia Nacional, marcadas para janeiro de 1992.

No momento em que Ruthven escrevia estas linhas, a “guerra ao terrorismo” declarada pelos Estados Unidos na esteira dos ataques de 11 de setembro desenvolvia-se sob a pressão de suas contradições internas. O regime talibã patrocinado pelos sauditas no Afeganistão, que ofereceu proteção à al-Qaida, foi derrubado pela ação militar americana e substituído por um governo interino simpático aos interesses ocidentais.

Mas a retórica maniqueísta do presidente George W. Bush, insistindo que o mundo todo, inclusive os árabes-muçulmanos, deveria participar da cruzada contra o terrorismo, foi interpretada pelo governo de coalizão do primeiro-ministro Ariel Sharon como uma luz verde para Israel retomar as cidades palestinas desocupadas pelos Acordos de Oslo, a fim de expulsar, matar ou levar à justiça as facções palestinas responsáveis pela escalada dos atentados suicidas contra civis israelitas.

Na crise crescente da Palestina, a opinião árabe voltou-se avassaladoramente contra os Estados Unidos: as atrocidades do 11 de setembro foram esquecidas diante do choque provocado pelas imagens dos tanques de Israel entrando em acampamentos e cidades palestinas, reduzindo-as a escombros e enterrando os corpos de árabes.

No final de março de 2002, antes da entrada dos tanques israelitas em todos os territórios controlados pela Autoridade Nacional Palestina, conforme os Acordos de Oslo, a Liga Árabe havia tomado por unanimidade a decisão historicamente importante de reconhecer e “normalizar” as relações com Israel (inclusive com intercâmbio de diplomatas, comércio e turismo) em troca da devolução aos palestinos dos territórios (com alguns pequenos reajustes) ocupados por Israel na guerra de 1967.

Mas após as novas incursões israelitas, as perspectivas de um acordo dentro dessas linhas pareciam mais longínquas do que nunca. O verdadeiro beneficiário dessa nova escalada da crise entre Israel e os árabes foi o Iraque: no novo clima polarizado, nenhum governo árabe poderia se arriscar a cooperar numa campanha contra o “terrorismo” iraquiano liderada pelo principal aliado e suporte de Israel, os Estados Unidos.

Uma solução do conflito palestino, que durava mais de meio século, não resolveria em si mesma os problemas de legitimidade e autoritarismo que ainda afligiam os povos árabes e seus governos. Mas ela teria o potencial de transformar uma ferida aberta no coração do mundo árabe-muçulmano e em sua consciência em uma formidável fonte de regeneração econômica e social.

Continua em próximo post.

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