Porque me envergonho do PIB — Perfeito Idiota Brasileiro

PIB - Perfeito Idiota Brasileiro

Escutando as declarações de votos dos deputados brasileiros (e olhando suas tristes figuras) ficou mais claro um dos problemas do país, que se acentua cada vez mais: a crescente rejeição de jovens talentosos a entrar na vida pública ou mesmo a acompanhá-la. Isso seria o que era chamado de idiotice no sentido que os antigos gregos emprestavam ao termo. A palavra idiota vem do grego idiótes, expressão usada para designar quem não participava da vida política, considerada atividade suprema e nobre.

Entretanto, essa atividade no Brasil virou uma profissão de oportunistas despreparados que não enobrece ninguém, pelo contrário, envergonha ao cidadão democrata, que opta por ficar “isentão”. Os deputados confirmam a concepção psicológica do idiota: aquele que não tem consciência do mal que faz a si próprio e aos outros.

Ao ver os deputados, que votam em nome da TFPTradição (o lugar de seu curral eleitoral), Família (sua dinastia) e Propriedade (Boi-Bíblia-Bala-Bola) — e não da democracia, vemos como o povo é mal educado para elegê-los. Eles expõem, cinicamente, um falso moralismo ao pregar algo que não praticam: deveres da cidadania como a honestidade, a ética e o estudo.

Os deploráveis “representantes do povo” que estão no Congresso de fato constituem uma amostra representativa desse povo? Em termos da teoria da probabilidade, não. Basta verificar o contraste entre os perfis socioeconômicos. Talvez em termos culturais

Mas por que os eleitores brasileiros votam nesses políticos profissionais idiotas?! Por idiotia. Lamentavelmente.

O povo mal vai às escolas. Quando vai, pouco estuda. Muitas vezes estuda só o mínimo suficiente para conseguir um diploma, não para ampliar o conhecimento intelectual e a reflexão crítica sobre a realidade em que vive. Senão, jamais votaria em tais deputados idiotas.

Quando vê TV, assiste a Globo ou canais piores. Quando folheia uma revista, em sala-de-espera, é Veja ou Caras-e-Bundas…

Assim, como comenta Glenn Greenwald, morador do Rio e jornalista premiado nos EUA e no Brasil pela cobertura das revelações de Edward Snowden, o cidadão brasileiro não sabe que “a mídia global está reportando a crise de maneira radicalmente diferente do que o círculo Globo/Abril dominante no Brasil”.

New York Times, Wall Street Journal e Washington Post, os três principais jornais americanos, destacaram nesta reta final reportagens enfatizando as denúncias contra os líderes do movimento para derrubada de Dilma: Eduardo Cunha e Michel Temer. Em sua home page e na primeira página, o “NYT” trouxe reportagem sobre os casos “que observadores dizem que são mais sérios do que as acusações feitas contra ela”. O “WSJ” se concentrou em Cunha, também com foto, enfatizando que o “político que lidera ataque para impedir Dilma Rousseff” foi, ele próprio, “indiciado”. Já o “WP” foi explicativo, também com atenção na home page: “Veja aqui por que algumas pessoas pensam que o Brasil está no meio de um golpe ‘soft’“.

Os três seguem o Los Angeles Times, que já havia alertado que “os políticos votando para impedir a presidente do Brasil são acusados de mais corrupção do que ela”. O mesmo “LA Times” já chama a atenção para o que vem por aí, com “a crise da democracia”, dado o golpe ou não.

manifestante palhaço

Aqui tem de se catar com lupa colunistas que merecem leitura, pois publicam análises sérias para reflexão. Neste momento de luto pela Democracia, que me leva a pensar em desistir de continuar com este modesto blog de compartilhamento de conhecimentos, apresento abaixo três exceções à regra do conservadorismo medíocre, cujos artigos foram publicados na FSP (17/04/16).

Jânio de Freitas – Outra Vez

“Chegamos a mais uma encruzilhada. Vem de longe a motivação mais profunda que aí nos põe: democracia não é para qualquer um, e o Brasil não tem aptidão para vivê-la. É historicamente inapto, como provam suas poucas e vãs tentativas.

A democracia exige certo refinamento. Sua difícil construção exige, para os passos iniciais que jamais completamos, algum desenvolvimento mental da minoritária camada da sociedade que detém os instrumentos de direção do todo; e, para levá-lo a resultados razoáveis, alguma qualidade moral, a que podemos até chamar de caráter, dessa camada.

A ridícula industrialização do Brasil só se iniciou de fato mais de 450 anos depois da chegada dos mal denominados colonizadores. Assim espelha bem a combinação de avareza e preguiça, mental e física, da classe que sempre preferiu, e prefere ainda, amontoar patrimônio a ter de trabalhar no possível investimento em produção, em crescimento, em inovação.

Daí os monstros de concreto que são nossas cidades, destino imobiliário dos resultados com a fácil exploração de mão de obra na lerdeza da agricultura e da pecuária, na mineração, no açúcar e no café. Depois, o máximo da modernidade, nas ações de uma Bolsa cujo número insignificante de empresas figurantes atesta a outra insignificância, a do próprio empresariado brasileiro.

Estamos na décima situação de golpe, consumado ou não, só no tempo de minha vida (…). Apenas uma teve raízes fora da minoritária camada que dirige o todo. Foi a de 1935, quando Prestes precipitou uma quartelada desastrosa, que levou ao retorno absoluto do velho poder. Na décima, já seria para ter me acostumado. Nem de longe.

É no mínimo indecente que um processo de impeachment seja conduzido por quem e como é conduzido, já desde o seu primeiro ato como chantagem e vingança.

É no mínimo indecente o conluio, com a indecência anterior, do partido que representa a cúpula social e econômica do país e, sobretudo, de São Paulo.

É no mínimo indecente que, “ao se propor o impeachment sem cumprir os requisitos constitucionais de mérito” –palavras “em defesa da democracia” dos reitores das universidades federais–, se falsifique como crime uma prática contábil também de presidentes anteriores. E nunca reprovada. Por isso mesmo posta, desta vez, sob o apelido pejorativo de “pedaladas”, para ninguém entender.

É tão legítima a operação do pretendido impeachment que têm sido de madrugada as reuniões em que o presidente da Câmara, na sua casa, articula tanto para derrubar a presidente como para salvá-lo no Conselho de Ética.

A votação da Câmara logo mais ainda não é decisiva, se vitorioso o impeachment. Mas, até onde se percebe, deverá ser suficiente para dar início a preliminares de fermentação social que o governo seguinte, com o que pretende, só fará agravar.

Até onde é a nova incógnita brasileira. O que, aliás, nem está questionado pela minoritária camada que dirige o todo. O que busca é esse domínio livre de divisão e contestação, exercido com os seus políticos de mãos falsamente limpas.”

Dilma puta

Bernardo Mello Franco – O Voto Não É Um Detalhe

“Às vésperas da Copa de 1994, o técnico Carlos Alberto Parreira declarou que o gol era só um detalhe. A frase espantou os torcedores –afinal, o gol é o momento que mais importa no futebol. Apesar de Parreira, a seleção conquistou o tetracampeonato mundial.

Na discussão do impeachment, os políticos têm falado muito em cargos, verbas, lealdades e traições. Poucos se lembram do eleitor, que expressou sua vontade nas urnas e agora vive num país paralisado pela disputa extemporânea de poder.

Na democracia, o voto não é só um detalhe. Dilma Rousseff está na Presidência porque foi reeleita por 54.501.118 brasileiros em 2014. Como diz o comentarista, a regra é clara: governa quem recebe mais votos. A interrupção do mandato presidencial é uma punição mais grave que um cartão vermelho. Só deve ser aceita no jogo quando há prova clara de crime de responsabilidade.

O impeachment não pode ser um atalho para chegar ao poder sem o voto popular. Nem por vices que desejam mudar de cadeira, nem por candidatos derrotados nas urnas. Governantes ruins devem ser enxotados pelo povo na eleição seguinte. Este era o caminho mais provável de Dilma e do PT, que cavaram juntos o buraco da recessão.

Nos últimos tempos, passamos a ouvir que o país não pode esperar até 2018. “A economia não aguenta”, repetem os porta-vozes do impeachment. Curiosamente, eles não costumam perguntar se a democracia brasileira aguenta mais uma ruptura do calendário eleitoral.

Seja qual for a decisão da Câmara hoje, um dos piores legados desta crise será a ideia de que o voto não basta. Os próximos presidentes assumirão sem a certeza de que ficarão quatro anos, como estabelece a Constituição. Quando o Congresso quiser, e a maioria do empresariado apoiar, o caminho para derrubar o governo estará aberto. Encontrar uma fundamentação legal, como as pedaladas, será só um detalhe.”

Batman tapuia

Bernardo Carvalho – Jogando para a Plateia

“Por que, agora, quando quero saber de um fato, leio uma coluna de opinião? Será simplesmente porque os jornais estão cheios delas? Ou porque a internet e as redes sociais nos viciaram nisso? (Não participo de redes sociais.) Ou será porque os fatos nunca estiveram tão descaradamente editorializados? Ou porque a coluna de opinião é pelo menos uma referência subjetiva identificável (sei quem está falando e por quê) em meio à falsa objetividade da guerra de propaganda em que se converteu a mídia?

O que atravanca a leitura do supostamente objetivo é o não dito. Ninguém gosta de ser enganado. E embora até a letra da lei esteja sujeita a opinião e interpretação, ainda há fatos incontestáveis. Não espanta que a um ministro do STF só reste exclamar “Meu Deus!”, sem saber que está sendo gravado, ao constatar a alternativa de governo que o impeachment oferece ao país.

Por maior que seja o autoengano, o pensamento positivo, a hipocrisia ou a má-fé, uma suposta medida anticorrupção capitaneada por gente acusada e investigada por corrupção, além de não ter nenhuma legitimidade, não começa bem e tende a terminar pior ainda. Seria piada pronta, se não fosse uma tragédia anunciada. A situação absolutamente risível e improvável da política brasileira já foi tema até de programa humorístico de TV nos Estados Unidos, país que reconhece a sua parte de absurdo na política.

Alguém dirá que, na falta de objetividade, posso pelo menos contar com os números incontestáveis das pesquisas de opinião. Claro. Leio que 7 entre 10 leitores da Folha são a favor do impeachment e que o jornal vem batendo recordes de leitura. Mas por que, em meio a uma crise de saúde pública na qual o direito ao aborto legal em casos específicos deveria voltar à pauta, a Folha dá como manchete absoluta, no alto da primeira página, que 51% da população é contra o aborto em qualquer circunstância? A informação é de fato relevante, mas será simplesmente objetiva? Por que publicá-la nesse momento e não antes? Por que agora, justamente quando a mídia não perde nenhuma oportunidade para tentar desvincular o vírus zika da microcefalia, com o argumento de evitar um pânico desnecessário, criado pela suposta incompetência do governo?

É uma justificativa objetiva para enterrar de vez o direito ao aborto em casos de má-formação do feto? Quem acusa e se escandaliza com a suposta pressa ou incompetência do governo em associar o zika ao aumento de casos de microcefalia jamais terá um filho ou um neto com microcefalia como consequência do vírus zika. E isso não apenas por esse risco não passar de 1% entre as grávidas infectadas na Polinésia.

A lógica parece estranha? Também acho. O que importa é que, se há pânico, ele não foi criado pela associação entre o vírus zika e casos de microcefalia, mas pelo fato de se viver em um país onde não se tem o direito de interromper legalmente a gravidez no caso de má-formação do feto. Se 51% da população fosse contra a distribuição de medicamentos gratuitos (contra a Aids, por exemplo, por motivos morais, religiosos etc.), para ficarmos no âmbito da saúde pública, seria justificativa para abolir a distribuição desses medicamentos?

Em um mundo medido por “likes”, qual é a parte da coragem e da convicção impopular? Qual é a parte dos princípios éticos de um agente social ou de um formador de opinião? O que seria da ciência se só dissesse o que as pessoas querem ouvir? O que seria da literatura se só se escrevesse o que os leitores querem ler? O que seria das artes e da ciência sem a coragem de desafiar o consenso? E o jornalismo? É o exercício da demagogia?

Não acredito que leitores e espectadores sejam simples massa de manobra. Diante da desfaçatez da manipulação, é difícil acreditar que haja uma burrice correspondente da população. Ninguém está sendo enganado sem querer. Se por um lado só se escreve o que o leitor quer ler, por outro, o leitor também só acredita no que quer e só engole (e compra) aquilo em que acredita.

O país assiste, nos últimos meses e com mais estrondos nas últimas semanas, a uma guerra política entre campos que opõem menos a corrupção à lisura do que, como já foi dito por colunistas deste jornal, interesses de gangues. O PT já era odiado muito antes de se tornar corrupto, o que não justifica a corrupção, é claro, mas transforma em retórica boa parte do discurso de apoio oportunista à oposição corrupta. Manipulados ou não, o fato é que cada um aproveita o barulho para ouvir o que quer.”

reaças

8 thoughts on “Porque me envergonho do PIB — Perfeito Idiota Brasileiro

  1. Fernando, amigo de longa estrada, já mandei seu texto íntegro como voce para a minha rede de não PIBs. Não consigo imaginar que estamos vivendo isto. Vamos à luta, companheiro… Bjs. Glorinha.

  2. Caro Fernando.

    É lamentável, como já me expressei antes, o momento que estamos vivendo. Só te peço que avalie a possibilidade de suspender as postagens do blog. Este é uma fonte imensa de conhecimento não só político, mas econômico, social, antropológico, e a lista continua…
    Um abraço. Boa semana.

    1. Prezado Renan,
      grato pela força do incentivo. Nunca estive tão desanimado com os representantes do povo brasileiro. Este não sabe escolher parlamentares. Estou sentindo frustração maior do que na derrota da votação parlamentar das Diretas Já no fim do regime militar. Lá a democracia estava em ascensão. Agora está em franco descenso.

      Faço postagens há seis anos neste modesto blog pessoal. Será que ele tem alguma importância como formador de opinião a favor da democracia? Depois da dura derrota desta, parece que não…
      Abraço

      1. Meu amigo, acredite, você tem um dos melhores blogs do Brasil.
        Continue, precisamos de opiniões inteligentes, diferentes daquelas comuns, meramente voltadas para o consumo selvagem.

  3. Olá Dr Fernando, não concordamos com muitas coisas, principalmente na área política, mas adoro suas postagens e já que temos que ajudar a nação, voce continua com seu blog e nós consultamos, aprendemos e passamos adiante. Força Doutor!!!!

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