Brasil adota democracia pela metade e cava a sua sepultura

motivos-de-voto no impeachment

A linha editorial da “grande” imprensa brasileira é falaciosa, enganadora, inverídica, confirmando a correção de sua denominação como PIG: Partido da Imprensa Golpista. O leitor culto tem que recorrer à imprensa estrangeira para ler uma análise mais isenta e não venal como é a característica da imprensa deste pobre país. A tradição aqui é que tudo pode ser vendido, a honra é vendável, a ética se corrompe por dinheiro, parece que todos brasileiros são receptivos a suborno. Estamos imersos em um sistema político corrupto.

Confira abaixo o dia seguinte ao golpe parlamentarista em um regime presidencialista de acordo com analistas estrangeiros em uma edição de reportagem de Daniela Chiaretti (Valor, 18/04/16) e uma ótima análise do português Francisco Louçã, fundador e intelectual do Bloco de Esquerda sobre a crise do Brasil.

“É uma situação curiosa: Dilma Rousseff não tem acusações de roubo e corrupção, enquanto aqueles que a querem fora do gabinete, e lideram a mudança, enfrentam acusações do gênero. Como entender o que está acontecendo no Brasil?” pergunta por e-mail a jornalista indiana Urmi Goswami, do “The Economic Times“, jornal de economia baseado em Nova Déli. “A questão é: quais são as circunstâncias que trouxeram Rousseff a uma situação de impeachment? De longe, não se entende.”

É também esta a percepção de quem está mais perto, em Santiago, como a economista chilena Marta Lagos, que há 20 anos dirige o Latinobarómetro, respeitada organização de pesquisas da região. “De longe não se entende bem as acusações contra Dilma Rousseff, qual é a parte política e qual é a judicial”, diz ela, revelando a complexidade da crise política brasileira. “Entende-se que há uma luta desenfreada, uma luta de morte pelo poder, e uma luta pouco democrática pelo poder.

O brasilianista Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute, do King’s College de Londres, se diz preocupado com os argumentos utilizados na votação do impeachment na Câmara. “As ‘pedaladas’ parecem ser uma justificativa fraca para a saída da presidente. Se Dilma sair por este motivo, estabelece-se um precedente para a remoção dos presidentes eleitos no futuro”, respondeu, por email.

Segundo Pereira, a abertura do processo na Câmara “parece mais um recall (referendo de confirmação do mandato, mecanismo existente em outros países) do que propriamente um impeachment.

Em sua análise, existem “sérias dúvidas” quanto ao fato de as pedaladas constituírem um crime de responsabilidade. “Estava lendo em um jornal o ponto de vista de pessoas pró e contra o impeachment. O que me impressionou é que a maioria a favor não faz das pedaladas seu principal argumento. Mencionam o fracasso da administração Dilma para governar e formar maioria no Congresso, ou a recessão. Indicam a esperança de que a saída da presidente permitiria ao país ter um novo começo. Mas qualquer governo que vier terá uma série de desafios assustadores.”

É desconcertante ver manifestações contra e a favor de Dilma. Quando acontece algo assim, se supõe que os eleitores abandonem os políticos que erraram e eles ficam sozinhos“, diz Marta Lagos, lembrando o impeachment de Fernando Collor. “Mas não é o que vemos nestes tempos convulsionados no Brasil. O que mudou na lógica da sociedade?”.

 

Os brasilianistas e estrangeiros especialistas em Brasil compartilham a perplexidade em relação à polarização da sociedade brasileira quanto à abertura do processo de impeachment e aos erros do PT e de Dilma Rousseff, mas acreditam que as instituições brasileiras são sólidas e que a democracia não está em risco. “É praticamente impossível que aconteça um forte desequilíbrio democrático no continente”, acredita Marta Lagos. “Pode haver momentos de ingovernabilidade, mas é muito difícil que a América Latina tenha algum governo que não seja eleito pelo povo. O risco é a qualidade da democracia ser diferente”, segue a economista chilena.

O alemão Berthold Zilly, que verteu para sua língua “Os Sertões“, de Euclides da Cunha, “Lavoura Arcaica“, de Raduan Nassar e prepara “Grande Sertão: Veredas“, de João Guimarães Rosa, se diz “estupefato com o fanatismo“. Discorda que o ponto positivo desta crise possa ser a maior politização da sociedade brasileira. “Interesse político existe. Mas na República de Weimar, no começo do fascismo, os alemães também estavam muito politizados. Havia mitos, que foram uma das causas da chegada ao poder de Hitler. Não estou dizendo que o Brasil está na situação da Alemanha de 1933. Só que pode haver um grau de politização estúpida e muita mistificação. Por exemplo, acreditar que o PT é o único partido corrupto, que a crise econômica é culpa do PT, e não ver que há crise no mundo, que a crise é multifacetada.”

Zilly emenda: “Particularmente decepcionante é o comportamento de alguns intelectuais que nós brasilianistas sempre estimamos por sua luta contra a ditadura, por seus lúcidos estudos críticos. Hoje estão atrelados a mesquinhos interesses partidários, de curto prazo, rancorosos, sem nenhuma visão soberana, sem vontade de ajudar a resolver a crise“.

“O PT cometeu muitos erros, mas e os outros?”, questiona Zilly. “O PT não cumpriu muitos itens do seu programa, traiu parcialmente a si mesmo, mas realizou, apesar disso, muita coisa”, defende. “Dilma fez muita coisa errada, mas comparando com os que a acusam, é um anjo de inocência.”

(…)

O professor Anthony Pereira vê o PT em situação paradoxal. Para as perspectivas de performance do partido nas eleições de 2018, “provavelmente seria melhor com Dilma sofrendo impeachment. O PT poderia funcionar como oposição ao governo e criticar suas políticas econômicas”, diz o brasilianista. O PSDB, por seu turno, “gostaria de ser o herdeiro e o vencedor das eleições presidenciais de 2018, mas não acho que isso seja garantido”, diz Pereira. O PMDB parece ser “muito amorfo e dividido”, em sua opinião, “e Michel Temer não é muito mais popular do que Dilma. Assim, nenhum desses partidos está em boa forma. Cerca de 60 % do eleitorado brasileiro não se identifica com nenhum partido político, o que não é particularmente bom para a democracia.”

“Parece que os partidos não permitiram que políticos jovens, eticamente limpos, engajados pela liberdade, pela democracia e pela justiça social pudessem amadurecer”, reflete o professor Zilly.

O sistema partidário brasileiro é similar ao do México, da Argentina, do Chile, lembra Marta Lagos. “É um sistema tremendamente debilitado, com grande necessidade de reformas profundas, diante da necessidade imperiosa de recrutar novas gerações que se encarreguem dele no futuro”, acredita ela. “Esta crise é uma aposentadoria das velhas elites do poder. Irão embora e serão substituídas por outras gerações. Os partidos precisam de uma reforma, é o passo seguinte a sair da crise.”

Miguel Amaral, “o correspondente europeu deste modesto blog”, enviou-me um link com uma reflexão do Francisco Louçã, fundador e intelectual do Bloco de Esquerda sobre a crise do Brasil. Reproduzo-o abaixo:

Tudo Menos Economia

Por Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

18 de Abril de 2016, 08:49

Por 

Brasil: faz a democracia a metade e cavas a tua sepultura

Saint-Just, um dos mais destacados jacobinos na Revolução Francesa, dizia com amargura, antecipando o seu próprio destino: “desgraçados dos revolucionários que fazem a revolução a metade, cavam a sua própria sepultura”. Dilma, tão diferente em tempos tão diferentes, bem pode agora reconhecer que “desgraçados dos democratas que fazem a democracia a metade, permitem o golpe que os vai derrubar”.

O golpe que avançou ontem em Brasília foi uma avalanche que entrou pelas portas dentro da fraqueza de Dilma Rousseff e do PT, mas é também revelador da natureza da direita política no Brasil. E, se é cedo para apreciar friamente todo este período longo em que o PT dominou a política brasileira, algumas tendências de fundo são muito evidentes.

A primeira é a fragilidade dos partidos de direita na transição depois da ditadura militar e sobretudo na modernização do Brasil nas duas últimas décadas. A ditadura deixou poucos personagens viáveis e o caminho foi aberto para Fernando Henrique Cardoso, opositor do regime militar e a figura mais destacada do PSDB, o partido que procurou conjugar uma imitação da social-democracia europeia com um liberalismo que cedo se identificou com a oligarquia financeira do país, e que era um trânsfuga da esquerda intelectual – por isso, começou a sua presidência a pedir indiscretamente que “esqueçam tudo o que escrevi”.

Ele próprio já tinha esquecido todos os seus arroubos passados contra a desigualdade e a dependência. E Fernando Henrique era o que havia de apresentável. O resto, entre marajás e caciques, coronéis e seus jagunços, bispos de igrejas várias e militaristas avulsos, era uma fauna colorida mas sem préstimo, a não ser para grandes golpes de baú. A multidão de partidos de direita tem sido uma coligação de negócios e de carreiras pessoais, por vezes extravagantes, sempre em vantagem própria.

Desses partidos destaca-se o PMDB, o maior partido no parlamento, mas o mais insignificante nas eleições presidenciais em que sempre fracassou – o regime é presidencialista, é por via de eleição directa do presidente ou da presidente que este ou esta formam governo – e que foi portanto sendo moldado ao poder de turno, sem perspectivas de disputa vencedora, o que o PT aproveitou para uma aliança sempre espúria.

A direita política veio então a ser uma soma de vazios, num país em que a burguesia proprietária, agroindustrial ou industrial e sobretudo financeira, é muito poderosa e bem organizada, apoiando-se em fortes órgãos de comunicação social, que aparelham intelectuais orgânicos e densos processos de legitimação, e em associações patronais que são uma voz na sociedade. Portanto, a fragilidade política da direita partidária estava desconectada da potência social do capital.

Foi nesse espaço que surgiu o PT no início da década de 1980:

  1. interpretando um amplo movimento popular,
  2. absorvendo grande parte da esquerda (nos primeiros anos, além do PCB e do PCdoB, o partido pró-soviético e o pró-chinês e depois pró-albanês, além de outras organizações de esquerda, havia ainda o PDT de Leonel Brizola, vinculado à 2ª Internacional e com influência no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro) e
  3. mobilizando um sindicalismo reivindicativo e impetuoso.

Esse PT mudou o mapa político brasileiro e consolidou a sua base de classe, mesmo tendo de início resultados eleitorais discretos.

Foi a vitória de Lula nas eleições presidenciais (ocupou o cargo de 2003 a 2011) depois de duas candidaturas falhadas, que virou o jogo. Mas foi então que o PT se começou a transformar. A adaptação ao poder, o deslumbramento dos cargos e das pequenas sinecuras, o jogo das alianças partidárias para criar uma base maioritária no parlamento federal e no senado em Brasília, e sobretudo a aceitação da política económica liberal e o abandono dos grandes projectos sociais, como a reforma agrária ou uma política produtiva de base nacional, tudo foi convergindo para moldar o PT ao poder que queria transformar.

A corrupção de vários dirigentes e governantes foi o resultado dessa adaptação, mesmo que em alguns momentos parecesse que Dilma tinha renascido: ela prometeu um referendo para mudar as regras de um sistema de voto construído para corromper o parlamento, quando grandes manifestações em 2013 abalaram o país. Tarde de mais e pouco de menos, não aconteceu nada e continuaram as traficâncias de influência como a que foi julgada no caso Mensalão.

É certo que houve no PT quem se batesse contra a corrupção e quem fizesse da reforma do sistema político a primeira das prioridades. Mas esses foram derrotados. O PT não quis fazer a batalha política:

  1. que mudasse o sistema eleitoral,
  2. que conduzisse a escolhas sociais mobilizadoras e
  3. que evitasse a aliança com a direita e a política reverente aos interesses que têm diminuído o Brasil.

Rodeado por isso de aliados que são os seus inimigos, o governo Dilma cai agora num golpe sujo, sem fundamento legal (no gráfico acima, uma estatística da justificação dos deputados para o voto individual pela demissão, registada às 18sh50′, hora brasileira, fonte: El Pais, clique para ampliar), mas simplesmente porque os políticos que correm mais riscos judiciais se querem salvar criando o caos absoluto (note-se que em Portugal houve quem elogiasse esta turba de dirigentes e deputados acusados na justiça como salvadores da democracia). Ou seja, Dilma e o PT cultivaram a democracia pela metade e abonaram os seus piores vícios, convivendo se não alimentando as piranhas, e agora percebem que cavaram a sua sepultura.

Há em tudo isto um epitáfio histórico. O poder económico, a profundidade dos abismos, o que conta mesmo, o que move as forças certas no momento certo, esse nunca confia em recém-chegados de percurso duvidoso: o PT serviu os seus interesses quando não havia ninguém na direita que conseguisse uma representação eleitoral convincente e portanto uma hegemonia confortável, mas esses cargos só podiam ser transitórios, só vigoram até voltar o pessoal tradicional que é o único aceito na mesa do poder.

Foi assim na América Latina nas ditaduras militares, é agora assim em democracia: Lula não pode ser, é demasiado metalúrgico, é demasiado sindicalista, é demasiado povo, como Dilma é demasiado suspeita para as elites, mesmo quando nomeia um liberal para dirigir as Finanças ou uma representante do agronegócio para dirigir a Agricultura. E não é assim em Portugal, já agora, vista a indignação visceral (revolta “ética”, dizia-se no congresso do PSD) pelo facto de o governo resultar no parlamento de partidos que não têm bênção divina para chegar ao poder, pois “não fazem parte do arco do poder”?

A direita que conseguiu em Brasília uma primeira vitória no seu golpe quer simplesmente devolver o poder todo aos donos e ter no governo os seus e nunca mais qualquer político sem pedigree. O paradoxo é que contribui para uma crise política e constitucional que não sabe como vai acabar.”

 

2 thoughts on “Brasil adota democracia pela metade e cava a sua sepultura

  1. Prezado Fernando,

    conhecemos as pessoas pelas suas ideias, valores e principalmente o caráter; outra palavra de peso é quais são suas proposições, premissas e conhecimento adquirido no decorrer do período. Os personagens, caras e bocas que domingo discursaram no congresso, envergonham nosso país pela sua extrema ignorância, falta de preparo em falar ao microfone. Seu discurso, postura e discrição é típico de semianalfabetos regados a caviar e champanhe das primeiras classes dos aviões – viajam somente nas primeiras classes – pagos com nossos impostos que no lugar de ser investido em educação e saneamento básico para as populações mais carentes, vai goela abaixo desses seres desprezíveis, acéfalos, ignóbeis, débeis, e como Slavoj Žižek coloca em suas críticas no livro: Menos que Nada “ousam atribuir ao grande Outro – Deus – toda a sorte que tiveram em detrimento da pobreza de outrem”.

    Não sei quantas vezes você já usou em seu blog a palavra golpe, mas sinto informar que o golpe já foi dado quando esses seres imbecis nasceram e entraram para a política, sendo que eles não conseguem nem definir, compreender ou fazer um juízo coerente do que seja a ciência política, é uma vergonha até para os gregos antigos que inventaram política. O DNA da política de Brasília já está infectado pelo vírus da corrupção desde sempre!

    Um dos graves problemas desses políticos são suas crenças em coisas que não existem – o guarda-chuva invisível – o tal Grande Outro é justamente o Deus que não irá salvar ninguém e muito menos o país representado por 70% de imbecis que utilizam um livro escrito há 2000 anos e seguem 20 séculos de atraso no pensamento humano. Se alguém tem crenças as deixe em casa, atrás da porta, embaixo do travesseiro, mas não polua o ambiente com o som de suas súplicas inúteis, não é para isso que foram eleitos, o estado é LAICO!

    O Brasil sofre, irá sofrer e será uma vítima dos seus próprios representantes políticos, os verdadeiros vermes sociais. Abs.

    1. Prezado Reinaldo,
      estou inteiramente de acordo com sua análise. Os deputados golpistas votaram em nome da TFP – Tradição (religiosa conservadora), Família (dinastia do seu clã) e Propriedade (feudo ou curral eleitoral) – e não em respeito à Democracia pela qual foram eleitos. Rasgaram os votos de 54 milhões de eleitores que votaram na Presidenta, quando cada qual recebeu apenas um pouquinho de votos…
      abs

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