O Artífice

O Artífice

Artífice é um substantivo de dois gêneros. Refere-se ao trabalhador, operário, artesão que produz algum artefato ou que professa alguma das artes, executando sua arte consoante as encomendas que recebe. Em sentido figurado, é quem inventa ou cria alguma coisa. Portanto, todo autor, seja de trabalho artesanal, seja de trabalho intelectual criativo, pode ser considerado um artífice, desde que seja mestre em sua arte, ou seja, que faça algo com arte.

alienado é aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam. Fica alheado aquele que vive sem conhecer ou compreender os fatores sociais, políticos e culturais que o condicionam e os impulsos íntimos que o levam a agir da maneira que age.

Karl Marx fala a respeito do trabalho alienado no sistema capitalista: o que ou aquele que sofre de alienação. É um contraponto ao trabalho artesanal do modo de produção anterior em transição para a manufatura.

Richard Sennett publicou originalmente em inglês (The Craftsman; 2008) o livro O Artífice, cuja 5a. Edição pela Record foi lançada em 2015 e tive agora a oportunidade de lê-la. A ele parece falsa a divisão estabelecida por Hannah Arendt entre Animal laborens e Homo faber. O primeiro toma o trabalho como um fim em si mesmo. Em contraste, o segundo – “homem que faz” – é o juiz do labor e da prática materiais, não um colega do Animal laborens, mas seu superior. Enquanto o Animal labores está fixado na pergunta “Como?”, o Homo faber pergunta: “Por que?”.

Ele busca falsear a hipótese de Arendt porque ela menospreza o homem prático que trabalha. O pensamento e o sentimento estão contidos no processo de fazer. As pessoas podem aprender sobre si mesmas através das coisas que fazem, a cultura material é importante. O trabalhador intelectual não deve tratar com esnobismo o trabalhador manual.

Este é o primeiro volume da trilogia de Sennett dedicada à cultura material. Este livro trata da arte ou habilidade artesanal, a capacidade de fazer bem as coisas. O segundo volume aborda a elaboração de rituais para enfrentar a agressão e o fanatismo. O terceiro explora as aptidões necessárias para criar e habitar ambientes sustentáveis.

Os três livros tratam da questão da técnica, mas ela considerada como questão cultural, e não como um procedimento maquinal. Cada um deles focaliza determinada técnica destinada ao cultivo de um estilo específico de vida.

Habilidade artesanal designa um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho benfeito por si mesmo. Abrange um espectro muito mais amplo que o trabalho derivado de habilidades manuais. Diz respeito, por exemplo, ao programa de computador, ao médico e ao artista.

David Priestland, autor do livro “Castas: Guerreiros, Comerciantes, Sábios e Trabalhadores“, exemplifica citando o Steve Jobs como um representante da casta dos trabalhadores criativos, na área de TI (Tecnologia de Informações), fruto da “geração 68” ou da “cultura hippie” libertária de San Francisco – Califórnia – EUA. Influenciado pela admiração de seu pai adotivo por produtos bem feitos, em respeito aos consumidores, ele destacou-se buscando oferecer produtos inovadores bem elaborados em design e funcionalidade.

Mestres e aprendizes trabalham juntos mas em condições de desigualdade. Os cuidados paternos podem melhorar quando são praticados como uma atividade bem capacitada, assim como a cidadania. Em todos esses terrenos, a habilidade artesanal está centrada em padrões objetivos, na coisa em si mesma.

O artífice frequentemente enfrenta padrões objetivos de excelência que são conflitantes. O desejo de fazer alguma coisa pelo simples prazer de criar uma coisa bem feita pode ser comprometido por pressões competitivas, frustrações ou obsessões.

Ele focaliza a relação íntima entre a mão e a cabeça. O estabelecimento de hábitos prolongados cria um ritmo entre a detecção de problemas e a solução de problemas. Nada há a fazer de maneira descuidada e/ou mecânica na adoção da própria técnica inovadora.

Em sua segunda parte, o livro explora mais de perto o desenvolvimento da capacitação. Sennett sustenta duas teses polêmicas:

  • primeiro, que todas as habilidades, até mesmo as mais abstratas, têm início como práticas corporais, por exemplo, na prática física de hábitos manuais;
  • segundo, que o entendimento técnico se desenvolve através da força da imaginação.

A primeira tese focaliza o conhecimento adquirido com a mão, através do toque e do movimento. A tese sobre a imaginação começa explorando a linguagem que tenta direcionar e orientar a habilidade corporal.

Eu (FNC) destaco a variedade dos tipos de inteligência humana — e raridade de (e a habilidade para) ser dotado de todas as inteligências, mesmo que seja o mínimo de cada qual:

  1. Lógico-matemática: capacidade de raciocínio lógico e compreensão de modelos matemáticos; habilidade de lidar com conceitos científicos.
  2. Lingüística: domínio da expressão com a linguagem verbal.
  3. Espacial: percepção do sentido de movimento, localização e direção.
  4. Musical: domínio da expressão com sons.
  5. Corporal-cinestésica: domínio dos movimentos do corpo.
  6. Intrapessoal: capacidade de autocompreensão, automotivação e conhecimento de si mesmo; habilidade de administrar os próprios sentimentos a seu favor.
  7. Interpessoal: capacidade de se relacionar com o outro, entender reações e criar empatia; inclui-se nesta categoria a inteligência naturalista, que é a facilidade de apreender os processos da natureza para sustentá-la.

Na terceira parte, o livro trata de questões mais genéricas de motivação e talento. A tese, nesta parte, é que a motivação é mais importante que o talento. O desejo de qualidade do artífice cria um perigo motivacional: a obsessão de fazer com que as coisas saiam à perfeição pode deformar a própria obra. Podemos fracassar como artífices em virtude de nossa incapacidade de organizar a obsessão por nossa falta de habilidade.

O Iluminismo acreditava que todo mundo tem a capacidade de fazer bem algum trabalho, que existe uma artífice inteligente na maioria de nós, seres humanos supostos racionais. Sennett acha que essa convicção do século XVIII ainda hoje faz sentido.

Do ponto de vista ético, a habilidade artesanal certamente é ambígua. A aptidão técnica pode ser usada para o mal, criando um artefato destruidor. Mas o éthos do artífice abriga tendências compensatórias, como no caso do princípio da utilização da força mínima no esforço físico.

O livro conclui examinando a maneira como o estilo de trabalho do artífice pode contribuir para ancorar as pessoas na realidade material. A vida passada do trabalho artesanal e dos artífices também sugere maneiras de utilizar as ferramentas que constituem propostas alternativas e viáveis sobre as possibilidades de levar a vida com habilidade.

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