Artesanato Coletivo: Contradição em Termos?

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Karl Marx, segundo Richard Sennett em O Artífice (Rio de Janeiro; Record, 5a. Edição; 2015), enfatizou que as relações individuais e sociais desenvolvem-se pela confecção de objetos físicos, permitindo “o desenvolvimento completo do indivíduo”. A dignidade do trabalho seria natural às pessoas como parte de uma comunidade. Após o trabalho alienado no capitalismo, o comunismo despertaria novamente o espírito da habilidade artesanal.

A etimologia de devenir é “tornar-se, começar a ser o que não era antes”. Devir é vir a ser, tornar-se, transformar-se, devenir. Refere-se ao fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes. Marx concebia um devir otimista, baseado em uma visão do passado pessimista. Por que esse determinismo histórico contraditório?

Na prática, a economia de planejamento central da URSS parece explicar as ruínas do marxismo. As autoridades burocráticas reagiam com alarme a quaisquer iniciativas nos canteiros de obras, temendo que a autogestão local gerasse uma resistência generalizada ao Estado totalitário.

Por estes motivos, o imperativo moral “Faça um bom trabalho por seu país!” soava vazio. Operários desiludidos, tanto em economia centralizada, quanto em economia de livre mercado, resultam em baixa produtividade. Se os trabalhadores qualificados são tratados com indiferença, o espírito de iniciativa é desestimulado.

Enquanto isso ocorria na Eurásia, o Japão prosperava com uma economia permeada em nome do bem comum. No último meio século, os japoneses demonstraram uma criatividade prática que devolveu a vida ao país depois da II Guerra Mundial. Tornou-se um “país de artífices”!

O trabalho rigoroso em padrões técnicos elevados conferiu aos japoneses, ao longo desses anos, um senso especial de respeito próprio e recíproco. Cumprindo metas coletivas, abriam mão de encontrar diariamente com a mulher ou os filhos, pois o imperativo moral funcionava por causa da maneira como era organizado o trabalho.

Em nome do controle de qualidade total, os gerentes punham a mão na massa na produção e os subordinados falavam com franqueza aos superiores. Em um “artesanato coletivo”, o que solidifica uma instituição não é apenas o compromisso comum, mas também essas trocas. “Conformistas vivendo em rebanho” não têm o senso crítico que os empregados japoneses podem evidenciar em relação aos colegas e aos chefes.

Lá, é possível dizer a verdade ao poder. No coletivismo soviético, em contraste, o centro ético e técnico estava muito distante da vida real. Marx tratou dos trabalhadores, os japoneses tratavam do trabalho.

Boa parte do discurso neoliberal triunfalista gira em torno da comparação das supostas virtudes da concorrência individualista com os vícios do coletivismo. Consideram que a competição entre indivíduos voltados para si tem mais chances de produzir um bom trabalho, pois ela estimularia a qualidade. O objetivo único dos neoliberais, inclusive na reforma da prestação de serviço público, é promover a concorrência interna e os mercados livres de regulamentação para melhorar a qualidade do atendimento do público.

Essa visão triunfalista obscurece o papel que a competição e a cooperação efetivamente desempenham na realização de um bom trabalho e, de maneira mais geral, as virtudes da perícia artesanal. Em algumas corporações, a cooperação e a colaboração permitem abrir caminho com inovação de tecnologia. Enquanto em outras, a competição interna compromete o empenho dos engenheiros em melhorar a qualidade do processo de produção, alienando-se em relação aos resultados do trabalho coletivo.

O artífice representa uma categoria mais abrangente que a do artesão, ele simboliza, em cada um de nós, o desejo de realizar bem um trabalho, concretamente, pelo prazer da coisa benfeita. Porém, na realidade capitalista concreta, aqueles que aspiram ser bons artífices são desvalorizados, ignorados ou mal compreendidos pelas instituições sociais. Os indivíduos buscam refúgio na introspecção quando o envolvimento material revela-se vão. A antecipação mental é privilegiada em detrimento do contato concreto. Os padrões de qualidade no trabalho separam a concepção criativa da execução alienada.

Na oficina medieval, o mestre e o aprendiz eram desiguais, mas associados. No Renascimento, houve a separação dessa relação social, distinguindo-se entre arte e artesanato. Após a Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, a máquina industrial aparentemente já não comportava a humanidade, porém, os radicais cometiam o erro de achar que contestar a maquinaria era dar as costas à modernidade. Com isso, tornava o artesão incapaz de entender como poderia evitar tornar-se vítima da máquina.

O fato histórico é que, desde as origens da civilização clássica, os artífices são incompreendidos. O que lhes permitiu ir adiante do ponto de vista humanista foi a fé no trabalho e o envolvimento com seus materiais.

Sennett3

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