Capacitação Artesanal Pragmática

Trabalho manual

Na Parte Dois do livro O Artífice (Rio de Janeiro; Record, 5a. Edição; 2015), Richard Sennett passa a tratar das maneiras como o artífice adquire e desenvolve habilidades físicas e mentais específicas para fazê-lo. A linha-mestra é o progresso no desenvolvimento de uma capacitação. No artesanato, as pessoas podem melhorar com o desenvolvimento de uma “mão inteligente”.

Sennett descreve três ferramentas expressivas capazes de proporcionar orientações para raciocinar sobre o tato, abordar os problemas de coordenação, aprender as lições da força mínima, trabalhar com os olhos para antecipar o que vem pela frente e sustentar a concentração em uma sucessão de etapas:

  1. a ilustração solidária que se identifica com as dificuldades encontradas por um neófito;
  2. a narrativa da cena que coloca o aprendiz em uma situação estranha; e
  3. a instrução pela metáfora que estimula o aprendiz a reconfigurar pela imaginação o que está fazendo.

A necessidade da imaginação manifesta-se no uso das ferramentas. A inventividade permite certo tipo de trabalho de reparação quando elas se revelem limitadas, ou seja, um reparo ou conserto dinâmico.

A imaginação é também necessária para entender e fazer bom uso das ferramentas potentes ou multiuso, cheias de possibilidades inexploradas e talvez arriscadas. Sennett explica a estrutura de um salto intuitivo.

Ninguém faz uso de todos esses recursos o tempo todo. O progresso no trabalho ocorre intermitentemente. Mas as pessoas podem efetivamente melhorar a performance e, de fato, aperfeiçoam-se.

Não dá para simplificar e racionalizar as capacitações, tal como em “manuais de ensino”, pois somos organismos complexos emergentes das interações entre múltiplos pequenos componentes. Quanto mais a pessoa, interagindo e aprendendo ativamente com outros pares, valer-se dessas técnicas, quanto mais explorar, mais será capaz de conquistar a recompensa emocional do artífice, ou seja, o sentimento de competência artesanal.

Sennett procura, nesse livro, resgatar o Animal laborens do desprezo com que era tratado por Hannah Arendt. O animal humano que trabalha pode ser enriquecido pelas capacitações e dignificado pelo espírito da perícia artesanal. Em nossa época, essa perícia artesanal encontra acolhida filosófica no pragmatismo.

Esse movimento filosófico tem procurado conferir sentido à experiência concreta. Ele teve início no fim do século XIX, na forma de uma reação norte-americana aos males do idealismo na Europa. Buscava encontrar a chave da cognição humana nos pequenos atos cotidianos. Era movido pelo espírito da experimentação científica do século XVII, tal como acontecera com o empiricismo no século XVIII. Desde suas origens, o pragmatismo preocupava-se tanto com a qualidade da experiência quanto com os fatos concretos no campo da ação.

Hannah Arendt criticou as falsas esperanças com que Marx acenava para a Humanidade pela “abundância ou escassez de bens a serem introduzidos no processo vital”. Frente a essa avaliação quantitativa, o pragmatismo concebe um socialismo baseado na melhora da qualidade da experiência das pessoas no trabalho, em vez de advogar, como Arendt, uma política que transcendesse o próprio trabalho.

O trabalho que permanece permeado pela atitude lúdica é arte. Os pragmáticos exortam os trabalhadores a avaliar a qualidade de seu trabalho em termos de experiência compartilhada, tentativa e erros coletivos. A boa qualidade artesanal implica socialismo. Outros tipos de colaboração entre trabalhadores contestam a busca de qualidade simplesmente como instrumento para maximizar o lucro.

Filosoficamente, o pragmatismo sustenta que, para trabalhar bem, as pessoas precisam de liberdade do vínculo meios-fins. O conceito de experiência unifica todo o pragmatismo. O pensamento pragmático não separa seus dois significados:

  1. um acontecimento ou relação que causa uma impressão emocional íntima,
  2. um fato, ação ou relação que nos volta para fora e antes requer habilidade que sensibilidade.

Não devemos ser apanhados pela armadilha do pensamento e da ação determinados pelo vínculo fins-meios. Nesse caso, estaríamos sucumbidos ao vício do instrumentalismo. O artesanato volta-se para os objetos em si mesmos e para práticas impessoais. Ele depende da curiosidade, moderando a obsessão. Volta o artífice para fora. Sennett dá ênfase ao valor da experiência como ofício.

Técnicas de experiência permitem-nos satisfazer o desejo de influenciar a impressão que as pessoas e o fatos causaram em nós, de modo que ela se torne inteligível para aqueles que não conhecem as mesmas pessoas que conhecemos nem passaram pelas mesmas experiências. A ideia da experiência como ofício contesta o tipo de subjetividade que prospera no puro e simples processo de sentir. As impressões constituem apenas a matéria-prima da experiência.

A tese que Sennett sustenta nesse livro é de que o ofício de produzir coisas materiais permite perceber melhor as técnica de experiência que podem influenciar nosso trato com os outros. Tanto as dificuldades quanto as possibilidade de fazer bem as coisas se aplicam à gestão das relações humanas. Desafios concretos de como enfrentar uma resistência material contribuem para o entendimento das resistências que as pessoas enfrentam na relação com as outras ou dos limites incertos entre as pessoas ambíguas.

Dá ênfase ao papel positivo que a rotina e a prática desempenham no processo de produção de coisas materiais. Da mesma forma, as pessoas também precisam praticar suas relações como os outros, aprender as habilidades da antecipação e da revisão, para melhorar essas relações.

Talvez o leitor resista à ideia de pensar na experiência em termos de técnica. Mas aquilo que somos deriva diretamente do que nossos corpos são capazes de fazer. As capacidades do nosso corpo para moldar as coisas materiais são as mesmas a que recorreremos nas relações sociais. A suposição do movimento pragmático é que existe um contínuo entre o orgânico e o social. A habilidade artesanal mostra em ação o traço contínuo entre o orgânico e o social.

A palavra criatividade aparece o menos possível nesse livro de Sennett., pois ela traz uma conotação romântica relacionada ao “mistério da inspiração” ou aos “rasgos do gênio”. Ele rompe com esse mistério mostrando como acontecem os saltos intuitivos nas reflexões que as pessoas fazem sobre os gestos de suas próprias mãos ou no uso de ferramentas. Aproxima o artesanato da arte, pois todas as técnicas contém implicações expressivas. Isso também se aplica, por exemplo, à criação de um filho.

O aspecto menos desenvolvido de sua tese diz respeito à política, isto é, o domínio dos “estadistas”. O moderno pragmatismo abraça como artigo de fé a convicção de que aprender a trabalhar bem é a base da cidadania.

Arendt considerava a Ciência de governar como um terreno de especialização autossuficiente. A ligação entre trabalho e cidadania pode apontar na direção do socialismo, mas não necessariamente da democracia. A hierarquia no trabalho pode evoluir para a hierarquia no Estado. Os motivos artesanais que dão crédito à fé pragmática na democracia se encontram nas capacidades a que recorrem os seres humanos para desenvolver suas habilidades: a universalidade do jogo, as capacidades básicas de especificar, questionar e abrir. Elas estão amplamente difundidas entre todos os seres humanos, e não restritas a uma elite.

O autogoverno pressupõe a capacidade dos cidadãos de trabalhar coletivamente em problemas objetivos. O pragmatismo insiste em que o remédio contra a mídia e a rede social cheias de trivialidades de caráter pessoal deve estar na experiência concreta de participação cidadã, uma participação que dá ênfase às virtudes da prática, com suas repetições e lentas revisões.

O orgulho pelo próprio trabalho está no cerne da habilidade artesanal, como recompensa da perícia e do empenho. O trabalho tem vida própria, pois a obra transcende o autor. Em geral, a criatura é mais interessante que o criador…

Os artífices orgulham-se sobretudo das habilidades que evoluem. Por isso, a simples imitação não gera satisfação duradoura. A habilidade necessita amadurecer e superar esse estágio inicial de imitação. A lentidão do tempo artesanal é fonte de satisfação. A prática se consolida, permitindo que o artesão se aposse da habilidade. Essa lentidão também permite o trabalho de reflexão e imaginação. Maturidade quer dizer idade madura, quando o sujeito se apropria de maneira duradoura da habilidade.

O orgulho pelo próprio trabalho pode também apresentar problemas éticos. Por exemplo, os cientistas criadores da bomba atômica se apegavam a um orgulho pelo trabalho executado, não se considerando responsáveis por sua aplicação destruidora. O pragmatismo, criticamente, enfatiza a ligação entre os meios e os fins. Ele quer dar ênfase à importância de fazer perguntas éticas ao longo do processo de trabalho, pouco importando as preocupações e investigações éticas a posteriori, depois do mal já feito.

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