Preferência pela Liquidez ou Aversão ao Risco dos Investidores Brasileiros

Consolidado de Produtos Financeiros dez 2015

Luciana Seabra (Valor, 18/04/2016) avalia que, em um momento político tão conturbado, a aversão a risco do investidor brasileiro está em níveis máximos. Duas pesquisas, uma da BlackRock e outra da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostram que ele está excessivamente concentrado em liquidez, gostaria de estar menos, mas tem medo e falta de informação. O histórico não ajuda: a pessoa física sempre erra a hora certa de abrir mão de liquidez e correr risco na bolsa brasileira.

No viés heurístico classificado pelas Finanças Comportamentais como “diversificação ingênua” — via Regra dos 3 Terços, 1/3 para curto prazo, 1/3 para médio prazo e 1/3 para longo prazo, ou 1/3 para LTN, 1/3 para LFT e 1/3 para NTN-B, ou ainda 1/3 para RF prefixada, 1/3 para RF pós-fixada e 1/3 para Renda Variável, pois “a mente humana abomina complexidade” — o “brasileiro” (sic — veja a desigualdade da riqueza financeira per capita na tabela acima) gostaria de ter 32% do patrimônio em ativos líquidos, como poupança, fundos e títulos de curto prazo.

Na realidade, tem 67%, segundo entrevistas da BlackRock com mil investidores locais, sendo 606 de varejo e 394 do segmento afluente, com pelo menos R$ 200 mil em patrimônio investido. Na faixa de idade entre 55 e 64 anos, essa fatia é ainda maior, de 76%. Lógico, está em fase de pré-aposentadoria, prefere ter mobilidade do capital.

A indústria de fundos é um retrato dessa concentração. Os dados da Anbima, associação que representa o mercado, mostram que as carteiras de renda fixa têm hoje 48% de todo o dinheiro alocado em fundos no Brasil, um total de R$ 1,5 trilhão. A fatia administrada pelos gestores de ações é de somente 4,7% desse bolo, ou R$ 144,93 bilhões. Em outras palavras, o único agente que dá importância à Bovespa é o PIG, já que ela lhe fornece manchetes escandalosas tipo “a Bolsa ou O Mercado caiu ou subiu em função das oscilações do golpe em andamento”…🙂

Perguntados sobre porque estão tão alocados em liquidez:

  • 32% apontam a possibilidade de vender os ativos rapidamente,
  • 23% dizem que dinheiro é conveniente,
  • 18% consideram que já têm uma boa relação entre risco e retorno nesse tipo de investimento.

Os motivos para não sair da liquidez, afirma a BlackRock, que aloca US$ 4,6 trilhões em diferentes partes do mundo, estão frequentemente relacionados à falta de conhecimento. No levantamento em que podem marcar quantos itens quiserem:

  • 49% dos investidores ouvidos dizem que não vão para ativos de risco porque não têm dinheiro para isso,
  • 26% afirmam que não sabem o suficiente,
  • 24% que têm medo de tomar risco,
  • 21% que não conhecem boas oportunidades e
  • 16% que sentem que perderiam dinheiro.

[FNC: O medo tem fundamento em uma economia volátil em renda, câmbio e juros, com uma Bolsa de Valores raquítica e manipulável, corporações “S.A. familiares” e corruptoras, imprensa golpista, etc. etc. Enfim, uma ***** de país que aceita ser presidido por um golpista!]

Uma dissertação de mestrado defendida pelo economista Marcos Amaral Campos Filho em fevereiro deste ano na FGV mostra que o investidor individual tem comportamento quase diametralmente oposto ao do estrangeiro, tido como mais bem informado e sofisticado.

[FNC: o que o mestrando não disse é que o estrangeiro possui experiência de lidar com economia de mercado de capitais (renda variável) e não economia de endividamento (renda fixa) com a maior taxa de juros real do mundo.]

Nas séries históricas estudadas, entre 2006 e 2014, via de regra, quando o estrangeiro está vendendo ações, o investidor individual está comprando e vice- versa. “Tem uma discrepância muito forte de comportamentos”, afirma o economista.

A crise de 2008 é o exemplo mais claro. Na transição do quarto trimestre de 2007 para o primeiro de 2008, época da quebra do Bear Stearns, ao mesmo tempo em que o investidor estrangeiro começava a sacar dinheiro da bolsa brasileira com velocidade, o investidor individual injetava mais recursos. No penúltimo trimestre de 2008, quando o mundo assistia à quebra do Lehman Brothers, o investidor estrangeiro estava quase em seu recorde histórico de posição negativa líquida em ações do Brasil. O investidor brasileiro, por sua vez, estava perto do seu recorde de posição positiva líquida, devido à lembrança ainda recente da conquista do “grau de investimento”.

Campos Filho, sob supervisão do professor da FGV Ricardo Rochman, avaliou ainda valores máximos e mínimos do Ibovespa em cada ano da série histórica. A partir de 91 casos de virada de rumo do índice, o economista estudou o fluxo líquido de investidores nos dez dias úteis antes e depois do evento. Em 82% dos casos, o investidor individual vendia no período que antecedia o topo, comprava nos dias seguintes a ele, assim como comprava na véspera da mínima ou vendia logo em seguida a ela.

Para Campos Filho, o resultado do estudo fere o princípio teórico da racionalidade do investidor, ao mostrar que ele nem sempre toma as decisões melhores para o seu bolso. A pesquisa aponta, assim, para a necessidade de Educação Financeira.

[FNC: eu diria: principalmente com ênfase em Finanças Comportamentais.]

“Houve um esforço da BM&FBovespa, como no ‘Bovespa vai até você’, mas mais focado em ampliar a base de investidores. Só que a pessoa física não está preparada”, afirma. Para ele, é preciso também que as próprias instituições financeiras preocupem-se mais em analisar o perfil de risco do investidor, a fim de verificar se eles realmente podem ir para a renda variável. “Existe um afã muito grande do mercado financeiro de atrair o investidor, mas sem uma visão de longo prazo”, completa o economista.

[FNC: Como tudo na ***** deste País, desde que os colonizadores vieram para conquistar o território e “fazer a América”, a visão é curtoprazista, imediatista, extrativista… Pouco se importa com a manutenção da Democracia e de um processo civilizatório em longo prazo!]

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