Corrupção no Futebol Internacional: E a TV Globo Nada a Ver?

Neymar

O curioso da investigação do MP, PF e Poder Judiciário brasileiros sobre corrupção é que não envolve o conluio extremamente visto há anos entre a CBF e a Rede Globo. Se esta não deve, não temeria ser investigada. Mas todos ficam de “bico calado”, assim como não investigam as corrupções nos Estados governados por aquelas espécies de bico grande. A classe dominante sabe se defender enquanto golpeia os adversários…

Em alguns exemplos, os promotores americanos estão investigando as próprias empresas por possíveis irregularidades. Em outros, ainda não está claro se as empresas são o alvo da investigação ou se os promotores buscam apenas a cooperação delas.

Embora as autoridades dos EUA pretendam chegar a acordos com algumas companhias, possivelmente nos próximos 12 meses, o progresso tem sido mais lento que o esperado, em parte porque as investigações envolvem dezenas de outros países e estruturas empresariais obscuras.

O caso levou pelo menos 11 empresas e bancos multinacionais a abrir suas próprias investigações internas, que podem custar milhões de dólares. Essas investigações corporativas estão examinando os negócios com pessoas e entidades acusadas pelos promotores dos EUA de participar de um esquema de US$ 200 milhões em propinas que envolve direitos de transmissão e patrocínio de torneios lucrativos.

Entre as empresas conduzindo investigações estão Nike Inc., DirecTV (pertencente à AT&T), 21st Century Fox, KPMG, Citibank, HSBC Holdings PLC, Standard Chartered PLC,Credit Suisse, UBS Group, J.P. Morgan Chase & Co. e Julius Baer Group, segundo documentos públicos das empresas e pessoas a par da situação.

As acusações do Departamento de Justiça dos EUA haviam se concentrado até hoje em dirigentes da Fifa, a associação máxima do futebol mundial, e em confederações regionais. Os promotores alegam que dirigentes da Fifa foram subornados por executivos de empresas de marketing esportivo para conceder a elas direitos de licenciamento de campeonatos, como as eliminatórias para a Copa do Mundo.

Das 42 pessoas acusadas publicamente de participação no esquema, 17 se declararam culpadas.

Agora, as autoridades americanas voltaram sua mira para as relações entre as firmas de marketing esportivo e as empresas para as quais elas venderam direitos de mídia e patrocínio, dizem pessoas a par do assunto.

Os promotores também estão recebendo informações de autoridades do Panamá que analisaram os chamados “Panama Papers”, uma coleção de documentos vazados de um escritório de advocacia panamenho que cria empresas “offshore” situadas em lugares onde elas não são obrigadas a informar seus verdadeiros donos. As autoridades americanas esperam que os documentos forneçam mais detalhes sobre os fluxos de dinheiro e as entidades envolvidas no suposto esquema.

Os promotores estão investigando duas afiliadas das redes DirecTV e Fox — a Torneos y Competencias e a T&T Sports Marketing Ltd. — que adquiriram direitos de transmissão de campeonatos esportivos, dizem pessoas a par do assunto.

A DirecTV tem uma participação minoritária na argentina Torneos, cujo presidente do conselho se declarou culpado, no ano passado, de pagar propina para obter direitos de mídia. Em dezembro de 2015, os promotores alegaram que executivos “afiliados” com a T&T, que é incorporada nas Ilhas Cayman, subornaram mais de dez dirigentes de futebol para ganhar direitos a campeonatos. A T&T era uma subsidiária da Fox até 2015, segundo documentos públicos.

Porta-vozes da DirecTV e da Fox disseram anteriormente que não exerciam nenhum controle sobre as subsidiárias. A DirecTV afirmou que está cooperando com as autoridades, que teriam informado à empresa que nem ela nem seus funcionários são objeto de investigações. A Fox afirmou que está analisando o caso continuamente e garantiu que seus direitos de futebol foram obtidos idoneamente. (A Fox e a dona do The Wall Street Journal, a News Corp, eram parte da mesma empresa até meados de 2013.) Assim como diz a TV Globo, aliás do mesmo modo que garantem os tesoureiros dos partidos políticos adversários que ela ironiza…

Para poder levar adiante uma ação contra uma rede de TV ou patrocinador, os promotores vão precisar provar que as empresas sabiam que estavam pagando em excesso pelos contratos por causa das propinas embutidas neles. Isso é difícil de comprovar, dizem algumas das fontes, porque há poucas referências de valor de contratos para os principais campeonatos de futebol.

Uma porta-voz da procuradoria-geral do Brooklyn, em Nova York, que está liderando a investigação, não quis comentar.

Os promotores estão investigando ainda se algumas das maiores instituições financeiras do mundo deveriam ter alertado sobre a movimentação financeira ligada à suposta corrupção na Fifa. Vários bancos abriram investigações internas e estão disponibilizando milhares de registros bancários, dizem as fontes. Embora os promotores tenham encontrado milhões de dólares em transações suspeitas, até agora eles não conseguiram provar que os bancos conscientemente infringiram leis contra lavagem de dinheiro, dizem várias pessoas a par do assunto.

A Federação de Futebol da Argentina, cujos direitos de transmissão são controlados pelo governo desde 2009, fez negócios ligados ao suposto esquema usando filiais americanas de instituições financeiras dos EUA e de outros países, de acordo com os autos do processo.

Segundo registros bancários que foram fornecidos aos procuradores e aos quais o WSJ teve acesso, os bancos HSBC, Citibank e Credit Suisse processaram milhões de dólares em transações da Torneos entre 2011 e 2013. A Torneos tinha contas no Credit Suisse e recebeu dezenas de milhões de dólares em pagamentos feitos pelo Tesouro argentino, segundo os registros. Já o HSBC e o Citibank serviram como intermediários em transações envolvendo a Torneos.

O HSBC afirmou que foi questionado pelo Departamento de Justiça dos EUA e está cooperando com a investigação. Os outros bancos realizando investigações internas não quiseram comentar.

A Nike vem investigando alegações de corrupção ligadas a seu contrato de dez anos, avaliado em US$ 160 milhões, para patrocinar a seleção brasileira.

A acusação do Departamento de Justiça, que tem 161 páginas, descreve vagamente uma multinacional americana de material esportivo que fechou um negócio para patrocinar a CBF e, em seguida, fez um acordo separado com uma firma de marketing esportivo que supostamente usou os pagamentos da Nike para pagar propinas. Pessoas a par do assunto confirmaram que a empresa é a Nike. A empresa e seus funcionários não foram acusados de nenhuma irregularidade. A Nike afirmou que está cooperando com as autoridades.

3 thoughts on “Corrupção no Futebol Internacional: E a TV Globo Nada a Ver?

  1. Ah mas do jeito que o nosso judiciário – dono de uma vaidade sem tamanho – é capaz de colaborar com a investigação americana para que seus nomes apareçam no jornal. Não qualquer jornal, obviamente.


    “Vários bancos abriram investigações internas e estão disponibilizando milhares de registros bancários, dizem as fontes. Embora os promotores tenham encontrado milhões de dólares em transações suspeitas, até agora eles não conseguiram provar que os bancos conscientemente infringiram leis contra lavagem de dinheiro, dizem várias pessoas a par do assunto.”

    A pergunta que fica é: é possível que haja conluio com os bancos em que movimentam o dinheiro?

    Não me espanta que seja realmente uma investigação minuciosa e demorada; mas sem dúvida a Globo já está de sobreaviso da possível dor de cabeça que pode ter. Pimenta nos olhos da grande mídia é um grande refresco.

    Abraço, Fernando.

  2. Boa tarde, professor Fernando.

    Aproveitando a brecha sobre a corrupção da TV Globo, compartilho uma crônica que escrevi sobre o assunto.

    Brasil: quintal da Rede Globo?

    Diziam, os filósofos de antigamente, que “o poder emana do povo”, mas no caso brasileiro isso não é verdade. Na trama do Golpe em curso, o povo não foi mais do que uma marionete.
    Numa sociedade onde a maioria se informa apenas por tevês e redes sociais – meios que, pela própria dinâmica de comunicação de massa, não aprofundam as questões de interesse público e divulgam-nas de acordo com os interesses políticos e financeiros de seus concessionários e administradores – qualquer boato e/ou mentira descarada vira verdade absoluta. E a mídia dominante – Veja e Rede Globo – soube explorar isso, essa deficiência cultural da nação, cirurgicamente. Nas eleições de 1989, a título de comparação, tal manobra também funcionou; Lula estava empatado dentro da margem de erro com Collor e haveria um último debate entre os dois antes da votação; o confronto foi editado pela Rede Globo de modo a dar ampla vitória ao candidato de sua preferência (Collor) que, em função do empurrãozinho, tornou-se presidente; alguns jornalistas que trabalhavam no Jornal Nacional e que tiveram coragem de criticar a manobra, foram demitidos; tudo isso pode ser visto no documentário produzido pela BBC londrina, intitulado “Além do Cidadão Kane – A História da Rede Globo”, disponível na internet.
    O que a gente não sabe nem desconfia é que esse negócio todo dá muito dinheiro. A Veja, por exemplo, chamada de “panfleto da Direita” pelo jornal francês Libération, nos últimos meses viu seus lucros quadruplicarem em função de suas manchetes sensacionalistas contra Dilma e o PT. Eu mesmo pude constatar isso perguntando, na banca, se a delação premiada do Delcídio do Amaral havia impulsionado as vendas? Sem pestanejar, o atendente me disse que antes eram vendidas quatro revistas por mês e que agora se vendiam trinta. E quando a gente vê aquela multidão vestida em verde e amarelo nas ruas, gritando “fora corruptos” e coisas do tipo, ainda pensa que se trata de uma consciência autônoma e livre em prol de um país melhor.
    Toda a História Republicana Brasileira é marcada pela alternância entre Esquerda e Direita no poder: sai Getúlio entra Juscelino, sai Juscelino entra Jango, sai Jango entra a Ditadura, sai a Ditadura entra FHC, sai FHC entra Lula, sai Lula entra Dilma, sai Dilma entra Temer? Movimentamo-nos, politicamente, como se descrevêssemos um círculo viciado, sempre de acordo com os interesses dominantes, quais sejam, os interesses da elite branca abastada. O ciclo é o seguinte: a classe média começa a crer que é rica e passa a apoiar a Direita, a Direita destrói a classe média, a classe média empobrecida vota em um governo popular, vence um governo de Esquerda, aumenta o número da classe média e recomeça a volta, a classe média começa a crer que é rica e passa a apoiar a Direita, a Direita destrói classe média… e assim pela ordem.
    Toda a História Republicana Brasileira não é mais do que a história da elite branca abastada que elege e deselege quem ela quiser: um governo de Esquerda para acalmar o pobre e um governo de Direita quando se cansa do pobre. O que a gente não sabe nem desconfia é que os irmãos Marinho, donos da Globo, figuram entre os dez mais ricos do país, que a empresa deles é o maior cabo eleitoral do Brasil, que é nossa democracia é uma falácia e, o pior de tudo, que a opinião que julgamos ter não nos pertence.

    O próprio Orson Welles ficaria de cabelo em pé.

    Abraços, Diego Araújo.

  3. Boa noite Professor,infelizmente o vídeo no link abaixo não é do Canal 100 e sim do jogo atual no tapetão esgarçado da Câmara dos “comuns” e da Câmara dos “lordes”.
    Um abraço e tudo de bom.

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