Corrupção Privada e Destruição do Futebol Brasileiro

United X Brazil

João José Oliveira (Valor, 08/04/16) informa que um clube de futebol fundado há 140 anos numa cidade industrial inglesa, que tem mais dias chuvosos que ensolarados durante o ano, e que estampa como mascote a figura do diabo, não parece uma marca capaz de atrair dezenas de milhares de fãs para um evento dominical na praia mais famosa do Brasil. Mas é isso o que o Manchester United vai fazer. Mais de 350 mil pessoas se inscreveram nas redes sociais para concorrer a ingressos para o evento do maior time de futebol do mundo nas areias de Copacabana.

O evento, no formato usado pela Fifa nas FanFests, durante as Copas, com telão exibindo o jogo ao vivo pelo campeonato inglês, contra o Tottenham, de Londres, terá áreas de alimentação e bebidas, atividades esportivas com ex-atletas do clube e, claro, sorteios e vendas de produtos oficiais do clube e dos patrocinadores globais do time, como Chevrolet, Adidas, Concha & Toro e AON, em uma ação organizada pela agência Octagon.

Pesquisa do Ibope/Repucon no fim do ano passado em um universo estimado em 27,4 milhões de jovens apontou que 69% dos internautas brasileiros com idade entre 16 e 24 anos se diziam torcedores de algum time estrangeiro. Cinco pontos percentuais mais que um ano antes.

“Pela primeira vez vimos em nossas pesquisas um percentual de 3% de jovens brasileiros que não têm time no Brasil e que torcem apenas por um estrangeiro”, disse o diretor do Ibope/Repucom, José Colagrossi. “As barreiras físicas caíram, e os torcedores daqui interagem em tempo real com clubes de lá, fazendo uma comparação que não é favorável ao futebol brasileiro se você levar em conta qualidade do espetáculo e números de craques, inclusive os brasileiros, que estão lá”.

“O Brasil tem uma rica e longa tradição no futebol. É diferente da Ásia, onde temos milhões de fãs e já fizemos esse tipo de evento. Mas nossa base de torcedores e seguidores brasileiros é crescente”, disse ao Valor o diretor comercial do Manchester United, Jamieson Reigle. “Vamos aumentar nossa base de fãs e abrir oportunidades para nossos patrocinadores”, contou.

O clube inglês mais vezes campeão construiu nas últimas três décadas uma base de simpatizantes estimada em 659 milhões de pessoas – sendo 37 milhões na América do Sul, dos quais, 7 milhões no Brasil. A vitrine dessa expansão é a audiência da Premier League, a liga de futebol mais rica do planeta – que vale em direitos de transmissão US$ 2,4 bilhões por ano.

O United de Manchester não é o único a usar estratégia própria de multinacionais nas praias brasileiras do futebol. Barcelona e Real Madri, da Espanha; Milan, da Itália; e Bayern, da Alemanha, tem feito ao longo dos últimos cinco anos pelos menos uma ação no Brasil – principalmente clínicas de futebol para crianças em acampamentos de férias.

“O Borussia tem 800 mil seguidores no Brasil. Essa representatividade não passa despercebida”, disse Weber Porto, diretor presidente para América do Sul da Evonik, patrocinadora do alemão Borussia Dortmund, quando a empresa química bancou no Brasil o BVB Evonik Soccer School, que recebeu 3 mil crianças, em fevereiro na capital paulista.

Até o vizinho argentino Boca Juniors pega sombra nessa praia. O clube tem no Brasil uma rede de 37 escolinhas – quase metade das 70 espalhadas pelo mundo. “Há uma lacuna no país. Procuramos os clubes europeus, mas eles pediram muito”, disse o sócio da DFS Gol Business, Higor Nune. “O objetivo aqui é gerar negócio, com a receita das escolas e venda de produtos oficiais”, disse.

As crianças, adolescentes e jovens brasileiros torcedores de times do exterior são alimentados pelo avanço das mídias digitais. Desde 2013, a fatia de internautas entre os brasileiros cresceu de 49% para mais de 55% e, na TV fechada, a base de assinantes subiu de 18 milhões para 19 milhões de lares.

Reflexo dessa onda está na audiência da TV, dona de dois-terços da verba publicitária do país. No último sábado, dia 2 de abril, a ESPN – emissora controlada pela Disney – bateu o recorde histórico de audiência no Brasil com a transmissão do jogo entre Barcelona e Real Madrid, pelo Campeonato Espanhol, capturando 3,5 pontos, superando na plataforma fechada inclusive as emissoras gratuitas. Tanto que Globo e Bandeirantes passaram também a transmitir alguns jogos do principal torneio europeu, a Copa dos Campeões, às terças e quartas-feiras.

“Há 25 anos, foi uma aposta ousada. Hoje, a ESPN transmite por ano 900 jogos internacionais”, disse o diretor- geral da ESPN, German Hartenstein. “Estamos criando audiência nova a cada ano. Apenas este ano, a audiência média nas principais ligas europeias cresceu 30%”, afirmou, lembrando que o canal passou a dividir com as concorrentes Fox, SporTV propriedades antes exclusivas da ESPN.

Hartenstein rebate a tese de que os clubes brasileiros estão perdendo audiência por causa da crise do futebol local. De fato, a média de Ibope nas partidas do Brasileirão transmitidas em TV aberta subiu de 16,7 pontos em 2014 para 18,1 pontos em 2015.

Para o diretor do Ibope/Repucom, José Colagrossi, os clubes brasileiros precisam usar vantagens competitivas para reagir a uma tendência que é favorável às marcas estrangeiras. “Paixão, proximidade física e rivalidades locais são grandes vantagens. Mas precisam ser mais bem exploradas pelos clubes”, disse.

Os europeus são craques em transformar paixão de torcedor em receita. Enquanto nos times brasileiros, vendas de produtos oficiais e patrocínios representam fatia de 13% a 17% do faturamento, no Manchester United, por exemplo, essa linha do balanço corresponde a 42%.

“Estamos sempre buscando formas de oferecer produtos e serviços a nossa base de fans em todo o mundo”, disse ao Valor o diretor comercial do time inglês, Jamieson Reigle, que soma 22 parceiros comerciais, de relógio de luxo Bulova ao miojo Nissin.

Para cada produto de time estrangeiro vendido no Brasil, uma marca local perdeu receita. Na Netshoes, que vendeu R$ 1,5 bilhão em produtos esportivos em 2015, a venda de camisas do Barcelona supera alguns grandes brasileiros, como Grêmio, Fluminense e Atlético. Segundo o diretor comercial do grupo, Marcelo Chammas, a venda de itens de clubes estrangeiros cresceu 16% em 2015 sobre 2014 e vai avançar mais 18% este ano. “Quem compra o clube estrangeiro é o jovem, que acompanha as ligas europeias”, afirmou.

A líder em vendas entre as camisas de futebol na Netshoes é a 10 do Barcelona, do argentino Messi, seguida pela 7 do português Cristiano Ronaldo, do Real Madri. Depois, vem a 11 do Barcelona, do brasileiro Neymar.

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