Racionalidade Limitada

Racionalidade Limitada

Ha-Joon Chang, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, fala a respeito de Herbert Simon, ganhador do Prêmio Nobel de economia em 1978. Ele foi possivelmente o último Homem da Renascença na terra. Ele começou como cientista político e depois passou a estudar administração pública, escrevendo o clássico livro na área, Administrative Behaviour. Apresentando ao longo do caminho alguns trabalhos na área da física, ele passou então a estudar comportamento organizacional, administração de empresas, economia, psicologia cognitiva e inteligência artificial (IA). Se alguém já entendeu como as pessoas pensam e se organizam, essa pessoa foi Simon.

Ele argumentava que a nossa racionalidade é “delimitada”. Ele não acreditava que fôssemos inteiramente irracionais, embora ele próprio e muitos outros economistas da escola behaviorista (bem como muitos psicólogos cognitivos) tenham documentado de um modo convincente o quanto o nosso comportamento é irracional. De acordo com Simon, nós tentamos ser racionais, mas a nossa capacidade de sê-lo está gravemente limitada. O mundo é complexo demais, argumentava Simon, para que a nossa inteligência limitada possa compreendê-lo plenamente. Isso significa que, com muita frequência, o principal problema que enfrentamos para tomar uma boa decisão não é a falta de informações, mas sim a nossa capacidade limitada de processar essas informações — um ponto que é belamente ilustrado “pelo fato que o celebrado advento da era da internet não parece ter melhorado a qualidade das nossas decisões, a julgar pela confusão na qual nos encontramos hoje.

Em outras palavras, o mundo está repleto de incertezas. A incerteza a que me refiro aqui não é apenas não saber exatamente o que vai acontecer no futuro. Para certas coisas, podemos calcular razoavelmente a probabilidade de cada contingência possível, embora não possamos prever o resultado exato; os economistas chamam isso de “risco”. Na realidade, a nossa capacidade de calcular o risco envolvido em muitos aspectos da vida humana — como a probabilidade da morte, da doença, de incêndios, de danos, da quebra de safra e assim por diante — é a própria base da indústria do seguro. No entanto, no que diz respeito a muitos outros aspectos da vida, nem mesmo conhecemos todas as possíveis contingências, sem falar nas suas respectivas probabilidades, como foi enfatizado, entre outros, pelo perspicaz economista americano Frank Knight e o grande economista britânico John Maynard Keynes no início do século XX. Knight e Keynes argumentavam que o tipo de comportamento racional que forma a base de grande parte da economia moderna é impossível na presença desse tipo de incerteza.

A melhor explicação do conceito da incerteza — ou, em outras palavras, da complexidade do mundo — foi apresentada, talvez surpreendentemente, por Donald Rumsfeld, o Secretário da Defesa do primeiro mandato de George W. Bush. Em um comunicado à imprensa relacionado com a situação no Afeganistão em 2002, Rumsfeld opinou o seguinte: “Existem dados conhecidos. Existem coisas que sabemos que sabemos. Existem incógnitas conhecidas. Ou seja, existem coisas que agora sabemos que não sabemos. Mas existem também incógnitas desconhecidas. Existem coisas que não sabemos que não sabemos”. Talvez Rumsfeld e muito menos Bush não entendessem exatamente a importância dessa declaração para o nosso entendimento da racionalidade humana…

Então o que fazer, uma vez que o mundo é tão complexo e a nossa capacidade de entendê-lo tão limitada? A resposta de Simon foi que nós deliberadamente restringimos a nossa liberdade de escolha a fim de reduzir a amplitude e a complexidade dos problemas com os quais temos que lidar.

Isso soa esotérico, mas se pensarmos bem, é exatamente o que fazemos o tempo todo. Quase todos nós criamos rotinas na nossa vida para não ter que tomar muitas decisões com excessiva frequência. A quantidade ideal de sono e o cardápio ideal para o café da manhã diferem todos os dias, dependendo da nossa condição física e das tarefas que temos diante de nós. No entanto, quase todo mundo vai para cama sempre na mesma hora, acorda na mesma hora e come coisas semelhantes no café da manhã, pelo menos nos dias de semana.

O exemplo predileto de Simon de como precisamos de algumas regras a fim de lidar com a nossa racionalidade delimitada era o xadrez. Com apenas 32 peças e 64 casas (ou quadrados), o xadrez pode parecer uma coisa relativamente simples, mas na realidade ele envolve uma enorme quantidade de cálculos. Se você fosse um daqueles seres “hiper-racionais” (como Simon os chama) que povoam os compêndios de economia convencionais, é claro que você determinaria todas as possíveis jogadas e calcularia a probabilidade de cada uma delas antes de fazer uma jogada. No entanto, ressalta Simon, como existem cerca de 10120 (isso mesmo, são 120 zeros) possibilidades em um jogo típico de xadrez, essa abordagem “racional” requer uma capacidade mental que nenhum ser humano possui. Na realidade, ao estudar mestres de xadrez “, Simon percebeu que eles usam regras práticas (heurística) para se concentrar em um pequeno número de jogadas possíveis, a fim de reduzir o número de situações que precisam ser analisadas, embora as jogadas pudessem ter produzido melhores resultados.

Se o xadrez é tão complicado, você pode imaginar o quanto as coisas são complicadas na nossa economia, a qual envolve bilhões de pessoas e milhões de produtos. Por conseguinte, da mesma maneira pela qual as pessoas criam rotinas na vida do dia a dia ou nas partidas de xadrez, as empresas operam com “rotinas produtivas”, que simplificam as suas opções e trajetórias de busca. Elas criam certas estruturas de tomada de decisões, regras formais e convenções que automaticamente restringem a amplitude de possibilidades concebíveis que eles exploram, mesmo que as possibilidades assim excluídas de imediato pudessem ter sido mais lucrativas. Mas mesmo assim, elas o fazem, caso contrário poderiam submergir em um mar de informações e nunca tomar uma decisão. Analogamente, as sociedades criam regras informais que deliberadamente restringem a liberdade de escolha das pessoas para que elas não precisem fazer constantemente novas escolhas. Por conseguinte, elas desenvolvem uma convenção para a ordem nas filas para que as pessoas não tenham, por exemplo, que calcular e recalcular constantemente a sua posição em um ponto de ônibus cheio a fim de garantir que entrarão no ônibus seguinte.

Continua em próximo post.

One thought on “Racionalidade Limitada

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s