Confuncionismo e Igualdade de Oportunidades

Confucius_Statue_at_the_Confucius_Temple

Discordo de Ha-Joon Chang quando ele afirma, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, que “o confuncionismo foi uma ideologia tipicamente feudal até ser adaptada às exigências do capitalismo moderno na segunda metade do século XX”.

Na verdade, como sintetiza a Wikipedia, Confúcio, forma latina de Kung Fu Tsé, filósofo chinês do século VI a.C, compila e organiza antigas tradições da sabedoria chinesa e elabora uma doutrina assumida como oficial na China por mais de 25 séculos. Combatido como reacionário durante a Revolução Cultural chinesa (1966-1976), o confucionismo toma novo impulso após as recentes mudanças políticas no país. Atualmente, 25% da população chinesa declara-se adepta do confucionismo. Confúcio deu caráter moral a funcionários ascendentes na carreira com base na meritocracia a obrigação de apoiar o governo e seus representantes.

O confucionismo é um sistema filosófico chinês criado por Kung-Fu-Tsé que se tornaria a doutrina oficial do império chinês durante a dinastia Han (séculos III a. C. – III d. C.), encontrando continuadores ao longo deste período que se destacaram em vários campos diferentes. Donz Zhong shu, por exemplo, buscou revigorar e reinterpretar o confucionismo através das teorias cosmológicas dos cinco elementos (Terra, Madeira, Fogo, Metal e Água). Wang Chong utilizou-se de um ceticismo lógico para criticar as crenças infundadas e os mitos religiosos. Embora tivesse perdido um certo vigor após a dinastia Han, o confucionismo seria novamente desenvolvido no movimento conhecido como neoconfucionismo, datado do século X d.C., através da figura de personagens como os irmãos Cheng e Zhuxi, o grande comentador confucionista.

De qualquer modo, já na Antiguidade o confucionismo atingiu um pleno sucesso, tornando-se uma filosofia moral de profundo impacto na estrutura social e cotidiana da sociedade. O valor ao estudo, à disciplina, à ordem, à consciência política e ao trabalho são lemas do confucionismo incorporado na vida da civilização chinesa da Antiguidade aos dias de hoje.

Note-se que, ao contrário do que muitos afirmam, o confucionismo não se trata de uma religião. Não possui um credo estabelecido, mas apenas determinações rituais de caráter social, que permitem a um adepto do confucionismo a liberdade de crença em qualquer tipo de sistema metafísico ou religioso que não vá contra as regras de respeito mútuo e etiqueta pessoal.

Entre as preocupações do confucionismo estão a moral, a política, a pedagogia e a religião. Conhecida pelos chineses como “ensinamentos dos sábios”. Fundamentada nos ensinamentos de seu mestre, o confucionismo encontrou uma continuidade histórica única. O confucionismo é considerado uma filosofia, ética social, ideologia política, tradição literária e um modo de vida.

Portanto, discordo de Ha-Joo Chang quando ele apresenta o confucionismo como uma ideologia datada no feudalismo: “à semelhança de quase todas as outras ideologias feudais, o confucionismo adotava uma rígida hierarquia social que restringia a escolha das ocupações de acordo com a origem da pessoa. Isso impedia que homens talentosos das castas inferiores fossem além da sua classe social. No confucionismo, havia uma divisão crucial entre os agricultores (que eram considerados a base da sociedade) e as outras classes trabalhadoras. Os filhos dos agricultores podiam prestar o exame (extraordinariamente difícil) para o serviço público estatal e ser incorporados à classe dominante, embora isso raramente acontecesse na prática, ao passo que os filhos dos artesãos e comerciantes nem mesmo tinham permissão para prestar o exame, por mais inteligentes que fossem.

A China, por ser o lugar de origem do confucionismo, se sentia confiante e à vontade para adotar uma abordagem mais pragmática na interpretação das doutrinas clássicas e permitia que pessoas das classes dos comerciantes e dos artesãos prestassem o exame para o serviço público.

A Coreia — por ser mais confucionista do que Confúcio — ateve-se obstinadamente a essa doutrina e recusou-se a contratar pessoas talentosas simplesmente porque elas tinham nascido de pais “errados”. Foi somente depois que os coreanos se libertaram do jugo colonial japonês (1910-1945) que o sistema tradicional de castas foi completamente extinto e a Coreia se tornou um país onde a origem da pessoa não coloca um teto na realização individual. Embora o preconceito contra os artesãos — engenheiros na terminologia atual — e os comerciantes — administradores de empresas na terminologia atual — tenha perdurado por mais algumas décadas até que o desenvolvimento econômico tornou atrativas essas profissões.

Obviamente a Coreia feudal não estava sozinha ao se recusar a conceder às pessoas a igualdade de oportunidades. As sociedades feudais europeias operavam com sistemas semelhantes, e na Índia o sistema de castas ainda está em vigor, se bem que informalmente. Tampouco era apenas em função da casta que era recusada às pessoas a igualdade de oportunidades.

Até a Segunda Guerra Mundial, a maioria das sociedades se recusava a permitir que as mulheres fossem eleitas para cargos públicos; na realidade, era-lhes completamente recusada a cidadania política e elas nem mesmo tinham permissão para votar. Até recentemente, muitos países costumavam restringir o acesso das pessoas à instrução e a empregos em função da raça.

No final do século XIX e no início do século XX, os Estados Unidos proibiam a imigração de raças “indesejáveis”, especialmente os orientais. A África do Sul, durante o regime do apartheid, tinha universidades separadas para os brancos e para o resto (os mestiços [coloured] e os negros), sendo que estas últimas eram precariamente financiadas.

Portanto, não faz muito tempo que a maior parte do mundo emergiu de uma situação na qual as pessoas eram impedidas de progredir individualmente em função da sua raça, sexo ou casta. A igualdade de oportunidades é algo que deve ser altamente promovido.

Muitas das regras formais que restringiam a igualdade de oportunidades foram revogadas nas últimas gerações. Isso se deve em grande parte às lutas políticas dos discriminados — como:

  1. a exigência cartista do sufrágio universal (masculino) na Grã-Bretanha em meados do século XIX,
  2. o movimento dos Direitos Civis dos negros americanos da década de 1960,
  3. a luta antiapartheid na África do Sul na segunda metade do século XX e
  4. a luta das pessoas das castas inferiores na Índia atual.

Sem essas e um sem número de outras campanhas realizadas pelas mulheres, pelas raças oprimidas e pelos membros das castas inferiores, ainda estaríamos vivendo em um mundo no qual restringir os direitos das pessoas de acordo com uma “loteria da condição de nascimento” seria considerado natural.

Nessa luta contra a desigualdade de oportunidades, O Mercado representou uma grande ajuda. Quando somente a eficiência garante a sobrevivência, ressaltam os economistas que defendem o livre mercado, não há espaço para que preconceitos raciais ou políticos se insinuem nas transações comerciais.

Milton Friedman declarou isso de uma maneira sucinta no livro Capitalism and Freedom: “Ninguém que compra pão sabe se o trigo com o qual ele foi feito foi cultivado por um comunista ou um republicano (…) por um negro ou por um branco”. Por conseguinte, argumentou Friedman, O Mercado com o tempo expulsará o racismo, ou pelo menos o reduzirá significativamente, porque os empregadores racistas que insistem em só contratar pessoas brancas serão expulsos por outros de espírito mais aberto que contratam os melhores talentos disponíveis, independentemente da sua raça.

O poder do mercado como “nivelador” é mais difundido do que imaginamos. Como mostra de um modo tão pungente a peça de Alan Bennett transformada em filme, History Boys, os alunos dos grupos desprivilegiados tendem a carecer da segurança intelectual e social, ficando, portanto, em desvantagem na hora de ingressar nas universidades de elite e, por extensão, na hora de conseguir empregos bem-remunerados.

Obviamente, as universidades não precisam reagir às pressões do mercado com a mesma rapidez das empresas. No entanto, se uma universidade sistematicamente discriminasse minorias étnicas ou jovens da classe trabalhadora e só aceitasse pessoas com antecedentes “certos” apesar do seu desempenho inferior, os possíveis empregadores viriam a preferir pessoas formadas nas universidades não racistas. A universidade preconceituosa, para recrutar os melhores alunos possíveis, mais cedo ou mais tarde teria que abandonar os seus preconceitos.

Considerando-se tudo isso, é tentador argumentar que, uma vez que garantirmos a igualdade de oportunidades, livre de qualquer discriminação formal a não ser aquela conferida pelo mérito, o mercado eliminará quaisquer preconceitos residuais por intermédio do mecanismo competitivo. Entretanto, esse é apenas o início. Muito mais precisa ser feito para a criação de uma sociedade genuinamente justa.

 

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