Brasil, Conservadorismo e Familismo

Lilia M S

A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz classifica os elementos que usufruirão do golpe parlamentarista questionáveis e transformariam “o impeachment” em mera retórica política de uma farsa. Autora do best-seller “Brasil, Uma Biografia“, em parceria com a também historiadora Heloisa Starling, e de “As Barbas do Imperador“, sobre d. Pedro II, Lilia é professora na USP e em Princeton (EUA).

Em entrevista concedida a Ricardo Mendonça (Valor 06/05/16), falou sobre legados que devem ser deixados pelo PT, sobre o comportamento dos deputados na votação da abertura do processo de afastamento – marcado pelo que chama de “familismo” – e sobre manifestações do conservadorismo no Brasil. Extraio abaixo de sua entrevista esses comentários sobre Política no Brasil.

Valor: A senhora citou a corrupção como a grande mazela. Acha que, nesse aspecto, tem um peso maior do que a desigualdade?

Lilia: Não. Acho que as nossas sequelas são muitas. Uma delas é a
corrupção. Outra é que é um país profundamente desigual, por mais
que tenham sido feitos esforços desde a nossa Constituição cidadã
[1988]. Ampliamos de forma inédita o nosso quadro de eleitores, mas
ainda falta uma agenda ética, em que a gente possa transformar nosso
sistema político-eleitoral e o comportamento partidário. Práticas
patrimoniais, práticas clientelistas, bovarismo, esse modelo cordial e familiar de fazer política ainda persistem. Há um descontrole das políticas governamentais. Por mais que a gente tenha vivenciado essa ampliação no catálogo de direitos, que incluímos milhões de brasileiros que passaram para um novo patamar de renda e consumo, o país ainda é campeão de exclusão, ainda temos práticas de racismo muito fortes, ainda experimentamos práticas de sexismo – falo como mulher – muito fortes. O país ainda está longe de ser um paraíso republicano.

Valor: A senhora disse que um dos legados do PT é o da luta pela inclusão. No livro, defende que, a partir de 2003, o Brasil assistiu a uma ampliação democrática. Neste instante, o que se vê é a possibilidade real de ascensão ao poder de outras forças. A senhora diria que há algum risco de retrocesso?

Lilia: Bom, não sou cientista política [risos]. História é um jogo de lembranças e é um jogo de esquecimentos também. O desafio agora será a construção desse legado. O PT não acabou, está sofrendo, mas não acabou. Vai reinventar-se a partir desse duplo legado. Não acho que é um primeiro [legado] e um segundo. São os dois. O que vai acontecer daqui para frente? A gente vai ter de observar.

Valor: O que achou, particularmente, do comportamento dos deputados na votação da abertura do processo de impeachment de Dilma?

Lilia: A última coisa que estava em questão para os nobres deputados era o impeachment, os termos do impeachment. Eles fizeram uso do espaço público tal qual um show. Teve deputado que pediu para o suplente ir para casa para ele poder votar e dar o voto, que seria o mesmo que ele sabia que seu suplente iria dar. Era só para aparecer. Teve deputado que se vestiu de verde e amarelo. Mas se você analisar o que eles falaram, foi isso, um show do culto privado. Vou até desconsiderar o que foi aquele show de horror que foi a fala do, enfim, do que elogiou o torturador [Jair Bolsonaro homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, militar considerado torturador pelo Ministério Público Federal]. Vou falar do geral. Uso muito o suposto do Sérgio Buarque de Holanda: a ideia de que o limite para a nossa modernidade, o limite do nosso processo democrático, é, como sempre fazemos, o uso dos valores privados em vez do uso dos valores públicos. O que a gente viu na Câmara foi o uso do local público para a demonstração dos afetos privados. Aquilo: “À minha mulher”, “aos meus filhos”, “aos meus votantes”, “o meu Estado”. Eles não estavam lá para isso. Todos temos famílias. Mas eles estavam em um lugar público. Então era hora de fazer a opção pública. Eles nos representam, não é isso? Eles não estão lá porque representam um Deus, os filhos deles, as esposas. É um comportamento reiterado, que chamo de “familismo“. Que é expandido para outras áreas, que são “os meus valores”, “o meu local”, “o meu Deus”, quando a Câmara deveria ser um lugar de todos nós.

Valor: Essa predominância do “familismo” e das citações a Deus parece ter conexão grande com um certo padrão de comportamento da sociedade brasileira, não? Nesse sentido, a Câmara não acaba sendo um retrato da sociedade, sociedade que votou naqueles candidatos?

Lilia: Eu penso que sim. Não dá para dizer “olha como eles são”. Porque, na verdade, você tem uma representação, é o resultado do nosso voto. De fato, esse é um comportamento que é muito nosso. Outro comportamento muito nosso é o bovarismo. Esse conceito foi utilizado por vários autores, entre eles [o escritor] Lima Barreto, para falar dessa nossa mania de querer ser outro. Vem de “Madame Bovary” [do romance de Gustave Flaubert, do século XIX]. É muito interessante isso, porque a gente vota e, logo em seguida, sai dizendo “quem são esses sujeitos?”, “são todos uns horrores”. Em parte, fomos nós que os colocamos lá. Penso que não dá para fazer essa política de bovarismo. Acho que aquilo nos envergonhou não só porque eles foram assim, mas também porque nós somos assim. É um show nosso, que diz respeito a nós.

Valor: Se aquilo não tivesse eficácia eleitoral, eles iriam se comportar daquele jeito?

Lilia: Claro que não. Todos eles fizeram de olho no voto.

Valor: O comportamento na votação reflete o conceito que eles têm dos eleitores?

Lilia: É. Exatamente. Na verdade, eles estão projetando o que eles acham que os seus eleitores gostariam de dizer naquele momento. É um jogo perverso.

Valor: Na sua opinião, o Brasil está ficando mais conservador?

Lilia: Acho que sempre foi. Acho que o que está acontecendo é que agora está evidente. Lembro, desde a época em que estava na faculdade, colegas meus cientistas políticos diziam que era impressionante o comportamento no nosso Congresso, porque não havia direita declarada, só gente de centro e centro-esquerda. Esse comportamento vai mudando, você vê que a direita vai se manifestando. Você tem um país que tem um passado escravocrata, um passado latifundiário, de grandes propriedades. Não quero crer que seja uma novidade. Não causa susto.

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