Democracia: Exercício de Tolerância e Diálogo com as Diferenças

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Na Guerra Civil espanhola, de um lado, lutavam a Frente Popular, composta pela esquerda comunista, extrema esquerda como o anarquismo, mas também os defensores do governo republicano eleito. Além destes, havia os nacionalistas da Galiza, do País Basco e da Catalunha, que defendiam a legitimidade do regime instalado no Estado, pois a República proclamada em 1931 respeitava os respectivos estatutos de autonomia.

Do outro lado estavam os nacionalistas, compostos por monarquistas, falangistas, carlistas, e outros direitistas. O seu referente político era o general José Sanjurjo, chave da intentona militar de 1932, mas que morreu em um acidente aéreo ao se transladar de Portugal para a zona ocupada pelos nacionalistas. Só durante o decorrer da guerra, os nacionalistas, chefiados por Francisco Franco, aceitaram progressivamente esta sua liderança.

Os sublevados tentavam impedir a qualquer preço que as instituições republicanas assentassem de maneira estável e permanente seu governo democrático. Sob a desculpa de lutar contra o perigo do comunismo e do anarquismo, em certos lugares do Estado nacional, ocultava-se a real tentativa de deter o controle ditatorial e restaurar a Monarquia.

Outra das claras intenções do chamado “Movimiento Nacional“, além de lutar contra o “perigo vermelho“, foi lutar contra o “perigo separatista“, tentando impedir a instituição dos governos autónomos nas regiões classificadas como de nacionalidades históricas.

Aliados à Igreja Católica, Exército e latifundiários buscavam implementar um regime fascista na Espanha. Eles o consideravam mais condizente com a “originalidade espanhola”, ou seja, suas tradições políticas de raiz católica e autoritária.

No entanto, o franquismo não foi o “clássico” fascista a la italiana, se por tal entender-se:

  1. um regime fundado em uma base política de massa,
  2. na mobilização mais ou menos permanente dos seus partidários e
  3. no papel importante atribuído a certos grupos sociais emergentes.

Mesmo antes da queda dos regimes efetivamente fascistas – o italiano e o alemão –, o regime espanhol acabou muito cedo por configurar-se como uma ditadura pessoal apoiada nos grupos dominantes tradicionais, muito semelhante nisto ao Portugal salazarista.

As tropas do chamado “Movimento Nacional” foram reforçadas, desde o início da guerra pela ajuda militar direta da Alemanha de Hitler, expressa no bombardeamento a Guernica e Madrid, e da Itália de Mussolini. Este enviou um corpo de tropas voluntárias para a frente nacionalista, assim como engajou aviões e submarinos no esforço de guerra franquista. O Portugal de Salazar , embora ocultado sob a capa da neutralidade, autorizou o recrutamento de voluntários para combater pelos Nacionalistas, os Viriatos. Permitiu também o abastecimento das tropas rebeldes com armas e logística através de seu território além de recusar a entrada de refugiados. A Irlanda tendo embora o seu governo declarado a participação na guerra como ilegal, cerca de 700 irlandeses combateram pelos Nacionalistas comandados pelo General Eoin O’Duffy, um veterano histórico do IRA que na Irlanda presidia os Camisas Azuis, algo entre uma associação de ex-militares e um partido fascista.

O Vaticano apoiou igualmente Franco, pois a Igreja condenava o comunismo e também porque a política anticlerical do governo da República não lhe oferecia outra alternativa. O papa Pio XI, no entanto, que não tinha simpatias pelo fascismo. Em 1937, publicaria a encíclica em alemão Mit brennender Sorge (“Com profunda preocupação”), condenando a ideologia nazista. Não chegou jamais a oferecer um apoio incondicional ao campo franquista.

No País Basco, que ficou isolado do restante da zona republicana desde o início da guerra, grande parte do clero católico colocou-se ao lado do nacionalismo basco e pela República, escapando assim à sorte dos seus análogos no restante do território republicano, onde as igrejas foram saqueadas e os padres perseguidos como agentes do fascismo. Um grupo de padres bascos, buscando entrevistar-se com Pio XI para conseguirem um protesto seu contra as perseguições franquistas ao clero basco, teria sido impedido de conferenciar com o pontífice pelo seu Secretário de Estado, o cardeal Pacelli. Mais tarde, como papa Pio XII, seria objeto de fortes controvérsias quanto a sua postura em relação ao fascismo.

As tropas republicanas receberam ajuda internacional, proveniente da URSS, recebendo cerca de 326 tanques T-26, 50 BT-7, bombardeiros leves Polikarpov R-5, caças Polikarpov I-15 e Polikarpov I-16 e os bombardeiros ligeiros Tupolev SB, além de armamentos como rifles, metralhadoras e munição.

Recebeu ajuda também Brigadas Internacionais composta de militantes de frentes socialistas e comunistas de todo o mundo e de numerosas pessoas que a título individual entravam na Espanha a defender o governo da República. Vários intelectuais europeus e americanos participaram deste esforço, nomeadamente o romancista americano Ernest Hemingway, o escritor inglês George Orwell, o poeta também inglês W. H. Auden, os escritores franceses André Malraux e Saint-Exupéry e a matemática, católica e activista política, também francesa, Simone Weil. Dos brasileiros que lutaram nas Brigadas, principalmente militares comunistas de prévia militância na Aliança Nacional Libertadora, celebrizar-se-ia, sobretudo, Apolônio de Carvalho, cuja atuação nas Brigadas seria seguida, após seu internamento na França, pela sua participação heroica na Resistência Francesa. Depois, ele foi um dos fundadores do PT no Rio de Janeiro.

Os governos da Inglaterra e da França, optaram por ficar de fora, impondo um embargo geral à exportação de armas à Espanha. Oficialmente, este embargo foi furado pela Alemanha e pela Itália, e não levou a qualquer consequência, na ausência de sanções impostas pela Liga das Nações.

A Inglaterra sediou o o Comitê de Não Intervenção, só que este comitê só funcionava para impedir que ajuda internacional chegasse a República espanhola através da fronteira francesa e da Baía de Biscaia. Os nacionalistas, liderados pelo fascista Franco, recebiam farto armamento e reforços pela fronteira portuguesa e pelo Mediterrâneo, tal fator alterava decisivamente a correlação de forças a favor dos fascistas.

Para os anarquistas e outros críticos de Extrema Esquerda, boa parte da culpa da derrota do campo republicano espanhol pode ser creditada à política de Josef Stalin. Este, embora desejoso da vitória da República, temia que esta vitória levasse a uma revolução socialista na Espanha que criasse complicações diplomáticas à União Soviética. Argumentava que um “Outubro Espanhol” criaria uma divisão ideológica na Europa Ocidental que atuaria contra a política de uma Frente Popular antifascista que era o grande objetivo de Stalin à época.

A URSS foi capaz apenas de realizar uma ajuda militar tímida, pelo envio de alguns militares, aviões e armas. Por estas exportações de armas, Stálin exigiu ser pago com a reserva de ouro do Banco Central Espanhol. Stálin instalou na Espanha uma série de agentes da sua polícia secreta, o GPU, que desencadeou uma política de repressões indiscriminadas contra militantes de Extrema Esquerda, anarquistas e trotskistas, visando conter a Guerra Civil dentro de um marco democrático-liberal.

O ponto alto destas repressões foi a prisão e morte sob tortura de Andreu Nin, dirigente catalão do semi-trotskista POUM – Partido Operário de Unificação Marxista. Stálin encarcerou e matou como traidores os executantes desta política, tais como o velho bolchevique Antonov-Ovssenko, que havia comandado em 1917 a tomada do Palácio de Inverno do tsar em São Petersburgo, quando se deu seu retorno à URSS, de modo a impedir o questionamento de sua política espanhola.

Isaac Deutscher sumariza: ao tentar preservar a respeitabilidade burguesa da Espanha republicana, sem querer antagonizar as democracias liberais europeias, Stalin não preservou nada e antagonizou a todos. A causa da revolução socialista foi perdida, sem que a direita europeia, por um momento sequer, deixasse de ver em Stalin o agitador revolucionário.

Teve fim a Guerra Civil espanhola com a consequência da morte de mais de 400 mil espanhóis e uma depressão enorme na economia, como a morte de mais da metade do gado, a queima de vários campos, e milhões de moradias destruídas. Um abalo financeiro e queda do PIB que demorou quase 30 anos para se normalizar.

Houve dificuldade em quantificar o número de mortos por causa da guerra originada pelo chamado “Movimiento Nacional”. Estima-se, para todo o período do franquismo, mais de 2 milhões de pessoas mortas sob o regime fascista.

Vale registrar também a revolução social ocorrida nas áreas controladas pelos anarquistas, Aragão e Catalunha. Somando-se às suas vitórias militares temporárias, existiu uma grande mudança social na qual:

  1. os trabalhadores e camponeses se apoderaram da terra e da indústria,
  2. estabeleceram conselhos operários paralelos ao governo, que estava paralisado, e
  3. autogestionaram a economia.

Esta revolução social ocorreu à revelia dos republicanos e comunistas apoiados pela União Soviética. A coletivização agrária obteve um êxito considerável, apesar da carência de recursos, já que as terras com melhores condições para o cultivo estavam em poder dos nacionalistas fascistas. Esse êxito sobreviveu na mente dos revolucionários libertários como uma prova de que uma sociedade anarquista pode florescer sob certas condições como as que haviam durante a Guerra Civil Espanhola.

Mais tarde, durante o conflito, o governo e os comunistas receberam armas soviéticas, com as quais restauraram o controle do governo e se esforçaram por ganhar a guerra através da diplomacia e do poder bélico. Os anarquistas e os membros do POUM foram integrados ao exército regular, ainda que a contragosto. Então, o POUM foi declarado ilegal, após ser falsamente denunciado como instrumento dos fascistas.

Em um dos episódios mais dramáticos da Guerra, centenas de milhares de soldados comunistas e militantes anarquistas, ambos antifascistas, enfrentaram-se uns aos outros pelo controle dos pontos estratégicos de Barcelona, nas chamadas “Jornadas de Maio de 1937”. Por trás desse conflito estava a divergência básica entre PCE, de um lado, e POUM e CNT, de outro. Estes acreditavam que a guerra devia servir para conduzir à vitória na revolução que tinham iniciado. Já o PCE acreditava que a revolução lhes minava os esforços diplomáticos para ganhar o apoio das potências ocidentais contra o fascismo, assim como seu esforço de controlar a economia e a sociedade de maneira geral.

Por fim, cabe o registro histórico que na Galiza, zona que ficara na “retaguarda fascista” (militarmente ocupadas logo no início), a luta republicana encontrou a forma de guerrilhas organizadas que levaram a luta até depois de 1940. A resposta através do método das guerrilhas manteve-se na Galiza até 1956. Após a denúncia dos crimes de Stálin, iniciou-se um período de decadência a partir desta data, devida em parte ao abandono dessa estratégia por parte do PCE. Ocorreram os últimos assaltos e combates em 1967, com a morte do último guerrilheiro e o exílio doutros. Segundo dados fornecidos por diferentes historiadores, foram presas ou mortas cerca de 10 000 pessoas relacionadas com a guerrilha galega durante esses anos.

O Franquismo instaurou na Galiza o método dos “passeios”: ir procurar pessoas a sua casa para “passeá-los”, ou seja, fuzilá-los à noite e deixá-los nas valetas. Através deste método do “passeio”, dos conselhos de guerra realizados contra civis, dos fuzilamentos maciços dos prisioneiros e dos confrontos armados com a guerrilha morreram 197 000 pessoas galegas durante o regime franquista, das quais a grande maioria continua em valas comuns. Quanto ao exílio, cerca de 200 mil galegos fugiram exilados para outros países nesse período. Existem ainda, em cada cidade ou vila, lugares não reconhecidos de fuzilamento maciço e continuado de pessoas que foram consideradas “perigosas” pelo regime fascista.

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