Integração Ideológica Hegemônica para Direção Consensual e Coesão Social

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Outras lições da história da Guerra Civil espanhola dizem respeito ao questionamento da ideologia comunista stalinista, realizado por Antonio Gramsci, o conhecido italiano criador da Teoria da Superestrutura. Ele é anti-fatalista, vai contra o positivismo economicista que privilegia o papel dos “fatos econômicos” em detrimento da vontade e da ação política. A vontade humana é o verdadeiro motor da história. Não há nenhum determinismo econômico no sentido que o Estado só possa favorecer os interesses da classe dominante.

Temos de entender o Estado dentro de suas contradições. Gramsci sugere que há duas esferas essenciais no interior da superestrutura do capitalismo, que conformam o Estado como soma da sociedade política e da sociedade civil. A primeira é o aparato da coerção estatal; ela é função do domínio direto ou de comando que se expressa no Estado e no governo jurídico. A segunda é o conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e difusão das ideologias; ela compreende o sistema escolar, as igrejas, os partidos políticos, as organizações sindicais e profissionais, os meios de comunicação, as organizações de caráter científico e artístico, etc.

O Estado é constituído, então, por uma hegemonia revestida de coerção. A dominação social se daria através dessa unidade de repressão violenta e de integração ideológica. No âmbito da sociedade civil, as classes buscam exercer sua hegemonia, isto é, buscam ganhar aliados para suas posições, através da direção e do consenso. O Estado constitui uma unidade contraditória entre a coerção – violência repressiva –, a coesão – dominação ideológica – e a necessidade de reprodução do “capital em geral”. Este último ponto salienta que não se deve subestimar o papel da economia na vida social.

Então, o Estado possui uma autonomia relativa em relação os interesses particulares de capitalistas. A integração ideológica supõe também que o Estado leve em conta, em certa medida, os interesses materiais das classes dominadas e exploradas. Os interesses limitados dos capitalistas individuais podem ser, assim, “sacrificados” em nome dos interesses da classe dominante em seu conjunto, isto é, da reprodução do sistema capitalista.

Logo, uma afirmação que pode ser correta em relação a um capitalista individual, pode não se aplicar à classe capitalista como um todo. Este é o sofisma da composição: da agregação dos componentes (“partes”), que interagem entre si, emerge um fenômeno macroscópico (“o todo”) não visualizado em ótica microscópica.

Abaixo continuo a edição do verbete da Wikipedia sobre a Guerra Civil espanhola, desta feita em seus aspectos ideológicos. São lições de história para os brasileiros.

A esquerda libertária, na Espanha, tinha, desde os inícios do século XIX, sido violentamente anticlerical. Entre os anarquistas, muito influentes na Esquerda, o anticlericalismo havia sido sempre particularmente agressivo, ao contrário dos socialistas marxistas.

A Guerra Civil foi a conclusão dos enfrentamentos político-ideológicos do século XIX espanhol. A identificação da Igreja com a Direita determinou o anticlericalismo da Esquerda na sua generalidade.

Em 14 de outubro de 1931, no jornal El Sol, o então primeiro-ministro Azaña equiparara a proclamação da República com o fim da Espanha católica. Durante a Guerra Civil, como Presidente da República, teria dito, em um de seus discursos, que “preferia ver todas as igrejas de Espanha incendiadas a ver uma só cabeça republicana ferida”. O radical catalão Alejandro Leroux teria conclamado a juventude a destruir igrejas, rasgar os véus das noviças e “elevá-las à condição de mães”.

A perseguição religiosa, durante a Guerra Civil espanhola, apenas continuou um padrão já existente: nos só quatro meses que precederam a guerra civil já 160 igrejas teriam sido incendiadas. Durante a Guerra, pela repressão da II República, segundo o historiador Hugh Thomas, foram mortos 6861 religiosos católicos (12 bispos, 4.184 padres, 300 freiras, 2.363 monges). Ainda segundo Thomas, “em nenhuma época da história da Europa, e provavelmente do mundo, manifestou-se um ódio tão apaixonado contra a religião”. Foram destruídas por volta de 20.000 igrejas.

Por sua violência, aquele período de repressão tornou-se conhecido como o Terror Rojo (“Terror Vermelho”). Estudioso de história da Espanha, Stanley G. Payne, afirma que perseguição aos cristãos espanhóis foi “a maior na Europa ocidental, mesmo comparada aos momentos mais duros da revolução francesa”.

A Igreja Católica, na sua generalidade, propagandeava a revolta contra o governo republicado eleito democraticamente. Chegou a compará-la, em uma declaração coletiva de todo o episcopado com uma “cruzada moderna”.

Os mesmos bispos espanhóis mostraram-se ciosos em desmentir à opinião católica liberal, que via na intransigência conservadora do clero espanhol a razão das perseguições por ele sofridas. Argumentavam que a Constituição republicana de 1931 e todas as leis subsequentes haviam dirigido a história espanhola em um rumo contrário à sua identidade nacional, fundada no catolicismo. Nas palavras do Cardeal Pedro Segura y Sáenz: “na Espanha ou se é católico ou não se é nada”.

[FNC: veja a que a intolerância religiosa pode levar; o respeito ao Estado laico é precondição para a democracia e o convívio tolerante entre religiosos e ateus.]

Muito embora houvessem sido realizados esforços de propaganda pelos republicanos no exterior em favor da liberdade religiosa, de forma a não alienar a opinião pública católica internacional e os próprios grupos católicos no campo republicano, este era, em geral, anticlerical e apoiava a repressão à Igreja. Por outro lado, o escritor e filósofo católico francês Jacques Maritain protestou violentamente contra as repressões franquistas contra o clero basco, e teria dito que “a Guerra Santa, mais do que ao infiel, odeia ardentemente os crentes que não a servem”.

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