“O Temer me apavora porque além de corrupto é conservador e autoritário”

Miguel Amaral, nosso “correspondente europeu”, enviou agora uma entrevista que Gregório Duvivier fez ao Diário de Noticias, onde realiza uma análise mais exaustiva. Normalmente, na sua opinião, “são os humoristas que têm a visão mais lúcida da realidade porque têm essa faculdade ou sensibilidade para detectar o que a nossa cegueira (enviesamentos) não nos deixa ver”.

Em Portugal, para subir aos palcos com ‘Uma Noite na Lua‘, o humorista da Porta dos Fundos fala sobre o impeachment de Dilma e a subida ao poder de Temer, que considera um golpista. “Se a fúria nacional era contra a corrupção, então ela vai ter de continuar”, defende Gregorio Duvivier

Tem defendido, tal como a presidente Dilma Rousseff, que o impeachment é um golpe. Porquê?

Porque o facto de estar a respeitar os processos constitucionais não faz que seja constitucional. Porque não há flagrante, não há crime. A alegação do impeachment, a tal pedalada fiscal, é algo que foi praticado por todos os presidentes, não só brasileiros. Se começarem a cair por isso, caem todos os presidentes do planeta. É uma minúcia que pegaram para derrubar uma presidente democraticamente eleita e colocar no seu lugar um homem que tem 1% das intenções de voto. Ninguém gosta de Michel Temer. Sempre foi uma presença nefasta. Ele era um braço podre do governo e o governo está sendo deposto em nome de um braço podre que vai assumir. Um vice-presidente golpista, chantagista, que está desde o primeiro mandato a negociar e que já apresentou um programa de governo terrivelmente nefasto.

 

Porque o considera nefasto?

O plano de governo que ele chama “Ponte para o futuro” é uma ponte para o passado. Corta os direitos dos trabalhadores, os direitos sociais… Nos ministros, não tem tem uma mulher pela primeira vez desde a ditadura militar. Nem negros. Vai cortar no Ministério da Cultura e nomear para a Ciência e Tecnologia um bispo da Igreja Universal… Vai botar na Comissão de Direitos Humanos o coronel Telhada, responsável por uma chacina. Não é uma questão de ser mais à direita ou mais neoliberal. É criminoso, é genocida. Um dos grandes problemas da Dilma é ela só estar a falar de golpe agora quando o golpe já está consumado. Devia ter falado desde o começo. Não só internamente.

Ainda é possível travar o processo?

Acho que talvez o Supremo Tribunal Federal ainda intervenha. Se existir ainda, intervirá. O problema é que a justiça no Brasil é muitas vezes um braço da política, que acaba por agir em prol dos partidos. Por exemplo, não tenho dúvidas de que a Lava-Jato vai ser interrompida. As pessoas veem os políticos a ser presos e falam “nunca se roubou tanto”. Mas não é que nunca se roubou tanto, é nunca se prendeu tanto. Porque uma das vantagens do governo do PT, e não são muitas, é que eles deram total independência à polícia federal e ao judiciário. E isso é novo no Brasil. No tempo do Fernando Henrique Cardoso, o procurador-geral era conhecido como o engavetador-geral, a função dele era arquivar processos. Então tinha aquela falsa impressão de ética, limpeza, quando na verdade o que havia era uma podridão gigante.

“Não tenho dúvidas de que a Lava-Jato vai ser interrompida”

A corrupção não é de agora…

Nenhum dos esquemas da Lava-Jato foi inventado pelo PT, mas vende-se que tirando o PT acaba a corrupção, como se o PT tivesse inventado a corrupção no Brasil. Quando na verdade o que acontece é que essa corrupção está exposta. O discurso agora vai ser que Temer é um bastião de ética, quando está encalacrado de escândalos. Vão dizer: tirámos esse cancro que é o PT e agora finalmente vamos fazer um governo limpo. Só que esse governo já nasce sujo de lama. Além da ilegitimidade democrática, ele já nasce mergulhado em escândalos.

Numa das suas crónicas escreveu que o impeachment é uma “desratização comandada por ratos” e noutra que é como “botar uma raposa a cuidar do galinheiro”…

Temos um impeachment comandado por réus. Os juízes deste impeachment são réus. As pessoas olham para aquele Congresso e ninguém diz “que orgulho dessa gente”. Mesmo as pessoas que eram a favor do impeachment ficaram envergonhadas com aquela votação. Havia muita gente a favor que pensou: “Foi para isso que a gente foi às urnas?” Para essas pessoas agora estarem a falar em nome de Deus e da família, do filho que faz anos, da Igreja… Foi muito bom o Brasil ter visto aquilo e visto como o nosso Congresso é podre, despreparado, ignorante.

” O nosso Congresso é podre, despreparado, ignorante”

Assusta-o Temer na Presidência?

Me apavora o Temer na Presidência. Em todos os sentidos. Porque além de corrupto é conservador e além de conservador é autoritário. É um sujeito que não tem nenhum diálogo com a classe trabalhadora. No plano de governo dele não existe uma vez a palavra povo ou trabalhadores. Mas há nove vezes a palavra mercado e algumas vezes a palavra Bolsa. É um governo neoliberal totalmente voltado para o mercado. A queda da Dilma está diretamente vinculada a uma subida na Bolsa. E muitos brasileiros acham isso bom. “Está a ver como tinha de cair, a Bolsa está subindo.” Mas na verdade, para mim, é exatamente o contrário: “Está a ver porque ela caiu, porque a Bolsa subiu.” Ela está sendo tirada pelo mercado, que é a única entidade que aprova o governo de Temer. Estão tentando criar uma imagem de que é um conciliador, que vai nos tirar desse buraco. O mais doido é que se tirar desse buraco é fazer o dólar baixar, acho que ele consegue. Se tirar desse buraco é cortar as leis dos trabalhadores, ele consegue. O problema é que a classe média, que está pedindo a deposição da Dilma, não se apercebe de que ao roer o chão do PT está roendo em volta dela mesma e vai cair junto.

Também escreveu que a Al-Qaeda é melhor do que o PMDB…

[risos] É um pouco exagerado, mas a Al-Qaeda tem uma ideologia que pode ser combatida. O PMDB você não pode nem combater. Porque ele está sempre de acordo com quem estiver no poder. É um partido sanguessuga, que em 27 anos de “democracia” botou o terceiro presidente no poder sem nunca ter sido eleito. O primeiro foi o José Sarney, que estava ali após a morte do Tancredo Neves. Depois, Itamar Franco, que era vice do Collor de Mello. É um partido de vices, de gente que governa porque está ali na rebarba. É um partido de sanguessugas, sem ideologia a não ser a perpetuação no poder. O partido dos chantagistas. Eles são indispensáveis para se governar o Brasil e ao mesmo tempo tornam impossível governar com eles.

” O PMDB é um partido sanguessuga que em 27 anos de “democracia” botou o terceiro presidente no poder sem nunca ter sido eleito”

A solução são novas eleições?

Eu acho que a única saída mesmo é lutar até ao final e, se for o caso, eleições diretas. Se a insatisfação com Dilma é tão grande que não dá para tolerar, então vamos para eleições diretas. O que não dá é a gente voltar à ditadura militar, em que havia eleições indiretas. O governo Temer é insustentável. Acho que no Brasil a gente tem de se unir. Direita, esquerda, todo o mundo. As passeatas nas ruas não eram contra a corrupção? A direita, ao abraçar o projeto Temer, deixa claro que não era contra a corrupção, era contra a esquerda, as conquistas sociais. Isso vai ficar claro se as pessoas deixarem as ruas. Agora, se a fúria nacional era contra a corrupção, então ela vai ter de continuar contra Temer. Não vai poder arrefecer.

De quem é a culpa do que está a acontecer. Da presidente Dilma que não soube manter a base aliada ou será do ex-presidente Lula que a escolheu como sucessora?

Acho que é um pouco dos dois. Mas acho que o principal erro foi quando o PT se aliou aos piores políticos do Brasil. Quando em nome da governabilidade se aliou a Michel Temer, a Eduardo Cunha… Para mim, a culpa é do PT, que não teve a coragem de romper com os picaretas. Pelo contrário, adotou-os, abraçou-os, trouxe-os para dentro de casa. O PT não descobriu agora que o PMDB é um partido nojento, golpista, sabe desde o começo. E a culpa é também da esquerda, e aí me incluo, porque ao acharmos que tínhamos um governo de “esquerda” não fomos às ruas. A gente viu o PT abraçando o PMDB e não fez nada, porque era o Lula e a Dilma, eles são de “esquerda”. São de esquerda mas não fizeram a reforma agrária, são de esquerda mas aliaram-se ao PMDB, são de esquerda mas tiveram um governo ambientalmente catastrófico… Então é uma esquerda que serviu muito a direita e, no momento que não servia mais, caiu. A Dilma não cai por causa dos erros, da corrupção, porque não fez a reforma agrária ou a questão ambiental. Cai por causa das poucas coisas que fez bem. Cai por causa da luta contra a corrupção e por causa das conquistas sociais.

Ataca o PMDB, mas e o PSDB?

O PSDB já foi um partido com alguma ideologia, porque o Fernando Henrique Cardoso era um sujeito que tinha uma ideologia supostamente social-democrata, mas acabou-se revelando neoliberal, tinha um projeto de um país, podíamos concordar ou não. Era a estabilidade da moeda, mas ao mesmo tempo investimento em educação, tinha algumas coisas boas. Era um partido com intelectuais, com pensamento. Hoje virou o partido do coronel Telhada, do genocídio da população negra, do Alckmin, da Opus Dei. É um partido que defende a diminuição da maioridade penal. Para fazer oposição ao PT, o PSDB fez alianças ainda piores. E transformou-se num partido nefasto que negociou para entrar no governo golpista. Como é que pode se era tão contra a corrupção?

” Não votaria nele (Lula) no primeiro turno”

A primeira vez que votou, votou em Lula. Se ele voltar a ser candidato, voltará a votar nele?

Não. A não ser que seja no segundo turno Lula contra Aécio ou contra Serra. Aí sim, seria obrigado a votar no Lula, como fui obrigado a votar na Dilma no segundo turno. Porque o PT nunca vai ser a minha primeira opção com toda esta história. Não concordo com o ponto de vista ambiental, com a questão indígena, com as alianças ou com um trilião de coisas que ele fez. Então não votaria nele no primeiro turno.

Talvez em Marina Silva?

A Marina é brilhante, é carismática, mas rodeou-se das piores pessoas do mundo. E é contra o casamento gay. Além disso, é uma pessoa que tem uma grande contradição dentro dela, e enquanto não a resolver não é viável. Tem de decidir o que é. É ambientalista ou é criacionista? Dá para ser os dois? Não sei. Fica mudando de opinião o tempo todo.

Então quem?

Não sei quem vai ser. E tenho muito medo porque, quando há desconfiança muito grande na classe política, quem acaba ganhando são os “não políticos”. E isso no Brasil é perigosíssimo, porque quem o povo entende como não políticos são os militares, como Bolsonaro, os pastores, como Marco Feliciano…

E também os juízes….

E os juízes, exatamente. O meu grande medo no Brasil é a ascensão dos não políticos, porque acho que conseguem ser piores do que os políticos. São os candidatos do ódio, da ignorância. O Bolsonaro é uma aberração sem tamanho, um neonazi, um idolatra e torturador. Que diz que homossexuais têm de levar porrada. Num país civilizado, esse homem estava preso, porque isso é crime de incitação ao ódio, mas o Brasil não está levando esse cara com a seriedade que devia. Tem 8% das intenções de voto.

Falei dos juízes porque Sérgio Moro é muito popular. Como olha para a Lava-Jato? Acha mesmo que vai ser esquecida…

Não tenho dúvidas. Acho muito difícil que continue. O próprio Moro já falou que tem planos para encerrar a Lava-Jato, que já deu o que tinha que dar. Era uma operação para acabar com o PT, não era contra a corrupção. Tanto é que o Aécio Neves foi citado seis vezes e está aí em liberdade, votando a favor do impeachment. Então, não tenho dúvidas de que era uma operação política, que já deu o que tinha a dar.

” Essa manobra de botar Lula no ministério foi ridícula, foi uma tramoia. Isso também foi uma forma de golpe que o PT tentou dar”

Desiludiu-o o facto de que, quando surgiu o nome de Lula no processo, se tenha tentado fazer dele ministro para travar a investigação?

Sim, e essa é uma coisa que não podemos perder enquanto críticos do impeachment, que é a crítica ao governo. Essa manobra de botar Lula no ministério foi ridícula, foi uma tramoia. Isso também foi uma forma de golpe que o PT tentou dar. As pessoas tentaram justificar dizendo que como eles usavam armas sujas também tínhamos de as usar. Esse é o grande problema do PT, se rebaixar para fazer política. O PT acha que os fins justificam os meios e por isso rouba para distribuir pão. O que é inédito no Brasil. O PT foi o único partido, até agora, que tentou fazer distribuição de rendimento. O que estão tentando fazer agora não é parar de roubar, é continuar roubando sem distribuir rendimento. Essa é a grande diferença.

O PT tem futuro?

Vai ter de se reinventar. Talvez lhe faça bem voltar a ser oposição. Tomara que infernize a vida do Temer. É tudo o que eu torço, para esse homem não fazer um governo tranquilo.

Ficou surpreendido com a reação negativa ao vídeo Delação da Porta dos Fundos?

Ficámos. O Porta é um grupo em que a maioria é antipetista e esse texto foi escrito pelo Fábio Porchat, que votou Aécio. Mais, há 12 sketches batendo em Dilma. E aí o Fábio vem dizer que seria engraçado bater do outro lado, uma vez. Mas não. Eu gostei porque eles viram o que eu sempre falei, que não há simetria do ódio. As pessoas dizem que os dois lados se odeiam. Não é assim. O ódio é muito maior do lado de lá. Eu sei porque vivo isso há anos por defender não o PT mas a legitimidade desse governo. Eu andava na rua e havia pessoas que gritavam “comunista” porque estava a defender a legitimidade de um governo que nem é de esquerda. Mudei de bairro também por causa disso. O macartismo no Brasil é uma doença séria.

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