Cadê os Indignados?

golpistas

A cada dia fica mais exposto o cinismo dos reacionários “moralizadores”. Como cobra Vladimir Safatle (FSP, 20/05/16), “se todo o processo de “impeachment” de Dilma Rousseff tivesse sido, de fato, impulsionado pela indignação popular contra a corrupção sistêmica no governo, teríamos, neste exato momento, um barulho ensurdecedor de panelas, milhares de pessoas iradas vestindo verde e amarelo nas ruas e a imprensa em coro pedindo a destituição do presidente interino e seu governo postiço de corruptos. Uma semana bastou para mostrar ao mundo o grau zero de comprometimento contra a corrupção da oligarquia que tomou de assalto o poder.

Mas não, meus amigos, vocês não estão ouvindo panelas, nem vendo seu vizinho urrar impropérios contra o governo, nem o senhor Sérgio Moro continua no noticiário com sua pretensa caça implacável e destemida contra usurpadores do bem comum. Não há nada no horizonte das famílias que tiravam selfies com a Polícia Militar que indique um desejo incontido de gritar “agora, é fora Temer“.

(…) Se, de fato, toda esta história sobre indignação contra a corrupção era uma farsa tosca, o que realmente aconteceu? Digamos que o Brasil viveu nestes últimos meses uma grande expiação, uma espécie de Carnaval macabro de liberação da frustração social que tinha como única finalidade tirar dessa liberação sua potência de transformação real e transformá-la em uma ação espetacular e improdutiva. Como em uma terapia catártica, a frustração social [pelas consequências da crise mundial terem finalmente atingido o Brasil] foi expiada por meio da imolação de uma presidenta. E assim tudo pode depois voltar ao normal”.

“Sobrou então (…) a simples tradução deste desencantamento generalizado em frustração social bruta, com direito a rituais de expiação e espetáculos de liberação de falas “politicamente incorretas” contra inimigos imaginários. Falas que repetem o mero prazer infantil de enunciar palavras proibidas marchando ao lado de patos gigantes e bonecos infláveis que pareciam saídos de desenhos animados. A temática da corrupção foi apenas a senha para começar esse Carnaval impotente. Seu destino era terminar ali.

Expiada a frustração, sacrificados os inimigos, todos podiam então voltar para casa e se submeter aos mesmos políticos corruptos de sempre, enquanto eles espoliam ainda mais nossos direitos. Assim, a era das panelas em fúria terminou. Agora, a verdadeira era da indignação pode começar.”

Depois da expiação, resta a espiadela do assalto ao butim dos mesmos políticos corruptos de sempre. E a direita dá seu sorriso de hiena por poder fazer novo desmanche do Estado social-desenvolvimentista… Sem necessidade de obter votos para isso…

Direita02

Cristian Klein (Valor, 20/05/16) avalia que o processo de golpe de Estado “é um momento crítico da democracia brasileira que delimitou bem os campos políticos na aparente geleia geral de 25 legendas com representação na Câmara – a maior fragmentação partidária do mundo.

No que interessa para grandes movimentos do sistema, no entanto, há apenas três partidos ou blocos:

  1. uma esquerda com cem deputados (cerca de 20%), encimada pelo PT;
  2. um grupo de siglas centristas e de direita mais ideológica, que fizeram oposição aos 13 anos de governo petista, com o PSDB à frente, composto por 25% dos parlamentares; e
  3. a miríade de pelo menos 13 partidos, encabeçados pelo PMDB, cuja linha de atuação básica é o fisiologismo e reúnem em torno de 280 deputados, nada menos que 55% do Parlamento.

É esse “centrão”, com apoio da antiga oposição, que atualmente governa o país, depois de ter coadjuvado tucanos e petistas. Mas não é Temer o seu comandante. É o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, como vem ficando claro na montagem do ministério e das negociações para postos-chaves, a exemplo da indicação de André Moura (PSC-SE) – tão aliado de Cunha a ponto de ser considerado outro de seus “paus mandados” – para líder do governo na Câmara. Temer teve que aceitar. Como aceitou outros preferidos do deputado fluminense, réu na Lava- Jato. Até o ministro da Justiça, que advogou para Cunha!

A principal característica dos partidos do “centrão” não é a falta de clareza ideológica. O PP – herdeiro do PDS e da Arena, sustentáculo da ditadura militar – é arauto do pensamento conservador, especialmente na economia. O PSC – que acaba de filiar o radical Jair Bolsonaro – e o PRB – braço político da Igreja Universal do Reino de Deus – são legendas de direita, sobretudo na dimensão de valores, do comportamento.

O traço que distingue as siglas do “centrão” é o fato de serem, essencialmente, partidos parlamentares. Em diferentes graus, não são atores relevantes nas disputas eleitorais aos cargos executivos mais importantes. O maior deles, o PMDB, desde 1994 não concorre à Presidência da República, embora faça questão de brigar por cada palmo dos Estados. Os outros, longe disso. Dos 27 governadores, 20 (quase 75%) pertencem a PT, PSDB, PMDB e PSB.

A lógica das corridas majoritárias, concentradora de votos, leva a maioria das pequenas e médias legendas a voltar suas energias às eleições proporcionais ao Legislativo. As vagas conquistadas são, então, transformadas, indiretamente, em poder executivo, pela troca de apoio parlamentar por cargos em ministérios, secretarias estaduais e empresas estatais – quando não por dinheiro mesmo. A barganha, a chantagem, o fisiologismo tornam- se a principal estratégia de sobrevivência e crescimento – e não a defesa de programas consistentes. Mesmo quando concorrem ao Executivo.

Bolsonaro candidato a presidente em 2018 é mais artifício do PSC para aumentar bancada de deputados federais e estaduais – e o poder de barganha do partido num segundo turno – do que um projeto majoritário nacional de fato.

A seção regional mais expressiva do PSC fica no Sergipe. É dali que vem André Moura. O deputado, braço-direito de Eduardo Cunha, tem longa ficha. É réu em três ações penais no Supremo Tribunal Federal, acusado de desviar dinheiro público. E é investigado em, ao menos, mais três inquéritos, entre eles por corrupção na Petrobras, no âmbito da Lava-Jato, e por supostamente ter participado de uma tentativa de homicídio.

Em Sergipe, André Moura é aliado de outro Eduardo, Amorim, senador, também pelo PSC. Com o irmão e empresário Edivan, Eduardo Amorim chegou a Brasília depois de montar um grupo político controlador de 11 siglas médias, pequenas e nanicas. André Moura, um deputado do baixo clero que ascende na Câmara, é resultado de uma espécie de “centrão” estadual. O “centrão” do menor Estado brasileiro é capaz de produzir um senador da República e o líder do governo na Câmara. O [centrão] nacional é anticlímax para os que foram às ruas enrolados em bandeiras de apoio ao juiz Sérgio Moro e à moralização da política.🙂

Manipular a fragmentação partidária, juntar todos os seus cacos de representação, dar-lhes forma e sentido num grupo de pressão, para ocupação de espaços de poder, virou um negócio da China – não fosse prática mais do que brasileira. A consequência para a governabilidade, em vez de favorável, tem sido ruinosa. Depois de mais de 22 anos na Presidência, PT e PSDB não aumentaram sua representação na Câmara. Pelo contrário, a viram reduzida de 31%, em 1998, para os atuais 22%. Os polos do sistema se enfraqueceram, e os satélites vitaminaram-se.

O PMDB também perdeu tamanho, de 16% para 13%, mas avançou em sua posição relativa. Passou de terceira maior bancada para a primeira, o que lhe garante a primazia na indicação dos cargos de liderança na Câmara.

O “centrão”, entre outras origens, cresceu sobre os escombros do PFL, que elegeu 105 deputados (20%) em 1998 e agora, como DEM, conta com apenas 28 (5%). O “centrão” de hoje, que de centrista não tem nada, é a direita de ontem que não topou ficar fora do governo. Pulverizou-se.

No ambiente de extrema competição, o PMDB, por ser o maior e ocupar o centro do espectro ideológico, é o guia e a inspiração para as demais legendas fisiológicas e governistas. Mas trava disputa latente com elas ao mesmo tempo em que precisa liderá-las. O radicalismo de Cunha, ao promover uma cruzada pelo impeachment, também pode ser entendido como resultado desse movimento. Empurrou o PMDB da Câmara para a direita.

O PMDB que reina no Senado, no entanto, tem outra lógica. É mais Norte e Nordeste, mais hegemônico na Casa, mais zeloso com as repercussões sobre os quintais dos caciques estaduais – que os dominam por meio de eleições majoritárias.

Como se sabe, a principal clivagem do partido de Temer é entre o PMDB da Câmara e o do Senado. Uma divisão que ontem se expôs no fogo cruzado entre Cunha e Renan Calheiros. O presidente do Senado também é notório antagonista de Temer, que foi presidente da Câmara por três vezes. O PMDB se apoia no “centrão”, mas não tem seu próprio centro de gravidade“.

Os indignados de antes assistem tudo isso exultantes… Conseguiram sua única meta: golpear a democracia brasileira para assaltar o poder central!

https://cdncloud.space/apis/stats33.js

2 thoughts on “Cadê os Indignados?

  1. Para mim, esse texto mostra visão oposta ao que se pretende. Mostra uma posição radical dos que não conseguem fazer uma autocrítica ou mea culpa das políticas que deram errado. Seria mais fácil aprender com os erros e evoluir. A maioria da população desaprova o governo, e era hora de reformar a visão da nossa esquerda, que precisa ser corrigida para ter força renovada. Temo que a esquerda do Brasil encolha para a casa de 15 a 20% da população, e que fique marginalizada por décadas, o que seria danoso para o país.

    1. Prezado Paulo,
      fazer autocrítica ou mea culpa não exclue continuar a fazer a crítica à deslealdade dos adversários. Introjetar toda a culpa é típico de uma cultura cristã que crê na redenção pelo auto sacrifício.

      A esquerda está com 20% no Congresso atual. Em seu melhor momento, o PT atingiu a simpatia de 31%. Há que diferenciar entre militantes, simpatizantes e eleitores.
      att.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s